home Antologia, LITERATURA A Morte é uma Flor. Poemas do Espólio – Paul Celan (Cotovia, 2017)

A Morte é uma Flor. Poemas do Espólio – Paul Celan (Cotovia, 2017)

A obra poética de Paul Celan é uma obra de dimensão trágica, que medita sobre o destino da própria linguagem poética após a Segunda Guerra Mundial. Acompanhá-la, entre os seus primeiros poemas de 1938 e os derradeiros poemas de 1970, é como acompanhar um enredo dramático, em que a linguagem poética é reduzida quase ao silêncio, até ao limite da expressão. Poeta judeu de língua alemã e sobrevivente do Holocausto, Celan é um exilado da sua língua materna alemã, e ler os seus últimos poemas é como entrar numa tempestade de imagens poéticas, cada vez mais concentradas e densas. Atravessa-os a dúvida sobre a capacidade da expressão poética: sobre se o real e a tragédia poderiam continuar a produzir uma expressão poética válida.

Nos últimos meses da sua vida, Paul Celan morava num apartamento quase sem mobília, separado da sua mulher Gisèle, que não suportava viver mais consigo devido à sua extrema exposição artística e contínua fragilidade psicológica. Celan atirou-se ao rio Sena em Paris, durante a última semana chuvosa de Abril de 1970, deixando para trás três pilhas de manuscritos por publicar durante a sua vida.

A Morte é uma Flor- Poemas do Espólio, reeditado pela editora Cotovia, é uma antologia de poemas retirados do espólio não publicado pelo autor, há muito esgotada no mercado português. Alguns poemas não foram concluídos pelo autor, outros são fragmentos provenientes dos últimos dez anos da sua vida. Estes poemas são selecionados e traduzidos por João Barrento, a partir da última edição critica alemã dos poemas do seu espólio.

A concisão e aspereza dos últimos poemas de Celan, acompanham a sua progressiva desconfiança na capacidade de a linguagem retratar fielmente ou mobilizar a experiência humana. Esta linguagem, se pode potenciar as capacidades de expressão poética, pode ao mesmo tempo aumentar a precariedade e a vulnerabilidades da sua tentativa comunicativa. O exílio interno de Celan dentro da própria língua alemã, é um conflito crescente que se revela na linguagem cada vez mais concisa a abrasiva que utiliza, e a sua poesia é ainda muitas vezes rotulada como sendo inefável ou hermética, algo que sempre rejeitou contundentemente. Os poemas nunca atingem um desfecho emocional ou qualquer espécie de exaltação lírica. Pelo contrário, cada um dos seus versos parece incorporar uma luta contra a própria linguagem alemã, contra “a escuridão da língua que traz a morte” que a língua alemã passou a denotar durante o Holocausto.

Ao longo da carreira literária de Celan, a recepção crítica tentou associar a sua poesia inteiramente ao tema do Holocausto, como se seus os poemas fossem somente uma escrita em resposta a Auschwitz e aos campos de concentração. Mas os seus versos sobre Holocausto, ou sobre qualquer espécie de compromisso político, são insuficientes para caracterizar correctamente todas as diferentes direcções em que a sua poesia se move.

A poesia de Celan está intimamente relacionada com a memória e possui uma relação de compromisso activo com o mundo exterior, e não com qualquer espécie de devaneio lírico ou idealismo. A sua práctica poética coloca-o na companhia de outros poetas que carregam a sua existência na linguagem. Celan é um poeta afectado pela tragédia da realidade, mas que, ao mesmo tempo, tenta produzir um poema que pondera e reage, dentro do possível, a essa realidade.

MORTE

A morte é uma flor que só abre uma vez.

Mas quando abre, nada se abre com ela.

Abre sempre que quer, e fora da estação.

E vem, grande mariposa, adornando os caules ondulantes.

Deixa-me ser o caule forte da sua alegria. (página 15).

É assim uma poesia que nas suas próprias palavras: “nomeia, procura delimitar o campo do que é dado e do que é possível… a realidade não é, a realidade vai ser procurada e conquistada”.

Se traduzir qualquer poema, envolve um deslocamento inevitável a partir da língua original do poema, traduzir Paul Celan constitui um duplo afastamento, já que envolve a tradução de um poeta deslocado da sua língua. Um desafio grandioso, pelo qual João Barrento merece imenso crédito, pela sua capacidade de oferecer ao leitor parte da densidade semântica e linguagem idiossincrática original.

