home Antologia, LITERATURA A Capital – Robert Menasse (Dom Quixote, 2019)

A Capital – Robert Menasse (Dom Quixote, 2019)

A melhor forma de resumir A Capital talvez seja chamar-lhe uma paródia magistral àquilo que hoje se tornou a União Europeia, expondo o cinismo que capturou as suas diferentes instituições. Robert Menasse, vencedor do Prémio Livro Alemão (2017), apresenta-nos seis peculiares personagens. Alois Erhart (austríaco), professor universitário que integra um think tank, ou seja, uma equipa de especialistas formada para aconselhar o Presidente da Comissão Europeia quanto à melhor forma de actuação para o futuro da UE, David de Vriend (polaco), velho sobrevivente do Holocausto que, ligeiramente demente, se muda para um lar de 3ª idade em frente a um cemitério, Émile Brunfaut (belga), comissário da polícia de Bruxelas e neto de um herói da resistência republicana belga, Mateusz Oswiecki (polaco), convertido pela passagem por um seminário num “soldado de Cristo” (uma espécie de Operações Especiais da Igreja) e finalmente, Fenia Xenopoulos (cipriota grega), directora contrafeita da Direcção-Geral de Educação e Cultura e Martin Susman (austríaco), o seu assistente.
Os paralelos que entre elas se estabelecem e as dicotomias que simbolizam tornam-se evidentes através duma escrita muito cinematográfica, em que sentimos o avançar da acção como se de uma mudança de plano se tratasse.
Esta história decorre em três diferentes dimensões, que se sobrepõem e se fundem a ponto de lhes perdermos os contornos. Primeiro a tela de fundo: um vulgar drama policial, de um homicídio insólito no centro de Bruxelas, tão subtil quanto se quer um tapete na sala. Sobre esta, a segunda dimensão, já bem mais presente e óbvia: o desenvolvimento do “Jubilee Project” pela Direcção-Geral de Educação e Cultura, nas pessoas da sua directora, do seu assistente e restante equipa, por ocasião do aniversário da Comissão Europeia. É aqui que nos são descritas com pormenorizada acutilância as múltiplas bizarrias que pululam nas instituições europeias – do Parlamento Europeu, do Conselho Europeu, ambas muito ao de leve e, com perturbante assertividade, da Comissão Europeia, inclusivamente pela forma como se degladiam entre si. Por último, uma terceira dimensão que confere o tom irónico a toda a narrativa e interliga as outras duas: uma estranha obsessão com porcos, que nos oferece um verdadeiro tratado sobre a conduta actual dos mass media e a própria natureza humana.
Está aqui tudo, neste romance: críticas mordazes disparadas com soberba elegância à tecnocracia, à ambição pessoal em detrimento do bem comum, ao papel das soberanias nacionais num modelo transnacional, à promiscuidade entre os Estados e a Igreja, à desumanização do indivíduo. Até as grandes questões que têm afligido a Europa (ou será antes os europeus?, talvez nem todos) aqui encontramos retratadas: a crise dos refugiados, a emergência das alterações climáticas, a sobrepopulação (exacerbada pelo fluxo turístico) e o terrorismo (tanto o que provoca atentados nas grandes capitais, como aquele que se encontra na violência das medidas de segurança com que convivemos tão bem).
Tudo nesta obra adquire um certo simbólismo, por retratar tão bem a realidade em que nos movemos, sem correr o risco de a pintar com laivos de distopia. São muitas as metáforas, analogias e alegorias que povoam o decurso da narrativa, e que nos conduzem à medida que procuramos o desvendar o mistério daquele homicídio por resolver, a concretização do Jubilee Project e o desfecho do porco que vagueia errático por Bruxelas. Na verdade, isso acaba por assumir um plano quase secundário face a tudo o mais que aqui encontramos. Destaco a metáfora do bom funcionário (como diz Bohumil a Susman quando o convida ao seu gabinete), que é aquele que “reforça com fita adesiva um alarme que já está morto”, ou a analogia entre um funcionário da Direção-Geral de Assuntos Económicos e Financeiros (Maurice Géronnez) e um baço, ambos responsáveis por desintoxicar os restantes organismos (funcionário esse que começa a falhar quando se dá conta da proporcionalidade entre a austeridade e o aumento do número de suicídios), ou ainda o homicídio que tanto tardamos em resolver, subtil alegoria de como a violência já se tornou parte omnipresente do nosso quotidiano (e no entanto, aparentemente inconsequente).
Tratando-se duma obra de ficção, é notável como consegue escapar à armadilha da caricatura no retrato que apresenta, sem comprometer a frontalidade com que o faz. Exemplo disso são as alusões a acontecimentos reais com que pontua a narrativa: a ignóbil “caridadezinha” no caso grego, o impedimento de descolagem conseguido por passageiros que recusaram a deportação forçada de um checheno para a Rússia, o atentado no metro de Bruxelas, escritos como se também eles tivessem sido ficcionados.
Colorindo a narrativa com belíssimas descrições de Bruxelas, Cracóvia e Viena (das suas gentes e dos seus costumes, da forma como a língua nos une e nos separa, e ainda pormenores deliciosos acerca da sua gastronomia), vamos assistindo ao desenrolar da relação causa-efeito que se gera a partir da ideia de que o passado pode alicerçar o futuro, num mundo em que a loucura de insistir nas mesmas soluções sem que se consigam resultados diferentes parece ser institucionalizada. Uma leitura indispensável nos tempos que atravessamos.

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