home Didascálias, TEATRO A Chegada de Um Comboio à Cidade – Teatro Carlos Alberto, 13/7/2018

A Chegada de Um Comboio à Cidade – Teatro Carlos Alberto, 13/7/2018

A peça inicia-se com duas personagens femininas sentadas em fatos de banho numa estância balnear, num cenário moderno desolado de “betão, carbono e silício”. Essas duas personagens são Sílvia (Sílvia Santos) e Tânia (Tânia Dinis), personagens que contemplam um longo silêncio, imersas num profundo enfado, numa vida de “mortos-vivos”, à espera de um comboio que passe.

Sílvia

absolutamente nada.

o comboio fica parado

e não acontece nada.

Tânia

porque é que o comboio parava e ficava à espera?

Sílvia

não faço ideia.

nenhum passageiro descia,

ninguém embarcava.

e o comboio à espera.

uma eternidade.”

Tal como a sua obra dramática anterior Dos Mundos Interiores (2016), neste A Chegada de Um Comboio à Cidade Luís Mestre foca-se nos dramas íntimos das personagens femininas, nas vidas emocionais das mulheres contemporâneas, e constrói um veículo para uma análise da condição feminina nos dias de hoje. Nesta última peça, inspira-se no clássico Quando Nós, os Mortos, Despertamos (1899) do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, e reinventa-a numa versão contemporânea. Mestre já se tinha inspirado anteriormente na obra de Eurípedes para escrever Agora sou Medeia (2010), e na de William Shakespeare para escrever Do Precipício Tempestuoso de Ricardo III (2013). Quando Nós, os Mortos, Despertamos é uma peça tardia de Henrik Ibsen, considerada um epílogo, uma despedida da sua actividade criativa, focada na personagem do escultor Rubek e nas suas relações com as mulheres, uma observação crítica sobre o papel das mulheres no mundo da arte e na sociedade em geral.

No inicio da peça de Ibsen, encontramos o escultor Rubek e sua esposa Maia a regressarem a casa depois de vários anos no estrangeiro, completamente entediados da vida de privilégio desfrutada após Rubek atingir o sucesso artístico com a sua escultura “O dia da ressurreição”. No seu trabalho artístico, Rubek usou como modelo Irene e, no que poderia ser uma parceria igualitária, ou seja, entre modelo e artista, homem e mulher, Irene acaba por tornar-se mero objeto para Rubek. Dessa forma, assim que termina sua escultura, Rubek desconsidera Irene e esta desaparece, tornando-se como morta. Entretanto, Rubek torna-se famoso como escultor e casa com Maia. O sucesso da sua obra torna-o um homem amargurado e misantrópico, distante das suas próprias pulsões e instintos.

Posteriormente, numa ruptura da monotonia e aborrecimento das personagens, Irene reaparece e recorda a Rubek como foi tratada com indiferença, trazendo à superfície as insatisfações deste. Consequentemente Rubek volta a Irene e abandona Maia, mas esta acaba por perseguir Ufheim, um caçador de ursos e o oposto de Rubek. No final da peça, Rubek, Irene, Maia e Ufheim escalam uma montanha para alcançarem um estado auto-superação, mas através do supremo sarcasmo de Ibsen, acabam por ficar perto da morte ou acabam mesmo por morrer. 

Por seu lado, em A Chegada de Um Comboio à Cidade Luís Mestre coloca as questões de gênero explicita e diretamente no palco, ao focar-se sobre o triângulo amoroso formado por Tânia, Sílvia e Ana.  Tal como na peça de Ibsen, as personagens femininas formam o casal protagonista que sobe ao palco (Tânia e Sílvia), juntas todo o tempo e profundamente insatisfeitas com a sua vida, dominada pela “mais moderna tecnologia com o objetivo de substituir o contacto humano”. Mais tarde, uma terceira personagem feminina Ana (Ana Moreira), constitui o último elemento do triângulo de personagens exclusivamente feminino. Ana reafirma a sua pretensão de voltar a ter uma relação com Tânia e introduz um momento de conflito entre Tânia e Sílvia, uma descrição interessante e bem conseguida sobre as tensões nas relações complexas do mundo moderno. Nesta peça apresenta-se uma perspectiva privilegiada sobre as relações femininas e o impacto da evolução tecnológica nessas relações, num tempo em que foram banidos o silêncio e a quietude.

No mundo futurista e distópico de A Chegada de Um Comboio à Cidade, a acção decorre numa sociedade de “multitasking” e produção em massa, onde as personagens tentam fazer uma transposição para um mundo alternativo e mais genuíno, longe da explosão de imagens e sons que acaba por nos paralisar. As personagens vivem num grande prédio, um mundo vertical e impessoal onde são parte de uma “máquina de servir sem fim criada especialmente para o isolamento” e questionam a sua condição, no que poderia ser classificado de uma espécie de existencialismo “light”, num texto que é recorrentemente derivativo e pouco inspirado.

