home Didascálias, TEATRO Actores – TNSJ, 10/02/2018

Actores – TNSJ, 10/02/2018

Marco Martins arrasta multidões aos teatros. Contra factos não há argumentos. Como sempre, com a fama e a exposição, chegam os detractores e apoiantes. Os primeiros apontam-lhe os elencos com figuras de créditos já firmados como principais potenciadoras das enchentes, tornando irrelevante a qualidade da produção a que aparece associado, ou o modo como subverte peças tradicionais (“As Criadas” de Jean Genet, por exemplo) para as dotar de uma linguagem mais fácil para o espectador, reduzindo o atrito com as mentes menos susceptíveis a um desafio, ao fim de um dia de trabalho ou antes de um jantar de fim de semana. Os fãs destacam o trabalho inclusivo e colaborativo que desenvolve com os actores que escolhe, de que deriva uma familiaridade e confiança reflectidas no resultado final, criando um todo fluido, em que as deixas se sucedem como se de linguagem quotidiana se tratasse, assim como a perspectiva inovadora com que aborda peças do cânone, sem que se perca o carácter das mesmas.
É neste equilíbrio fino entre estilo, gestão de expectativas e inovação, que encontramos esta Actores, co-criação do encenador/realizador com o elenco da peça (à excepção de Carolina Amaral, acrescentada em boa hora e responsável por um desempenho extraordinário), que se foca nas várias facetas do trabalho e biografia do Actor, e destes actores em concreto, desde o casting (metáfora do espoletar da produção teatral, mas também do momento do nascimento e desenho da personagem, em que o próprio actor-pessoa se vai moldando e desenvolvendo, pela repetição e variação, sempre condicionado pelo encenador, que invectiva e provoca sem nunca aparecer, uma espécie de deus-ex-machina momentâneo e dominador.) até aos pesadelos e mortes finais, do elenco e do próprio público às suas mãos, simbólicas de transitoriedade do espectáculo teatral, extensível ao papel do actor e do Teatro em si, volúveis como a luz que se desvanece ou a cortina que cai.

A ideia surgiu a Marco Martins durante a preparação de “A Dança da Morte” de Strindberg, em que, ao circular pelos bastidores, deu com um dos seus protagonistas a ler uma novela, preparando uma outra peça, em que seria veterinário. Desta precariedade desconcertante, que o despertou para os desafios dos actores teatrais actuais, ficou a semente para este espectáculo, desenvolvida meses depois, com entrevistas longas e detalhadas a todos os elementos do elenco, baseadas na suas memórias teatrais, desde a génese da sua ligação ao Teatro, a momentos marcantes e outros dados tidos por relevantes. O objectivo seria claro, nas palavras do próprio, “um dia ainda vou fazer um espectáculo em que o actor esteja literalmente a fazer a “Dança da Morte” e aquele veterinário ao mesmo tempo.”

O texto tem por base um conjunto de momentos definidores das carreiras dos actores em palco, entre o cómico e o trágico, a rotina e os assomos raros de superação e excelência. A estrutura e encenação dos mesmos é o esqueleto da peça. A opção pelo uso da imagem vídeo em tempo real, em conjunção com uma escolha musical certeira e um ecrã que vai legendando alguns momentos, acrescenta uma camada extra ao todo, mas, ao invés de potenciar a dispersão da atenção, acaba por concentrá-la no protagonista da cena, que se torna o ponto de fuga para onde converge todo o restante elenco, criando momentos de forte intensidade e impacto visual.

As intervenções episódicas do encenador, presente apenas pela voz, servem apenas para o confirmar como soberano de uma espécie de corte de bobos que cumprem ordens para o entreter, mesmo as mais absurdas, como dançar durante todo o intervalo, como sucedeu com Rita Cabaço, uma figura que se destaca na desmultiplicação rápida de registos e fisicalidade explosiva. Uma actriz de mão cheia, uma revelação para quem não estiver atento.
À primeira vista, Bruno Nogueira parecia ser o ponto mais frágil desta mão cheia de trunfos, mas o modo como é apresentado e defende as várias facetas da sua carreira tão díspar, afasta dúvidas de que estamos perante um actor em segura e trabalhada ascensão, com talentos inegáveis e uma intensidade invulgar, sem renegar o passado ligado à comédia e ao stand up, com uma das cenas mais delirantes do espectáculo: o Natal em que trabalhou no Corte Inglês.

Nuno Lopes e Miguel Guilherme dispensam epítetos e apresentações. Dois dos melhores actores portugueses da actualidade, duas gerações com vivências e percursos díspares, com uma presença marcante em todos os projectos de que foram parte, pela singularidade das abordagens a cada nova personagem e consistência nas escolhas de carreira. É de Nuno Lopes a nossa cena favorita de Actores, o seu pesadelo, em que, ao declamar o célebre discurso de Marco António aos romanos em “Júlio César” de Shakespeare, começa a perder os dentes, um a um, até à completa ininteligibilidade. Outro momento memorável também por ele protagonizado, relembra a sua experiência como actor da Globo, em que contracena com Bruno Nogueira numa reconciliação romântica. O que se segue é o perfeito exemplo da facilidade com que o público e as suas emoções são manipuláveis. Num aparente imprevisto, Lopes não consegue suster o riso, que contamina todo o elenco, perturbando a cena seguinte, em que Bruno Nogueira surge desconcertante, incapaz de dizer as falas seguintes. O riso torna-se desconfortável, em palco e na plateia, até que cessa de vez, culpado pelo incómodo causado ao esforçado actor.

Carolina Amaral veio preencher o enorme (e noutras mãos, irreversível) vazio criado pela ausência da Luísa Cruz, presente desde a criação do projecto e escalada para fazer de si própria, tendo pedido para se retirar por cansaço. Com uma interpretação plena de entrega, esta jovem actriz, de apurada voz de soprano (que nos deixou abismados), não só fez esquecer a experiente actriz que encarnava, como trouxe uma adição interessante ao enredo com as suas experiências.

A maior parte das peças citadas e recriadas pela memória dos protagonistas, são clássicos de dramaturgos como Wedekind, Pirandello, Shakespeare, Cervantes ou Stoppard. A tarefa impossível de fazer novo um texto criado por outrém, decorá-lo, trabalhá-lo e repeti-lo à exaustão, é a vida deste quinteto talentoso, aqui despida e reinventada. A peça comenta-se a si própria e os atores seguem esse movimento, num solipsismo cíclico a que assistimos absortos, para no final nos darmos conta de que somos também parte integrante desse todo cénico.

Como nos lembra Hans-Thies Lehmann no prólogo do seu “Teatro Pós-Dramático”, finalmente editado por cá na Orfeu Negro: “O teatro deixou de ser um meio de comunicação de massas, pelo que se torna cada vez mais risível negar este facto, e cada vez mais urgente reflectir sobre ele.” Marco Martins sabe como comunicar e criou, com todo o elenco, um evento eficaz e envolvente, que sobrevive ao seu final, prolongando-se nos desafios que apresenta e nas questões-chave que convoca: o que é o Teatro e o ofício de Actor em 2018? As respostas seriam pretexto para outras peças…

Foto © Estelle Valente

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