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A Trégua – Primo Levi (D. Quixote, 2017)

Timotchenko, Patton, De Gaulle… nomes que a História guardou como heróis da II Guerra Mundial, os vencedores para a posteridade. Primo Levi, neste A Trégua, relembra de forma desassombrada os esquecidos, desaparecidos sem rasto nos interstícios dos dias que se seguiram à libertação dos infames campos de concentração (no caso de Levi, Auschwitz na Polónia). Tido com uma continuação do marcante Se Isto É Um Homem, a sua acção decorre entre a libertação do campo de concentração pelo exército russo (27 de Janeiro de 1945) e a chegada à Turim natal no dia 19 de Outubro. Pelo meio, uma interminável viagem de comboio, uma doença que o deixou acamado, povos e companheiros novos, com vícios e aspirações antigas. As mudanças de poder entre a brutalidade alemã e a desconfiança russa são detalhadas, com o alemão que dominava a funcionar como uma desvantagem ou vantagem, conforme o seu interlocutor, e as suas origens judias ainda um óbice a uma existência tranquila e sem perigos. Depois da barbárie, a liberdade nunca teria o mesmo sabor. “Assim para nós a hora da liberdade também soou grave e fechada, e encheu-nos as almas, ao mesmo tempo, de alegria e de um doloroso sentimento de pudor, pelo que desejávamos lavar as nossas consciências e as nossas memórias de fealdade do que ali jazia: e de pena, porque sentíamos que isto não podia acontecer, que nunca mais poderia acontecer algo tão bom e tão puro que apagasse o nosso passado (…) jamais houve alguém que melhor do que nós tenha conseguido captar a natureza insanável da ofensa, que se propaga como um contágio. (…) uma inesgotável fonte de mal: (…) levanta-se como infâmia sobre os opressores, perpetua-se como ódio nos sobreviventes, e pulula (…) como sede de vingança, como cedência moral, como negação, como cansaço, como renúncia.” (13)

Os gestos, tantas vezes ínfimos, com que ia sendo brindado, faziam a diferença entre a vida e a morte, mais até do que o conforto da alma que proporcionavam. Devolviam-lhe a fé na promessa do futuro e na capacidade de a Humanidade se reerguer além das necessidades básicas e das pulsões mais negras que o poder absoluto produz.
Com uma atenção clínica ao detalhe, Levi esmera-se com afinco e afeto na composição das personagens, criando a base para uma reflexão cuidada e certeira sobre os meandros da natureza humana imunes ao circunstancial, em tempos de mudanças rápidas e imprevisíveis, com apontamentos sobre o que sobra da Guerra e o que já lá estava e permanece.
Da vasta galeria de personagens, acabam por se destacar determinados caracteres, como as crianças com que se cruza, Mordo Nahum, o “grego” contrabandista “solitário e lógico” que quando confrontado com o final da guerra respondia “Guerra há sempre” ou Frau Vita, encarregada dos doentes e das crianças, que após terminar o trabalho “dançava sozinha entre as camas, ao som das suas próprias canções, apertando afetuosamente contra o peito um homem imaginário.” As passagens por povoações eram acompanhadas por habitantes locais curiosos, a quem tentava contar a sua história com algum insucesso, aconselhado por quem traduzia a não se assumir como judeu porque “A Guerra não acabou”.
Sufoca-nos o absurdo da espera, do tempo e do espaço de repente exponencialmente aumentados, sem real liberdade ou a capacidade de a disfrutar integralmente, como Levi nunca mais foi capaz de fazer, até ao suicídio em 1987.

“Algo do género tinha eu sonhado, tínhamos todos sonhado, nas noites de Auschwitz: falarmos e sermos ouvidos, recuperarmos a liberdade e ficarmos isolados.” (67) “Nas longuíssimas noites polacas, o ar da camarata, pesado de tabaco e odores humanos, saturava-se de sonhos insensatos. É este o fruto mais imediato do exílio, do desenraizamento: o prevalecer do irreal sobre o real. Todos sonhavam sonhos passados e futuros, de escravidão e redenção, de paraísos inverosímeis, de igualmente míticos e inverosímeis inimigos: inimigos cósmicos, perversos e subtis, que tudo invadem como o ar.” (137)
Mesmo perante o desconcerto do Mundo, a lucidez com que avalia situações e pessoas e projecta esses juízos como presságios, criando uma ligação invisível que o supera e nos envolve, é a grande mais-valia deste A Trégua. O seu humanismo inquebrantável, a sua inteligência e cultura são uma bênção e uma maldição, porque, apesar de o terem livrado da morte nos campos, dotaram-no de uma constante inquietação, diante do lento desenrolar do caminho em direcção ao eterno castigo a que estamos condenados: repetir os mesmo erros.

“reentramos nos vagões de coração apertado. Não havíamos sentido nenhuma alegria em ver Viena desfeita e os alemães subjugados: pelo contrário, pena; não compaixão, mas uma pena mais ampla, que se confundia com a nossa própria miséria, com a sensação grave, iminente, de um mal irreparável e definitivo, presente em toda a parte, aninhado como uma gangrena nas vísceras da Europa e do mundo, semente do dano futuro.“(277)

A esperança, a vida e a beleza guiam Primo Levi a bom porto e o seu legado é a sua obra, onde consta este testemunho de tolerância, por nos lembrar que, diante da banalidade do Mal, a resposta tem que ser a empatia e a resistência até ao último fôlego.

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