home LP, MÚSICA Andrew Cyrille Quartet – Guimarães Jazz, CCVF, 10/11/2017

Andrew Cyrille Quartet – Guimarães Jazz, CCVF, 10/11/2017

A presença do baterista Andrew Cyrille no Centro Cultural Vila Flor, a pretexto do Guimarães Jazz 2017, prometia ser um dos momentos mais marcantes do cartaz deste ano. Ao apresentar o seu último álbum, The Declaration of Musical Independence (ECM, 2016), o baterista fez-se acompanhar de Richard Teitelbaum (teclas), Ben Monder (guitarra) e Ben Street (contrabaixo).
O tema Coltrane Time foi o escolhido para a abertura do concerto, coincidindo com o alinhamento do álbum. Desde logo, uma certeza: iríamos assistir a uma grande performance. Depois do tema que, como o próprio Andrew Cyrille confessava, se inspirou no último baterista a trabalhar com John Coltrane, Rashied Ali, deu-se um dos momentos da noite: Kaddish. O tema empresta o seu título à oração litúrgica judaica e foi nesta atmosfera sussurrante que o quarteto nos levou, paulatinamente, numa viagem. Havia a impressão de um murmúrio, de um rumor de morte. Num prodigioso texto acerca do mito de Pigmalião (“O efeito Pigmalião”, de 2011, editado pela KKYM), Victor Stoichita associava o rubor a uma espécie de rumor vital, que ia surgindo na estátua à medida que ganhava vida. No Kaddish que o quarteto nos trouxe, o caminho era o inverso: se o palco se tornou repentinamente vermelho, a música guiava-nos para além do cromatismo, numa espécie de convite ao abandono.

Depois, a confirmação de que estávamos perante quatro músicos que sabiam tudo do ofício: o solo de Cyrille, Girls Dancing, foi simplesmente sublime. Os temas Say, Dazzling, Herky Jerky e Song for Andrew confirmavam o tom um tanto melancólico do mais recente trabalho do quarteto. Numa perspectiva cronológica, The Declaration of Musical Independence é um álbum tardio na carreira de A. Cyrille, mas o vanguardismo que pauta um percurso com mais de 50 anos coloca-o sempre a par – e porventura adiante – do seu tempo. Por isso, seria prematuro considerar este statement musical unicamente pelo primado melancólico. No limite, esta melancolia seria força motriz de criação, sendo que esta afirmação da “independência musical”, como refere o título do álbum, se faz menos pela via contemplativa do que por um olhar reativo.
Perto do final, um momento especial: o Andrew Cyrille anunciava que era dia de aniversário e os 78 anos foram devidamente festejados pelo público presente no grande auditório do CCVF que, embora, bem composto, não estava lotado. A. Cyrrille merecia (ainda) mais.

Texto de Daniel Tavares

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