home Antologia, LITERATURA A Lenda de S. Julião o Hospitaleiro de Flaubert – Amadeo de Souza Cardoso (Documenta, 2016)

A Lenda de S. Julião o Hospitaleiro de Flaubert – Amadeo de Souza Cardoso (Documenta, 2016)

A Lenda de São Julião o Hospitaleiro, publicada em 1877, acompanhou o seu autor, Gustave Flaubert, durante quase toda a sua vida, tendo sido por várias vezes reescrita e parte integrante de outros livros seus, como é o caso de Madame Bovary, em que, nas versões iniciais, constava uma longa cena cujo cenário era a Catedral de Rouen. A partir de um vitral do séc XIII dessa catedral, Flaubert conta uma lenda medieval impregnada de um ambiente mágico e trágico, de parricídio e de medo. Amadeo de Sousa-Cardozo copiou este mesmo vitral em 1912, com todo o detalhe e terá sido este trabalho e o conhecimento que veio a ter da obra de Flaubert que estiveram na génese da ideia de ilustrar este conto.

Nesta edição conjunta da Fundação Calouste Gulbenkian e da Documenta/Sistema Solar, publicada por ocasião da exposição “Amadeo de Souza-Cardoso 1887-1918” no Grand Palais de Paris, entre 20 de Abril e 18 de Julho de 2016, temos acesso à integralidade do texto original (em francês) de Flaubert, ilustrado e copiado por Souza-Cardoso, num volume de rara beleza e de tiragem reduzida.

Para tornar o conjunto ainda mais apetecível, encontramos um texto em versão bilingue (português e inglês) de Maria Filomena Molder, em que se demora sobre ambas as obras, sobre o seu contexto cultural, a sua hermenêutica e a sua génese. Segundo Molder, para Amadeo “A Lenda…” representava “um instrumento de catarse, de libertação, no qual se entretecem magneticamente as inquietações que o dilaceram, todas respeitantes à identidade e à imortalidade” (215). Apesar de Flaubert não ter sido grande adepto da ilustração da sua obra, o que Amadeo fez nesta fantástica obra de arte foi bem mais do que isso, “inscrevendo-se num contexto contemporâneo de experimentação das relações entre escrita e pintura, em que os vínculos mais arcaicos são inscritos nas desarticulações reveladoras, nos acidentes bem-vindos que os ímpetos modernos provocam, no seu caso inseparáveis da questão da identidade. E é precisamente neste trabalho de copista, intérprete visionário e ilustrador, que Amadeo se revela original e poderoso.” (238)

Uma edição essencial para qualquer apreciador de melhor que a Arte portuguesa tem para oferecer, com o bónus de ter ao dispor um dos livros derradeiros de Flaubert e de ficar a entender ambos com a escrita informada e incontornável de Maria Filomena Molder. Um trio imperdível e uma obra de referência que urge (re)descobrir.

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