home Didascálias, TEATRO A Noite Canta – Teatro Helena Sá e Costa, 4/2/2017

A Noite Canta – Teatro Helena Sá e Costa, 4/2/2017

Jon Fosse (n. 1959) nunca escreveu para ser apreciado ou sequer louvado. Ainda antes da sua avassaladora chegada aos palcos, foi romancista desde o início da última década do século passado, rápida e unanimemente aclamado na sua Noruega natal.

Em 1994 estreou-se com a peça Somebody is Going to Come. Os seus primeiros trabalhos foram comissões e o próprio nunca escondeu não ser sequer frequentador de Teatro, ou a sua insegurança inicial face a esta linguagem tão específica.

A viragem na sua confiança deu-se com o encontro de um sentido unificador para a sua obra dramática. Em entrevista ao jornal The Independent, Fosse aponta-o: “Numa peça, podes usar as pausas, as quebras e os silêncios: o que não é dito, que é aquilo de que falo, mesmo na minha prosa. Isso foi uma revelação.” Os seus detractores acusam-no de privilegiar a inacção, pela recusa do conflito dramático característico do cânone ocidental, o que torna as peças demasiado vagas e lentas. Os fãs destacam o misticismo e lirismo inerente aos seus textos, o espaço que o silêncio naturalmente concede ao espectador para também ele, com as suas experiências, ser parte integrante da obra.

Chega aos dias de hoje como um dramaturgo consagrado e consensual. Detentor de dezenas de honrarias, como o prémio Ibsen em 2010, foi já traduzido em meia centena de línguas e conta com quase um milhar de representações por todo o Mundo, sempre com a mesma recepção calorosa.

A Noite Canta é baseada em A Noite Canta Os Seus Cantos (estreada em 1997), aqui numa abordagem mais cinematográfica e intimista. Como o encenador Tiago Correia revela “Este carácter intimista e delicado que envolve os personagens transforma a experiência teatral num duplo conflito. É uma representação sagrada e trágica da vida que acontece à nossa frente e, simultaneamente, a representação de uma representação. Sagrada, porque intocável. Trágica, porque serão inúteis quaisquer artifícios.”

 

Um casal sem nome (Ana Moreira e António Parra magistrais), fechado num apartamento reduzido ao mínimo indispensável, conversa. Ou melhor, a Jovem tenta desesperadamente despertar o Jovem do seu torpor.

O Jovem é um “vencido da vida”, isolado na sua profunda solidão e depressão, desfeito pela frustração repetida do seu sonho de viver da escrita. Refugiado no seu próprio lar, todo a sua linguagem corporal é o reflexo da desistência, da incapacidade para resistir ao desafios e estímulos da inevitabilidade de existir. Teimosamente ao seu lado, a Jovem abre a peça com uma declaração de intenções: “Eu não posso mais / Não eu não aguento / Não podemos viver assim […] Não temos dinheiro / Tu não tens trabalho / Nada / Não temos nada.”

Uma relação reduzida ao dever (o casal tem um filho recém-nascido), às aparências perante a família de ambos (cuja visita, parte do texto original, é substituida por algumas frases espectrais em voz-off) e à misericórdia da Jovem perante o desamparo sofrido do companheiro.

O Jovem não esboça qualquer reacção, ou sequer a percepção do estado quase catatónico a que chegou, até ao momento em que sente a Jovem a escapar-se da prisão que ambos construíram para os destroços da sua relação, cujo derradeiro estertor ocorre diante dos nossos olhos.

A Jovem decide sair com uma amiga. Bela, ainda disponível para abraçar o Mundo para além da larga janela com vista para o cinzento do subúrbio encimado de azul. A tensão reina. É perceptível que algo mais se faz presente, entre expressões repetidas como mantras e o peso sufocante dos silêncios consentidos. A intimidade que resta dispensa a constatação expressa do óbvio. No regresso da noite de copos, ébria e feliz, a Jovem confronta o consorte com a dura realidade do fim consumado. O que resta diante do nada? Será a recordação do amor vivido suficiente para que a Jovem vacile na sua aparente determinação ?

Toda a representação é atravessada por uma angústia cortante, o cheiro incómodo das cinzas, quase tangível, de que as frequentes gargalhadas nervosas e a destempo do público foram a melhor testemunha. A urgência de um alívio cómico perante a incapacidade de lidar com o sofrimento alheio, mesmo com a consciência do seu cariz ficcional, é a prova irrefutável da excelência do texto de Fosse (e da adaptação do mesmo pelo Tiago Correia) e da sua pungente verosimilhança (nunca realismo, inadequado à subtileza do texto e das representações). Testemunhas directas ou indirectas desta derrota total, na vida como no palco, o confronto com o seu desenlace é um soco para KO. Claro que somos espectadores, certamente conscientes desse facto, mas a fluidez das fronteiras artificiais de palco e ficção instala-se perante o que trazemos à “representação de uma representação”, entre silêncios tumulares e a poesia, a espaços clara, absurda e tétrica, da nossa imanente e mortal humanidade.

 

Fosse serve-se da simplicidade e do minimalismo para oxigenar a representação, reservando ao público a liberdade de se encontrar ou perder, criar a sua verdade nos interstícios e na ambiguidade do texto e dos gestos, algo raro e precioso numa era em que os manuais de instruções para a vida e até para a morte se banalizaram. Com o trabalho de actores da estirpe de Ana Moreira, António Parra e Pedro Almendra, a experiência nunca é menos que marcante e inesquecível.

A digressão nacional prossegue até ao final de Fevereiro:

– 11 de Fevereiro Teatro Diogo Bernardes (Ponte de Lima)

– 18 de Fevereiro Cine-Teatro Louletano (Loulé)

– 26 de Fevereiro Fábrica das Ideias (Gafanha da Nazaré).

Foto © José Caldeira

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