“não pode ser só espaço e física,

não achas?

tem de haver uma espécie de magia

que liga isto tudo.”

“e eu tenho de adivinhar o sentido delas.

(pausa longa)

partiu-se alguma coisa em ti.

estive morta muitos anos.

(silêncio)

mas agora…

(interrompe-se)

sinto que começo a despertar

de entre os mortos.”

Enquanto a peça de Ibsen fazia uma crítica acrimoniosa à condição do artista e ao papel da mulher no final no século XIX, a peça de Mestre parece querer fazer uma crítica substancial e uma interrogação da modernidade e do papel da mulher nesta, e oferece ao espectador um retrato intransigente do mal-estar do mundo contemporâneo. No entanto, esta crítica alargada acaba por ser pouco mais do que um nomear inconsequente das perversidades do mundo moderno, sem grande poder crítico, acabando ele próprio por ser incapaz de discernir “o que é fútil e o que é necessário”.

“o infinitésimo,

o imensamente pequeno impôs-se:

a conquista do minúsculo

é a grande corrida do século.

os átomos são alterados,

os genes manipulados,

há novos materiais,

a matéria viva é transformada e

submetida à matéria inerte.

existe um novo mundo nano

que afecta a nossa vida

em todos os territórios.

(pausa curta)

um sistema fútil,

uma cultura lipófoba.

o universo light

onde o leve impera.

nada é melhor que a magreza

em todos os domínios.com o corpo:

as dietas tornaram-se

uma práctica das massas,

os ginásios e o fitness prosperam,

as imagens de corpo liso e esguio

estão em todo o lado.

com a mente:

gadgets,

os anúncios já não vendem um produto,

mas um estilo de vida que nunca teremos,

o mundo virtual do gamming,

as músicas leves,

a literatura feel good,

a animação perpétua.

a realidade confunde-se com…

(interrompe-se. pausa)

já não sabemos o que é fútil

e o que é necessário”

O próprio Luís Mestre interpreta o papel do Arquitecto, o criador do prédio e das regras deste mundo desolador onde as personagens femininas divagam. Esta referência ao Arquitecto é em parte uma referência óbvia e pouco original ao papel do encenador e ao mesmo tempo à clássica figura totalitária da distopia.

O tom exasperado e quase apocalíptico da peça de Ibsen, apesar de se focar em termos muito específicos do final do século XIX, consegue impor ao espectador um tom vibrante ainda contemporâneo. Já a peça de Mestre, ao querer ser tão abrangente na sua descrição de um moderno dístico, não é suportada por um texto denso ou por construção de personagens suficientemente elaborada. Na realidade, parece que as personagens desta peça estão aborrecidas, sem grande razão ou explicação para isso, apenas talvez por ser essa a “condição moderna”. Este tema acaba por não ser explorado de forma viável, mas antes sem intensidade, humor ou qualquer tipo de trabalho de linguagem que permitiria, como tantas peças bem conseguidas do repertório teatral (particularmente o do chamado Teatro do Absurdo e afins), transpor os dramas das personagens directa e activamente para o espectador. De facto, as personagens permanecem estáticas, presas às suas cadeiras, perdidas na sua monotonia (e na do texto), e o simplismo do cenário acaba por inevitavelmente adensar o tom parco desta produção (Lamentável quando este tipo de minimalismo acrítico na cenografia se torna uma espécie de moda nas nossas produções teatrais).

É igualmente incompreensível o propósito das intromissões com introdução da música de Bach, das referências às suas obras, ou da mencionada figura do Conde, que nada acrescentam ao enredo ou ao estilo da peça, completamente estranhas ao mundo futurista homogéneo descrito.

A Chegada de Um Comboio à Cidade começa com a descrição de um evento extraordinário que parece capaz de quebrar a monotonia das personagens; da mesma forma, parece anunciar mais um texto dramático interessante produzido em Portugal, perspectiva que não se cumpre. Apesar de louvável, a mera menção dos temas da condição feminina no teatro contemporâneo revela-se manifestamente insuficiente. Como espectadores de teatro, queríamos acima de tudo um drama de intensidade, de impacto, um teatro que valesse por si mesmo, tal como a grande obra de Henrik Ibsen que Luís Mestre aqui evoca. Por isso, por cá continuaremos à espera da chegada de um comboio mais consequente.

Esta co-produção do Teatro Nova Europa e do TNSJ, com o apoio do Teatro Íntimo, despede-se amanhã do Teatro Carlos Alberto.

Foto ®Susana Neves

Mais textos sobre Teatro AQUI

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *