home Didascálias, TEATRO al mada nada – TNSJ, 7/4/2017

al mada nada – TNSJ, 7/4/2017

al mada nada é tudo o que promete e ainda mais.

Ricardo Pais criou um espectáculo envolvente e imersivo, com todos os ingredientes para ser uma experiência inesquecível.

Misturando registos e linguagens bem distintas, como a música (tocada ao vivo pelo percussionista Rui Silva), a dança (pela mundialmente multi-premiada Momentum Crew) e o teatro (por Pedro Almendra), abusa saudavelmente do(s) texto(s) de Almada Negreiros para os recriar e superar.

O elemento mais numeroso e disruptivo do elenco é uma crew de seis b boys (as palavras são estas, por isso não vamos inventar), com rédea solta para, com parcas indicações, criarem as suas versões de determinados trechos do texto.

O resultado é o arrojo nas coreografias, com instantâneos memoráveis e poderosos, e prestações perto do sobre-humano. A subversão e a superação são transversais aos momentos que protagonizam.

Desde as tradicionais sete saias, recordadas numa cena em que as pernas suspensas durante longos minutos no ar revelam os padrões tradicionais, até à recriação de um quadro em movimento, bem escatológico, de cobrição de uma égua por diversos cavalos no picadeiro do quartel militar, este sexteto-maravilha eleva o espectáculo a um nível de excelência.

Como nos diz Ricardo Pais no manual do espectáculo “O corpo cria um espaço novo para si próprio e, portanto, um tempo completamente novo.(…) Este é o início daquela parte do espectáculo na qual o Pedro Almendra, o Rui Silva e os Momentum Crew se encontram realmente com qualquer coisa nova.”

No picadeiro do quartel onde os soldados fumam e descontraem, é descrito com todo o detalhe por Pedro Almendra um longo retrato da “diversão” com os cavalos, invectivados pelos magalas a cobrirem as éguas, entre comentários jocosos. A Momentum Crew desdobra-se em cenas de dança, emulando estas imagens fortes numa linguagem que nos parece intrínseca e natural, (apesar de tão estranha lhes ser, por nada ter que ver com o break dance que lhes pulsa no sangue), tal a fluidez de cada flexão e movimento.

Max Oliveira tem um dos momentos mais belos e singelos da noite. Com uma simples saia de folhos, baila dolente apenas com a vestimenta por par, evocando toda a saudade e solidão dos milhares de mulheres deixadas para trás por uma destrutiva I GM, que arrastou Portugal para um buraco, onde se manteve por décadas preso a um ditador demente.

O solo de Deeogo Oliveira é o nosso momento zen da noite. Encarna um cavalo rebelde, que consegue escapar à cobrição e se dirige à jovem Zora, contexto a que a cena não alude directamente. A lassidão e o rigor lento e matemático de cada gesto, pleno de força calma, contenção e expressividade, deixou-nos siderados, com uma vontade louca de romper o silêncio em aplausos. Curioso foi perceber posteriormente a centralidade que o próprio Pais atribuiu a esta cena:“É o ponto onde tudo converge”.

Ricardo Pais disse a Pedro Almendra numa das primeiras sessões de trabalho: “quem diz este texto tem de ser um escritor-cineasta”. Almendra é o actor perfeito para esta tarefa dantesca.

O modo como facilmente transita entre o saudosismo triste (das memórias de infância de Almada com a mãe – “Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!” ), o tédio da vida militar e o registo histriónico e espalhafatoso, como mestre de cerimónias/narrador omnipresente e omnisciente (“Vai principiar, minhas senhoras e meus senhores!”), sem deixar escapar uma respiração ou uma marcação, é inesquecível e a marca indelével de um talento ímpar.

Com a mesma força com que ocupa o palco com o seu carisma natural, na cena seguinte facilmente se desvanece como um espectro, cedendo o protagonismo ao b boy ou aos ritmos enfáticos e sem mácula de Rui Silva. O imenso e dificílimo texto é interpretado com a mesma segurança dos comuns mortais numa conversa despreocupada no café ou como se de uma leitura se tratasse.

