home Didascálias, TEATRO Alma – Teatro Aberto, 30/1/2020

Alma – Teatro Aberto, 30/1/2020

Tiago Correia, o multipremiado autor, cantautor e professor de interpretação dá cartas através deste seu texto Alma (vencedor do Grande Prémio de Teatro Português SPAutores/Teatro Aberto em 2018) sobre as tábuas do Teatro Aberto. A fazer lembrar Laranja Mecânica de Stanley Kubrick e a sua famosa defenestração, desta vez não ao som de Beethoven, mas no silêncio de uma noite gélida, Alma conta a história de quatro jovens, seres retalhados à partida e dois sobreviventes à chegada – somente as personagens mais outsider (Guilherme Moura e Sofia Fialho) e inesperadas ficarão à tona.
A frescura da juventude irrompe entre os personagens mais ousados e socialmente aceites (Bernardo Lobo Faria e Bruna Quintas) – ambos estudantes de teatro, despreocupados, sem rei nem roque, voyeuristicamente preocupados com a maior vítima de si próprio: o “pobre” enfermo e “quebrado” jovem que se encontra partido, ligado e de fralda numa cama, após algo de misterioso lhe ter sucedido, aos cuidados de um avô negligente e uma mãe ausente, encarcerado num sótão cheio de tranquitanas. De assinalar a beleza e detalhe dos cenários a cargo de Ana Vaz, a par do trabalho de luz de Cárin Geada e vídeo de Pedro Filipe Marques em projecção, a piscar o olho a David Lynch ocasionalmente.
Se há mortes sucessivas ao longo da peça, há também sucessivos renascimentos, numa lógica psicológica jamesiana de “born once, born twice”, com uma fluidez de texto em que, tal como nas próprias palavras de Tiago Correia, tudo se processa como uma viagem, um flow “dentro da sua cabeça”.
Numa importante lição sobre a verdadeira masculinidade e as consequências da violência física e psicológica, este Alma retrata o direito a ser diferente, ser aceite e sobretudo a ser amado. Incondicionalmente. A ver o abismo e ser salvo, já no fio da navalha, no limite, bem como a verdade do teatro. Assinale-se a esplêndida cena de escalada de violência, a fazer lembrar Heavenly Creatures de Peter Jackson, filme de culto, mas aqui em bando protector do masculino e na irreversibilidade da perda de cabeça e da dor que já não dói, mas ainda corrói.
O quarteto funciona em complementaridade, obedecendo a atentas leis darwinianas, entre lâmpadas subterrâneas, preocupações mútuas, entre a polaridade do uso do Instagram e a total ausência de telemóvel. É no corpo desnudo que pernoita a verdadeira alma, no abraço de dois seres perdidos. De resto, brilhantes interpretações de Guilherme Moura e Sofia Fialho – o salvamento no limite, aquele que não era suposto. E se a psique é definitivamente corpórea, de corpo e alma, sobre rodas, brincam como crianças, num universo que esteve quase para nunca acontecer.
E ao longe, surge a visita materna ilustre no desenlace e tudo acaba bem quando está bem, porque o mundo é definitivamente dos “frágeis”…

Ficha Técnica

DRAMATURGIA : Cristina Carvalhal e Pedro Filipe Marques
ENCENAÇÃO: Cristina Carvalhal
CENÁRIO E FIGURINOS: Ana Vaz
VÍDEO: Pedro Filipe Marques
DESENHO DE LUZ: Cárin Geada
SONOPLASTIA: Sérgio Delgado
ASSISTÊNCIA DE ENCENAÇÃO: David dos Santos
INTERPRETAÇÃO: Bernardo Lobo Faria | Bruna Quintas | Guilherme Moura | Sofia Fialho

Em cena até 29 de Março

Foto © Filipe Figueiredo

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