home Antologia, LITERATURA A Rapariga do Tambor – John Le Carré (D. Quixote, 2018)

A Rapariga do Tambor – John Le Carré (D. Quixote, 2018)

A Rapariga do Tambor é um livro cujo género, sem grandes surpresas, é a espionagem. Mas reduzi-lo a isso é ler metade da história, pois a abordagem da personagem principal é meticulosa e feita com grande cuidado.

Começamos por ter um grupo terrorista que coloca bombas em alvos israelitas na República Federal Alemã. É um grupo pró-palestiniano, composto por europeus, e liderado pelo esquivo Khalil.

Do outro lado, temos um grupo dos serviços secretos israelitas que nunca chega a ser identificado. Martin Kurtz chefia esta equipa que opera fora do âmbito oficial, determinada a infiltrar o grupo terrorista para apanhar Khalil. Para isso recruta Charlie, uma jovem e versátil actriz inglesa de teatro que nunca alcançou qualquer destaque. Actua com uma companhia mais ou menos maltrapilha, representando o que houver para representar. É uma pseudo-anarquista, ideologicamente rarefeita – como alguém a define: “é de extremo-centro”. Muito mais por inércia que por convicção, Charlie deixa-se convencer a desempenhar um papel “real”, de agente dupla, infiltrando-se no tal grupo.

O livro não é tanto sobre espionagem, mas mais sobre os processos de desfragmentação de personalidade que Charlie vai sofrendo ao longo do seu processo de doutrinação anti-palestiana, mas após um período de formação na Palestina, as suas lealdades vão ruindo, com a perda dos pontos de referência que tinha por seguros.

E por aqui ficamos, para não estragar a história. Quem já leu ou viu algum filme/série de Le Carré (“O Espião que Sabia de Mais”, “O Fiel Jardineiro”, “A Casa da Rússia”, “O Gerente da Noite”) sabe que, depois da premissa inicial, tudo ganha vida própria. No entanto, não esperem um ritmo acelerado. A história respira com tempo. Só a partir da página 360 começa a haver algum desenvolvimento do drama, o que, num livro de perto 700 páginas, quer dizer muito.

A D. Quixote edita um livro interessante, talvez um pouco grande para transportar entre toalhas e protectores solares, mas que proporciona horas de leitura entretida. Não é para os amantes de acção constante, mas mais para quem tem tempo para apreciar os ambientes políticos, as sensibilidades subtis que se vão desenhando, e a riqueza da personagem principal.

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