home LP, MÚSICA André Henriques – Theatro Circo (16/7/2020)

André Henriques – Theatro Circo (16/7/2020)

O álbum Cajarana de André Henriques foi uma daquelas estreias que chocou de frente com o caos provocado pela pandemia. Já conhecido como vocalista dos Linda Martini pelo seu timbre indisfarçável e pelas composições electrizantes à guitarra, o músico tinha o lançamento do seu primeiro trabalho a solo agendado para o ciclo “48/20 Cantautores”, no Teatro Cinema de Fafe, que acabou por ser um dos muitos concertos a engrossar a lista das datas canceladas. No entanto, sabemos que é bem diferente ver cancelados concertos de mais uma tournée ou concertos que lançam um álbum de estreia. Talvez tenha sido esse frémito contido durante meses que irrompeu naquela noite tão quente no Theatro Circo.

Depois de entrar numa sala pintada de tons avermelhados, com pássaros a chilrear como se não tivessem ficado lá fora, tivemos André Henriques a abrir sozinho o palco despido com “Espelho Meu”, a deixar o público a suster a respiração pelo que aí vinha. O concerto seguiu na íntegra o alinhamento do disco, e assim avançamos para o single “E de Repente”, onde se juntaram os músicos da banda (Ivo Costa na bateria, Pedro Ferreira na guitarra e Ricardo Dias Gomes no baixo e sintetizadores, ele que também produziu o álbum e lhe empresta muita da sua sonoridade mais exploratória), para aquilo que logo se revelou uma catarse colectiva. Esses foram, aliás, os tons que coloriram todo o concerto: ali purgamos a imobilidade forçada e o medo que nos têm preenchido os dias, com temas como “Uma Casa na Praia” e “Tecido não Tecido”, onde a crueza destas composições (numa abordagem performativa bastante bem pensada e concretizada) nos toca com uma energia verdadeiramente impactante.

Da perspectiva privilegiada de um camarote, foi avassalador ver esta incomum comunhão de espírito a fazer ondular os corpos em perfeita sinergia lá em baixo, na plateia, com outras canções icónicas deste novo trabalho, como o single “As Melhores Canções de Amor” ou “Pais e Mães e Bichos”, esta última uma das interpretações mais avassaladoras de todo o concerto, daquelas que nos entra no corpo através de um soco no estômago. O músico decidiu dedicar o tema seguinte, “Maria Odete”, ao trauma ainda tão recente de Gabriela, a mulher assassinada pelo ex-companheiro que abalou a comunidade bracarense no último Outono (cuja sentença, por coincidência, foi agora revelada), para logo a seguir nos capturar numa estranha espécie de resistência, com temas como “Espelho Meu”, “Platão Pediu um Gin” e “De Tudo o Que Fugi”.

De facto, “quem pode ser livre se domesticar os sonhos”? Não haverá melhor forma de descrever este concerto do que confiar no que nos ditam os sentidos: desde as guitarras vibrantes e de uma assinalável riqueza tímbrica, às batidas profundas que fazem ressoar o corpo todo, tudo isto pontuado por subtis apontamentos de um colorido sonoro conquistado nos teclados, tudo foi pulsão que finalmente logrou sair e contagiar todos os que ali estiveram. De realçar ainda um final absolutamente delicioso, a fechar este círculo perfeito em registo minimalista: “Pese Embora” e “Conta-me Dos Vivos”, esta última não pertencente ao álbum, mas certeira para encerrar esta bela hora com um músico que, dúvidas houvesse, provou saber reconquistar o poder das canções, quando as despe de pretensiosismos e confia na força contida das palavras. Uma grande aposta do Theatro Circo para este ciclo das “7 Quintas Felizes”, a provar que a música portuguesa nunca esteve confinada.

Foto © Joana Linda

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