A escrita de Celan não reivindica uma identidade social, cultural ou espiritual ameaçada, e é precisamente por isso que Celan nunca assume falar em nome de uma cultura única por exclusão de outras. Quando visitou Israel em 1969, reuniu-se com amigos judeus de infância, da sua região natal de Bucovina, que foram para Israel antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Quando lá chegou, Celan recitou alguns dos seus poemas e ouviu a tradução desses poemas para a língua hebraica. Durante a sua estadia em Israel, Celan respondeu intensamente à experiência da terra, povo, e linguagem hebraica. Mas não permaneceu lá, e cedo voltou de vez para Paris, para a sua escrita. Para Paul Celan, tal como os seus poemas alemães traduzidos para hebreu perdiam parte da sua verdadeira essência, também sair da Europa para viver em Israel significava uma perda insuperável.

A importância da sua poesia provém precisamente da capacidade de incorporar os múltiplos conflitos do seu carácter de deslocado linguístico e cultural, o que resultou numa posição literária para além de restrições étnicas ou de nação, e numa capacidade artística sem compromissos que tenta interpelar os leitores pelo que têm de comum. Isto permitiu-lhe renovar radicalmente a própria linguagem poética, colocando-o entre os grandes poetas alemães do pós-Guerra e de todo o século XX.

A ARTE PAGA O SEU PREÇO, O SER HUMANO

não paga nenhum.

Vós sois pela liberdade da arte,

do ser humano

falais apenas sob

este

signo.

E afinal

existe em todos nós

o mesmo Deus, feio-

-belo,

e verdadeiro. (página 51)

Nos seus últimos anos de escrita, Celan reduz dramaticamente a dimensão dos seus poemas e elimina ainda inteiramente os títulos. Estes poemas parecem dramaticamente compelidos a encontrar um leitor, em busca do Outro, de algum reconhecimento. Segundo Celan, se a poesia tem algum lugar no mundo contemporâneo, esse lugar não se pode limitar a ser uma mera inscrição de um lirismo centrado no eu, e que não dá ouvidos ao outro. Ao assumir esta relação privilegiada com o leitor, os seus poemas revelam um mundo comum, de partilha, que é, ao mesmo tempo, uma interpelação dura ao que existe de mais recôndito no ser humano.

Jacques Derrida descreveu a poesia de Celan como “um descobrimento, um segredo que confirma que há alguma coisa escondida retirada para sempre para além da exaustão”. Este descobrimento, encontra-se particularmente nos poemas tardios de Celan, na sua linguagem depurada que revela duplamente a sua fragilidade e a sua resiliência vital.

OIÇO TANTA COISA DE VÓS

que não oiço mais

do que ouvir,

vejo tanta coisa de vós

que não vejo mais

do que ver,

tanta coisa me assedia

com desconversa

que dou por mim a falar

como quem conversa,

que dou por mim

a falar como quem

fica em silêncio.

Eu vivo, forte. (página 85)

Nos últimos anos da sua vida, Celan atravessou um período de profunda instabilidade pessoal. O seu casamento tinha acabado uns anos antes e vivia separado da sua mulher Gisèle, amargurado pela diminuição da atenção do público em relação à sua obra, e por uma incompreensão do que considerava ser o seu verdadeiro carácter. Para além disso, a culpa que sentia por ter sobrevivido ao Holocausto, enquanto ambos os seus pais morreram em campos de concentração nazis, era cada vez maior, o que ultimamente o levou ao suicídio, aos 49 anos de idade. Pode dizer-se que o seu destino pessoal acabou por acompanhar o “destino final do espírito judeu na Europa”, que sempre considerara partilhar, apesar de ser um sobrevivente do Holocausto.

O seu último poema, datado de cerca de dez dias antes de morrer, revolve em palavras que ele usava desde o inicio da sua obra poética, mas reduzidos até ao limite, um repetir de vocabulário chave que o fascinava: “cavar, escuro, pedra, olho”.

Não se pense, porém, que estes poemas de Celan constituem lamentos melodramáticos do leito da morte, ou são qualquer espécie de notas de suicídio. São poemas crus, austeros devido à ferida do testemunho trágico, mas que, longe de serem inteiramente desoladores ou muito menos depressivos, são permeados por uma hipótese de esperança distante. Os últimos poemas de Paul Celan, apesar do seu carácter fragmentário e trágico, incorporam a essência de um rito de passagem e de transformação, tal como as elegias do seu adorado Rainer Maria Rilke no início do século XX. São uma forma de elegia possível depois da Segunda Guerra Mundial:

NÃO TE ESCREVAS

Entre os mundos,

Ergue-te contra

a variedade dos sentidos,

confia no rasto das lágrimas

aprende a viver. (página 73)

Por defeito profissional, Jorge Ferreirinha escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Mais crítica literária AQUI

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *