home Antologia, LITERATURA A Metamorfose – Franz Kafka (Livros do Brasil, 2018)

A Metamorfose – Franz Kafka (Livros do Brasil, 2018)

No momento de reeditar um livro com o estatuto de A Metamorfose, poderá haver dois tipos de atitude: entorpecimento ou reacção. Aqui, optou-se pela segunda. Álvaro Gonçalves não se limitou a rever para esta edição o seu notável trabalho de tradutor: antepôs-lhe uma cronologia crítica que revisita importantes passagens de Kafka, algumas das quais estão entre as mais memoráveis da sua lavra. Por conseguinte, não é apenas a vida de Kafka que toma lugar: lado a lado com a descrição biográfica, correm importantes reflexões do tradutor e máximas emblemáticas de Kafka, como «Praga não larga. A nós os dois. Esta mãezinha tem garras.» (p.14), ou valiosos testemunhos colhidos em cartas suas, como a muito citada que o autor dirigiu a Oscar Pollak, em que defendia: «Se um livro que lemos não nos acorda com uma punhada no crânio, para quê lermos então o livro? (…) um livro tem de ser o machado para o mar gelado que se encontra dentro de nós». (p.15) Ou essa, remetida a Felice Bauer, que contém a afirmação, lapidar e fundamental: «Não tenho nenhum interesse literário, mas sou feito de literatura, nada mais sou e nada mais posso ser.» (p.18) Além das cartas, o poderoso manancial dos diários kafkianos é chamado a depor. É o caso de uma página datada de 1910 em que se inscrevem estas palavras: «Vou saltar para dentro da minha novela, mesmo que isso despedace o meu rosto.» (p.16)

A reavaliação de momentos reflexivos e memorialísticos na escrita de Kafka permite a esta nova edição sustentar um retrato ao mesmo tempo mais encorpado e mais interpelante do autor. Por exemplo, há determinados efeitos biográficos, vestígios sabiamente obliquados pela narrativa de A Metamorfose, que se podem entender mais cabalmente, através da leitura destes fragmentos colhidos criteriosamente das páginas não-ficcionais de Kafka. «Segundo refere na Carta ao Pai, Kafka oferece um exemplar ao pai [de Na Colónia Penal, publicado em Outubro de 1919], que, para não interromper o habitual jogo de cartas nocturno, se limita a dizer: “Põe-no em cima da mesa de cabeceira!”» (p.19) Também o pai de Gregor mais não faz do que «levantar os braços» (p.69), desde a poltrona da qual não se levanta, à chegada das muitas deslocações do seu filho, o caixeiro-viajante. Em registo paralelo, a dado momento da narrativa, o pai de Gregor há-de obrigá-lo, à força, a retirar-se para a reclusão do seu quarto. Fá-lo-á com uma bengala. Há nesse passo uma intersecção perigosa e saturada de sentidos. É sabido que o pai é, no universo kafkiano, uma entidade problemática, geradora de diversos conflitos, atiçadora de traumas e revoltas, agente infiltrado em muitos momentos da escrita do autor. Aqui, não há como deixar de ver uma transposição distorcida e redutora (a família de Gregor vive à sua custa; o negócio do pai falido cinco anos antes) de vivências do próprio autor, que mantinha, realmente, uma relação enormemente tensa com a figura paterna. Esta, para mais, é neste ponto provida do elemento simbólico da bengala, índice de poder e dominação.

Kafka referia-se à Metamorfose como «pequena história» (p.9); mas, em carta a Felice Bauer, descreve-a de modo menos displicente, como «uma história um pouco assustadora» (p.17), acrescentando mesmo: «Iria assustar-te a valer» (id.). Avaliação, obviamente, muito mais ajustada desta novela. Todo o pesadelo, a inteireza perturbadora do mal que recai, maciço e arbitrário, sobre Gregor, crescerá, tomará um volume avassalador, que tudo envolve como uma nuvem de transe, um negrume total. Cresce à medida exacta em que o restante mundo se mantém numa insidiosa normalidade ao redor de Gregor. O quarto que o acolhe, na sua inércia, é uma cápsula dolorosa como um insulto; a casa forma uma armadilha cruel, com seus ritmos indiferentes à desdita do homem que, na sua dupla carapaça, de insecto e recluso no seu próprio aposento, consome o adiamento de uma extinção ignóbil. Na verdade, a carapaça é tripla (mas quem é que está a contar?): Gregor encontra-se em moratória, no seu emprego de caixeiro-viajante: vem cumprindo os seus deveres até poder saldar as dívidas contraídas pelo pai.

