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A Nossa Alegria Chegou – Alexandra Lucas Coelho (Companhia das Letras, 2018)

A Companhia das Letras imprime este A Nossa Alegria Chegou, que é o quarto romance e o décimo livro de Alexandra Lucas Coelho. Foi jornalista do Público, tendo sido correspondente em Jerusalém e Rio de Janeiro. São 183 páginas de um romance de romances, algo que se adivinha desde as primeiras páginas. Há vários enredos ligados, que se entrecruzam e vão sendo tecidos ao logo da história. Três amigos, Ossi, Ira e Aurora; mãe, Úrsula, filho, Felix, e pai, Atlas, já falecido, mas sempre presente – (“Algumas células dele não sabem que o pai morreu”); o Rei, Clara e o filho; Zu e Jade; o Rei e os trabalhadores; e uma série de pequenos factos que preenchem os espaços entre histórias mais importantes.

O espaço da acção, tanto presente como futura, situa-se numa zona costeira chamada Alendabar. Há praia, e, numa espécie de vila arriba e vila bajo, há três localidades: a aldeia debaixo do vulcão, a aldeia ribeirinha e a aldeia das terras altas, com os respectivos autóctones. Também há selva, aparentemente desabitada.

Os três amigos são cada um de uma aldeia diferente, e existe entre eles aquilo a que hoje se chama de poliamor. Ossi é um pescador (“um arpoador”), Aurora é da aldeia, e Ira é ribeirinho. Num contexto de vidas duras, todos têm passados calejados, se bem que Ira é, de todo o livro, aquele que verdadeiramente assume uma tridimensionalidade. Talvez tivesse sido interessante perceber como funcionam os afectos entre os três, mas este não é um romance sobre a complexidade das partilhas amorosas.

Úrsula e o filho estão numa viagem de despedida/recordação do marido/pai. Ela conheceu-o ali na localidade, e prometeu-lhe que seria ali que lhe deixaria as cinzas. Ele tem uma dimensão quase messiânica, do bom gigante, pelo que se cruzam umas considerações mitológicas e mitos simples dos primeiros povos. Este poderia ser um romance sobre a perda de um marido, de um pai, da ligação entre os três, mas não, este romance não é sobre isso.

O Rei é um Régulo do Gado, na verdade tem gado. Dono de quase tudo e todos por ali à volta. É um vilão implacável: abate reses, árvores e pessoas, escraviza os trabalhadores, polui as águas e destrói a floresta. A autora aproveita o Rei do Gado para encaixar umas pouco subtis observações ecológicas e de sociologia de classes. Mas este também não é um romance sobre fricções sócio-políticas.

Do que se percebe de Zu, é um empresário na área das novas tecnologias, provavelmente chinês. Está de visita aos domínios do Rei do Gado para comprar uma ilha onde instalará uma espécie de empreendimento turístico no meio da natureza. Zu (“faquir da tecnologia”) tem uma relação amorosa com uma inteligência artificial politicamente correcta (p. 91). Ficamos com a impressão que, apesar de tudo, à criação não corresponde o afecto. Zu despreza o Rei do Gado (“labrego”) e não gosta da natureza que tenha mosquitos. Este poderia ser um romance sobre as complexidades das alienações tecnológicas, um pouco na linha do “Her” (filme de 2013, realizado pelo Spike Jonze, e quase com a Scarlett Johansson), mas não é.

A trama principal vai aumentando de intensidade e densidade à medida que o enredo avança, os pontos vão sendo ligados, os pequenos planos começam a completar a panorâmica geral, que se vai montando a pouco e pouco, numa lógica de funil.

A autora adopta um estilo simples, de frase curta, léxico acessível, neo-hippie, em comunhão com a natureza. Quanto a esse ponto, os cenários estão bem pintados, em profusão, com vasta referência a vegetais e frutas, o que ajuda em muito ao envolvimento na leitura, a uma profundidade do exotismo do palco (“jari”, “morambas”, “lurias”, “timbaus”, “salpiras”, “napu”). Sendo o cenário à beira da água (seja o mar, seja o rio). Há também ampla referência à fauna com guelras, e o resto dos bichos são vacas.

Um alerta: vão encontrar permanentes referências a cabelos – dir-se-ia que a forma favorita da Autora para descrever as personagens é através da dinâmica capilar: ou soltam, ou apanham, ou está desgrenhado, ou isto, ou aquilo, ou aqueloutro. Iniciámos o exercício de contar o número de vezes em que o cabelo é um elemento da narrativa, mas perdemos demasiado tempo com isso e desistimos.

Há uma predilecção pelo estilo aforístico – a frase curta presta-se a tal – que descamba muito frequentemente em sentenças definitivas (“Qualquer labrego pode esconder um abismo, tal como qualquer abismo pode esconder um labrego”) francamente banais.

Os diálogos são o ponto mais fraco do romance. Contaminados pelo estilo geral, surgem em tom de parada e resposta, em que a resposta é pouco mais que uma calçadeira para a réplica. O registo de staccato torna-se artificial. Por vezes, julgamos ouvir o Miguel Guilherme a dizer que “o homem é feito para guerrear, para lutar!”. Também o uso de onomatopeias nos parece de gosto discutível.

Encontramos espaços incongruentes na narrativa: a mãe conta ao filho que o pai tinha sido ameaçado de morte, e ele começa a boiar no mar a meio da história. Um momento que se pretenderia dramático, mas o puto prefere deitar-se na água – como se alguém conversasse assim ou passasse a ouvir melhor com água nos ouvidos.

No entanto, o livro melhora com o avançar da história. Os diálogos, as descrições e as interacções tornam-se mais interessantes e ganham ritmo. Podemos dizer que acaba melhor do que começa. E não aceitamos que Félix se possa escrever Felix.

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