home Folhetim, LITERATURA A Revolução – Slawomir Mrozek (Alfaguara, 2017)

A Revolução – Slawomir Mrozek (Alfaguara, 2017)

A Revolução de Slawomir Mrozek, editado em 2017, pela Alfaguara, é o segundo volume da colecção com curadoria de Afonso Cruz, que reúne títulos que inspiraram este autor na produção da sua obra e que conta com a ilustração de diversos artistas portugueses. Neste número, a tarefa de ilustrar a arguta sátira ao espírito revolucionário criada por Mrozek, coube a Tiago Galo.

Ao dar vida ao quarto e ao homem da história, no seu estilo próprio e inconfundível, o mundo criado pelo ilustrador lisboeta para A Revolução encaixa de forma perfeita no seu álbum de autor, recheado de imagens inspiradas no seu dia-a-dia e em actividades prosaicas, como viagens no metro ou idas ao supermercado.

Nascido em 29 de Junho de 1930, na cidade de Borzecin, na Polónia, Slawomir Mrozek é uma figura proeminente da cultura polaca e, possivelmente, o seu dramaturgo contemporâneo mais conhecido. São dele obras como Tango, de 1964, e Os Emigrantes, de 1974, assim como o texto deste A Revolução, que nos conta a história de um homem que um dia se aborreceu com o seu quarto e decidiu mudar a disposição de todas as suas peças de mobiliário. Não satisfeito, trocou-lhes a função. Experimentou, mudou, reinventou, inovou, mas no final, derrotado, coloca tudo na posição original. A partir desse dia, não mais fará mudanças. Se se aborrecer, terá as lembranças de quando foi um revolucionário.

É um texto carregado de ironia, sobre a indignação, desejo ou vontade de mudança, conformismo e resignação, em que o quarto surge como uma metáfora para a vida. Podemos ler nele a história do nascimento de um revolucionário (ou a construção de um reaccionário), ou da corporização de um sonho, apenas até ao momento em que o corpo reclama o regresso ao conforto da cama, colocada no sítio de sempre, segura e certa.

Nesta colecção Afonso Cruz, iniciada em 2017, vamos descobrindo títulos que de alguma forma moldaram aquele escritor e o influenciaram na sua escrita,  por vezes referidos nos seus livros. Assim acontece com este “A Revolução”. Afonso Cruz refere-o num pequeno apontamento em Jalan Jalan (cuja recensão podem ler AQUI), acompanhando-o de uma reflexão pessoal e política a respeito de quem são os ditos revolucionários de hoje e de como a história se perpetua e repete, perante a passividade e total alienação do cidadão comum.

Sendo uma parábola ao conformismo e à resignação, a leitura de A Revolução e a reflexão sobre a sua mensagem mantém-se e, ousamos prever, manter-se-á actual pelos anos vindouros. As belíssimas ilustrações de Tiago Galo, acrescentam-lhe valor e transformam o livro-objecto-físico numa fina peça de arte.

É certamente um presente a ter em mente para as listas que se avizinham.    

Mais recensões/crítica literária AQUI.

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