Verdadeiro cavalo selvagem em palco, Pedro Almendra carrega toda a carga emocional do espectáculo sem vergar uma vez, perante as chibatadas inclementes do mestre Almada, exigindo sempre mais e mais. Uma actuação soberba num espectáculo onde o talento é o denominador comum.

O Portugal do início do séc. XX, atávico, conservador e preso na tradição moralista, aludido brevemente na fase inicial, implode no zénite da representação: um espectáculo trágico-cómico da família cigana de saltimbancos que titula a obra de Almada, visto de múltiplas perspectivas, em que Zora e o seu zeloso, violento e histérico pai veêm desabar o seu circo falhado. Não resistimos a citar um pouco do original.

(…) pedras brancas de cornetim a subir tra-la-la e pedradas nas latas de acetilene de gente a ir-se embora prá escuridão e o bombo sempre ali com estrondo e pratos arrelia força nesse tambor malandros pedradas e mais pedradas bancadas vazias só dois bicos de acetilene acesos no cornetim epiléptico a gritar nas faces vermelhas do pai a ajudar a mulher a acabar de vez co bombo e mexe-te mulher do diabo força toda a força rompe-me esse bombo pedrada e mais pedrada e uma na cabeça do pai sempre em solo de cornetim crescendo malandros cabrões a minha vida a minha arte pontapé em zora com força força toda a força coa minha força bestas tenho fome dó dó dó-ré-mi tra-la-la pum-pum-pum filhos da puta cata-pum-pum-pum pratos prate-os força mata tra-la-la tra-li-lata acetilene catapum tapete rufa-me essa caixa sol-lá-sol filhos de um corno um murro na mulher e pedradas maissi-ré-sol e só um bico de acetilene a minha vida catapum tenho fome sacanas tenho fome trrrrrrrrrrrrr-pum-tchim-tchim-tchim-tra-la-sol-ré-mi-la-la-la-la raios os partam os pratos puta que a pariu trrrrrrrrrrrrrrrrrrr-pum nem gorjeta nem cinco reis filhos da por causa da zora toca-me essa caixa puta estupor trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr-pu-catapum -catapum pedrada catapum-pum-pum e último bico de acetilene lá-ré-sol às escuras sol-sol-sol filhos da puta catapum-pum-pum trrrrrrrrrrrrr-la-la-la-lalalala-pum”

A música é outro ingrediente essencial neste molotov explosivo, de que deixamos uma pequena amostra.

Desde Screamin’ Jay Hawkins ao Conjunto António Mafra, passando pelo Balanescu Quartet e pelo hino internacional do povo ROM, as melodias parecem ter sido criadas como banda sonora original para o espectáculo, encaixando nos ritmos díspares de cada cena.

Sentir a palavra de Almada expandir-se bem para além do papel, verdadeiro empecilho à torrente gigante de ideias que jorrava da sua pena, é algo reconfortante. Com um estudo detalhado de alguns textos do mestre, com enfoque em Saltimbancos (de 1916, em plena I GM), Ricardo Pais consegue criar um conjunto de frescos abstractos, plásticos e flexíveis dos contextos onde decorre a frenética acção.

No entanto, Almada Negreiros mantém-se como mero referencial a 75 minutos de quase sinestesia. Ao alegre jogo modernista de perspectivas do Mestre, associa-se uma cenografia austera e geométrica (obra de Manuel Aires Mateus), o perfeito desenho de luz e som de Nuno Meira e Joel Azevedo, respectivamente, e a mente criativa em constante desvario de Ricardo Pais (com a ajuda preciosa de Manuel Tur e a dramaturgia de Pedro Sobrado), criando uma homenagem merecida a um português universal.

Foto © João Tuna

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