home Antologia, LITERATURA A Praia de Manhattan – Jennifer Egan (Quetzal, 2018)

A Praia de Manhattan – Jennifer Egan (Quetzal, 2018)

Há livros que parecem quadros. Ou se quisermos, que têm uma cor. A Praia de Manhattan, de Jennifer Egan, é isso mesmo: um livro com uma cor e com um cheiro, uma obra com vidas dentro. Considerado um dos melhores livros do ano passado, bestseller do New York Times, a edição que agora nos chega a Portugal pela Queztal, atrai-nos, desde logo, pelo design da capa: insinuante, misteriosa, cinzenta. Uma imagem do mar ao perto e o recorte da cidade, ao fundo, parecendo observar mais do que proteger. Também a estória que aqui se conta é em tons de cinzento, numa névoa permanente, que tudo envolve e parece vir de dentro das personagens, densas, profundas, enigmáticas.
A tradução irrepreensível de Vasco Teles de Menezes merece igualmente uma nota de destaque. Não há uma única emoção que se perca quando as palavras são certas e o tradutor une, com mestria, os pontos do picotado.
A citação inicial, de Herman Melville, indicia o que virá a ler-se nas longas páginas que se seguem. O Mar, a sua força, profundidade, o apelo ao desconhecido, é elemento constante ao longo do livro.
O enredo é simples mas intenso, marcado pelo percurso de um homem e das suas escolhas. Eddie Kerrigan torna-se um “partner in crime” por circunstâncias várias e alguma fragilidade, e, com esta sua opção, marca decisivamente a vida da sua família, sobretudo a da filha Anna. No entanto, a sua personagem tem o seu quê de Fénix, revelando-se na sua plenitude já perto do final da obra, num twist emocional que nos faz passar de um quase desprezo pelo seu comportamento para alguma admiração e compreensão.
Sendo uma obra marcadamente contextualizada, histórica e geograficamente situada numa América centrada no esforço da alimentação da Guerra, na década de 40 do século XX, diríamos que há uma clivagem de cunho bem vincado neste livro.

De um lado, os Homens, fadados para o cumprimento de um destino de heroicidade – tantas vezes frustrada – mecânicos quase robotizados na preparação da força militar e de resistência de um país. Em A Praia de Manhattan, as personagens masculinas surgem-nos enredadas em esquemas e grupos mafiosos, perdidas em vidas paralelas, aparentemente corajosas mas com um fundo imberbe e vagamente dócil, como uma criança perdida na rua. Não lhes temos pena, mas não somos indiferentes a alguma ternura que passa por entre as malhas dos brutos. A escrita de Egan é docemente viril. Do outro lado, as Mulheres, menos homogéneas, mais” múltiplas”. As (aparentemente) tontas, as ardilosas, as abnegadas, as sofridas.
E, como dois cães-guia que nos conduzem livro adentro, surgem as irmãs Anna e Lydia, filhas de Eddie Kerrigan. Na companhia eterna e quase mística da irmã, que chega a perturbar-nos porque nada exige e tudo suporta, segue Anna, como uma máquina, uma roldana que não pára nunca. Não é uma “stepford wife”, mas representa, antes, tudo a que aspirava uma mulher num mundo que tanto lhes subestimava as capacidades: a tenacidade das mangas arregaçadas, a resistência, a determinação, a igualdade.
O cheiro forte das docas de Nova Iorque entra-nos pelas narinas dentro, e as vidas que compõem o texto continuam, vagamente erráticas, em constante “fuga para a frente”. No (sub)mundo de Jennifer Egan, são pessoas que falham, cometem erros, voltam a tentar. Disto mesmo é exemplo Eddie, o pai longe de ser exemplar, mas que, apesar dos (im)perdoáveis erros, vergonhas e culpas, conserva estoicamente a sua ligação a estas filhas.
Num remate final, a água de Melville volta a surgir, como elemento supremo desta relação tão íntima. E lembra-nos, ao fechar este livro, que talvez o perdão e a redenção sejam o propósito de todas as fugas e de todas as viagens.

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