Como se fizessem pouco dele, as circunstâncias apenas lhe arremessam a ilusão de óptica, no momento em que desperta, «de sonhos inquietos» (p.27): o quarto parece-lhe, então, «demasiado pequeno» (id.). No começo do segundo capítulo, Gregor acordará «de um sono pesado, semelhante ao desmaio» (p.49), uma réplica do sismo inicial, porventura ainda mais alarmante, em que o «desmaio» é um simulacro da morte. «Deve ter tentado umas cem vezes» (p.27), aventará o narrador, a dado trecho, tentando determinar o número de vezes que Gregor ensaia um movimento para fora do lugar em que a desgraça o colheu de uma vez para sempre. É importante que o narrador seja uma entidade capaz de gerir o seu capital de conhecimento, não se revelando demasiado conhecedor, quando o cenário é de pura insânia. A ausência dessa consideração poderia ter feito claudicar este fragílimo castelo de cartas que é a ideia de uma narrativa de um caixeiro-viajante convertido em insecto. Como não transformar tudo isto em anedota, um pueril dito de espírito, uma tropelia pífia? Uma das vias consiste num avanço milimetricamente calculado, que desvela tão pouco de cada vez que tudo se move como se escorresse, rastejasse, e não à medida de um passo ou de uma corrida. Gradualmente, Gregor vai-se dando conta das suas mudanças (apesar da súbita alteração que foi a sua, aspecto minuciosamente tratado no escrupuloso prefácio de Álvaro Gonçalves, que já traduziu esta novela como A Transformação, mas concedeu no título consagrado pela tradição, embora ele faça pressupor, conforme defende AG, uma modificação em regime gradual que, explica, não está presente na palavra alemã «Verwandlung» [«transformação», precisamente]). Posteriormente, essa forma de locomoção será, mais do que uma analogia possível, a única alternativa para locomover um corpo em estado de sítio, uma aberração gritante – «deixava, aqui e ali, ao rastejar, rastos da sua substância pegajosa» (p.62). Outro processo para manter no limite a tensão é sustentar a análise de forma tão segura quanto inconspícua, ao mesmo tempo que se mantém essa «precisão irónica» com que Nabokov sintetizou o estilo da prosa kafkiana (Aulas de Literatura, Relógio D’Água, 2004, trad. Salvato Telles de Menezes). Como nesse lance do seu transe em que Gregor se vê «enredado numa qualquer esperança absurda». Também absurda, na sua incrível eficácia, é esta fórmula de apresentação. Sabemos, começamos logo a saber, nunca perderemos de vista – salvo nesses escassos momentos em que nos abandonamos à pueril solidariedade que assalta mesmo o mais cínico dos leitores – que toda a esperança é vã. Toda ela é uma força que rói e se aniquila. Ver Gregor «enredado» na vacuidade dessa esperança é um cruel e impressivo reforço de sentidos. O próprio Gregor prolongará o embuste dessa esperança de contrabando – por estar em negação, ou por insanidade temporária (ou permanente), resulta indiferente, como é dolorosamente óbvio. Tão mais doloroso é esse estado de coisas, quanto o absurdo tomou conta de tudo. O problema é que dizer «tudo» é miseravelmente pouco. Porque a totalidade, que preenche o espaço concentracionário desta novela, é limitada, menor, insuficiente: cinge-se ao corpo de Gegor. Tudo o resto se recusa a acompanhar a insânia. Quando a figura de autoridade vem inquirir por que motivo o caixeiro-viajante não apanhou o comboio que devia, de repente, tudo se revolve e revolta, e é a ordem natural das coisas que passa a dominar este jogo de trevas. Gregor quer partir, assumir a sua responsabilidade – verdadeira obsessão para ele, conforme o relato da mãe ao gerente que visita o relapso trabalhador (outro absurdo a juntar ao todo convulso, mas este de refinado cariz burocrático) – mas, obviamente, e com a aparição de Gregor, corpo tornado anomalia, o piedoso representante do poder foge aterrorizado.

Entretanto, a vida quer forçosamente retomar os seus ritmos cruelmente indiferentes à provação de Gregor. Este encontra-se posicionado num aposento especialmente vulnerável, com vários acessos, o que, em vez de deixar mais arejado aquele espaço, apenas torna mais pungente a impossibilidade de sair, por multiplicar pontos de fuga estéreis, sem préstimo. Nabokov falou de um apartamento «dividido em segmentos, como lhe acontecerá a ele [Gregor]» (Aulas de Literatura). Há nele uma espécie de corrente de ar virtual, que espicaça sem remédio o recluso, concentrado no seu quarto. Perante a esterilidade de qualquer fuga, a esperança irá soçobrar – «Ali ficou durante toda a noite, que passou em parte num sono leve, sobressaltado constantemente pela fome, em parte também perdido em cogitações e esperanças vagas, que levavam todas à mesma conclusão, a de que, por agora, tinha de se manter sereno» (p.51).

O fim chega perturbadoramente apaziguado, com a qualidade sinistra que adquirem as situações em que o insólito de súbito se cristaliza, derradeiro, num fechamento drástico – «Ainda presenciou o romper da aurora lá fora frente à janela. Depois, sem ele querer, a cabeça descaiu por completo e, das narinas, saiu debilmente o seu último sopro de vida.» (p.89) É antecipado por um dos momentos mais imperturbavelmente cruéis de toda a novela, aquele em que a irmã de Gregor profere estas terríveis palavras, autêntica sentença de morte: «Recuso-me a pronunciar o nome do meu irmão diante deste monstro, e por isso digo: temos de tentar livrar-nos dele.» (p.86)

A leitura e releitura desta novela revela até que ponto foi eloquente a carta que, em 1922, Kafka escreveu a Max Brod, em que afirmava com uma clareza fria como gelo, cortante como o fio de uma faca (Nabokov descreveu o tom da escrita de Kafka como «preciso e formal» [Aulas de Literatura]): «Toda esta escrita não é outra coisa senão a bandeira de Robinson no ponto mais alto da ilha.» (p.21) A Metamorfose ocupa um lugar só seu, um pódio indisputado. Porque a corrida foi solitária, e ninguém ganhou. Só a perda, a desolação e o desespero ficaram, ex aequo, em primeiro lugar.

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