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A Noite da Iguana – TNSJ 18/02/2017

A acção da peça A Noite da Iguana, obra seminal de Tennessee Williamsdecorre na varanda da pensão Costa Verde, na costa leste do México, em 1940, com a II Guerra Mundial como longínquo pano de fundo, no ano em que os nazis tomaram Paris e bombardearam Londres. A única referência a esta sombria catástrofe é cénica: os omnipresentes turistas alemães, que aproveitam a época baixa para festejarem longe de casa, constantemente bêbados e barulhentos. São eles que caçam uma iguana, e a prendem à casa para que não se escape.

A personagem central é o reverendo T. Lawrence Shannon (Nuno Lopes, que sozinho faz valer cada cêntimo do bilhete), “padre-despadrado-feito-guia-turístico” de senhoras evangélicas, caído em desgraça pela sua irreprimível tendência para o sexo oposto, de preferência na adolescência e incapaz de se libertar do fardo da culpa e frustração por destruir uma carreira para que sempre achara ter vocação.

Alcoólico profundo, com tendências suicidas (o “longo mergulho até à China” não parece deixar dúvidas), perante a perspectiva de um terceiro colapso nervoso, uma disposição vagueando entre a desesperada depressão e a euforia de uma esperança sem qualquer fundamento, viaja até ao Costa Verde com a sua ridícula excursão, em busca de paz, ao encontro dos seus amigos Fred e Maxine Faulk.

À chegada, descobre que Fred morreu e Maxine (Maria João Luís perfeita na sua movimentação, na sua dicção e flexibilidade, com todas as cambiantes da sua personagem perfeitamente transparentes e de uma coerência a toda a prova), a nova gerente, escolheu desfrutar da mão que o jogo da Vida lhe deu, entregando-se à luxúria, com os seus jovens empregados mexicanos, e ao torpor do calor intenso, bem regado por runs-coco, sugados em série como se não houvesse amanhã.

A chegada de Hannah Jelkes (Joana Bárcia, num desempenho sólido, desesperante na sua contenção, anulando qualquer espécie de “química” com o Shannon de Nuno Lopes), acompanhada do avô Nonno (Américo Silva), vem acentuar a instabilidade do reverendo.

Mulher vivida, pintora amadora, viaja com o avô, limitado a uma cadeira de rodas, que apresenta como “o poeta mais velho do Mundo”, procurando sustentar-se da venda das suas pinturas e da declamação dos poemas por Nonno, moribundo e já bastante debilitado mentalmente.

Representa um contraste absoluto com Maxine, criando um interessante triângulo amoroso, em que o hedonismo, liberdade e descontração da senhoria do Costa Verde se confrontam com o estoicismo da artista plástica que nunca o foi realmente.

Hannah é a personagem mais interessante do elenco, o que torna ainda mais desconcertante o aparente desfasamento entre o que diz e a forma neutra como o faz. Mas é precisamente essa décalage que acrescenta valor ao seu carácter (e por consequência, ao excelente trabalho de Joana Bárcia). Trajada com o seu quimono e os seus chinelos, evocação clara da orientalidade da sua ética, cedo revela a Maxine a sua empatia com Shannon, despertando o seu ciúme.

Compassiva com o drama do padre caído em desgraça, expulso da sua igreja por fornicação e heresia, não deixa de desmascarar a sua argumentação auto-comiserativa, no seu exagero evocativo, retórico e cobarde, pela incapacidade de encarar de frente “as assombrações” que o acompanham.

Mesmo perante a miséria (não tem como pagar o quarto), Hannah demonstra uma visão segura da Vida, para além do transitório e das fórmulas religiosas gastas que o (ex)padre, talvez por hábito, não se exime de utilizar em qualquer ocasião, como se de um escudo protector se tratasse e só ele não veja que se transformou em cinza.

Tal como Shannon quanto aos seus vícios e ao passado, também Hannah está presa aos cuidados do seu avô (confessando perto do final a vontade de o deixar para trás), mas também à sua solene e inquebrantável verticalidade, o seu pretexto conveniente perante a dificuldade de uma decisão que a leve a transcender a sua condição.

“Vê? A Iguana? Na ponta da corda? A tentar escapar-se da corda? Como você! Como eu! Como o avozinho com o seu último poema!”, exclama Shannon, antes de ele próprio decidir libertar a iguana, gesto simbólico que acaba por, como por magia ou fado, desbloquear estas existências para um desenlace feliz.

Entrevista do encenador ao Canal Q

“Compreensão e ternura, entre duas pessoas nas pontas das suas cordas.”, frase que condensa na perfeição o que versa esta peça: a humanidade e a empatia perante situações e pessoas-limite. O modo como determinadas personagens e contextos nas nossas vidas nos levam a acreditar sermos quem realmente não somos nem nunca seremos, como tão bem ilustra a dialéctica fugaz de Hannah e Shannon, é um dos seus pontos mais marcantes e a perfeita transição para o final, com a possibilidade de redenção no ar.

A encenação de Jorge Silva Melo é competente, mas não mais do que isso, deixando um travo a pouco, perante um elenco do nível do que teve ao seu dispor. Ficou o desejo de ver como seria representado este texto nas mãos de alguém mais audaz e menos reverente ao original, capaz de trazer à peça do sulista Tennessee Williams a convulsão dos nossos dias.

A Noite da Iguana é hoje representada pela última vez no TNSJ.

(Foto: Jorge Gonçalves)

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