home Didascálias, TEATRO A Mentira/A Verdade – Teatro Aberto, 13 e 19/12/2018

A Mentira/A Verdade – Teatro Aberto, 13 e 19/12/2018

O Teatro Aberto tem em cena até março duas peças do francês Florian Zeller: A Mentira (escrita em 2015) e A Verdade (de 2011), apresentadas alternadamente nas salas Azul e Vermelha de quarta a domingo. Numa encenação de João Lourenço, as quatro personagens Joana, Miguel, Patrícia e André, corporizadas pelos homónimos Joana Brandão, Miguel Guilherme, Patrícia André e Paulo Pires, semeiam, com muito humor e algum sarcasmo, a dúvida sobre o que será a verdade e a mentira.

Apesar de ser perfeitamente possível ver apenas uma das duas comédias de costumes, depois de assistir a ambas percebe-se que a magnitude do empreendimento que é levar à cena estes dois espetáculos em simultâneo, com o mesmo elenco, tem um objetivo maior: dar ao público uma visão completa das consequências que uma de teia de infidelidades e inverdades pode ter nas relações interpessoais.

Em A Mentira, o casal Joana e Miguel é confrontado com as vantagens e os inconvenientes de dizer a verdade. Afinal, pode mentir-se por amor, por amizade ou por compaixão. Sendo assim, não será a mentira preferível ao sofrimento, à desilusão e à dor que a verdade crua pode implicar? «O que é a verdade?» – pergunta Miguel, a personagem que a determinada altura interage com o público em busca de aconselhamento. Miguel sorri, encolhe os ombros e não responde. Miguel não sabe responder, nem a plateia. Será a verdade mais importante do que a manutenção de uma relação? Será a mentira preferível, se não mesmo essencial para a estabilidade emocional, para a manutenção de um casamento, para a sobrevivência das relações interpessoais? Afinal, «Se toda a gente dissesse a verdade, não existiria um único casal à face da Terra»…

Num cenário tripartido, entre o escritório de uma editora, o quarto do casal e a sala da casa, e rodeado por uma instalação que contém um conjunto de pinturas que representam as quatro dimensões da mentira (a dimensão moral, religiosa e ética; a dimensão das relações humanas e amorosas; a dimensão sociopolítica e a dimensão simbólica) onde o público pode entrar antes da sessão, a atualidade perpassa no mobiliário, na decoração, nas roupas, nos gestos e na postura das personagens, particularmente nos tiques nervosos de Joana, que denunciam claramente o seu caráter inseguro e a falsidade de algumas das suas confissões.

Por seu turno, em A Verdade, é de mentira que falamos, sobretudo do mentiroso compulsivo que é Paulo, casado com Joana e com uma relação com Patrícia, mulher do seu melhor amigo Miguel. O cerco vai-se apertando com as perguntas da mulher, as dúvidas da amante e a dissimulação do amigo. Não sendo nenhum deles aquilo que aparenta ser, Paulo vai sendo sucessivamente confrontado com as consequências de ir sabendo a verdade, até ao ponto em que, de forma mais ou menos consciente, prefere continuar a ser enganado porque, afinal, «Se toda a gente dissesse a verdade, não existiria um único casal à face da Terra»…

Curiosamente, o cenário e os figurinos desta A Verdade remetem-nos para os anos 50, numa citação explícita à série Mad Men e numa alegoria sobre o caráter pretérito da genuinidade e da franqueza. A casa de Paulo e Joana surge como espaço fixo, sempre visível em toda a peça, e outros vão sendo alternados aos olhos do público, como a casa de Miguel e Patrícia, os quartos de hotel onde os dois amantes se encontram e o balneário onde, enquanto se despem (mesmo) e se vestem depois de um jogo de ténis, Miguel e Paulo vão fingindo e mentindo descaradamente. Também aqui é Joana que, com um extremoso cuidado denunciador de alguma culpa, uma exemplar contenção durante os episódios de confronto mais intensos com o marido e uma soberba interpretação não-verbal no final da peça, deixa transparecer a verdade que Paulo prefere não ver.

João Lourenço, em declarações ao Jornal Público, lembrou os «casais que se irão enfiar no carro, no metropolitano, ou seguirão a pé à saída do teatro, fazendo o seu caminho muito calados». De facto, com um denominador comum – a dúvida permanente sobre os benefícios da mentira – ambas as peças usam o microcosmos da vida conjugal para nos lembrar violentamente que a mentira é uma realidade constante da nossa vida e a verdade nunca se sabe ao certo. Nem mesmo quando falamos daqueles que conhecemos melhor.

Por defeito profissional, Maria de Deus Botelho escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Foto © Marta Caria

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