home Antologia, LITERATURA O Apelo Selvagem – Jack London (Bertrand Editora, 2017)

O Apelo Selvagem – Jack London (Bertrand Editora, 2017)

“Quando ancestral e nómada anseio se liberta

Mortificado pelas grilhetas da tradição

Do seu torpor brumoso desperta

novamente a ferina ambição.”

Earle Gene Labor, biógrafo de Jack London, relata que, em 1903, ao perceber que O Apelo Selvagem não era uma simples narrativa sobre animais, o editor ofereceu a Jack London dois mil dólares pela totalidade de direitos da obra e fez uma edição de luxo, acompanhada por uma enorme campanha de promoção da mesma. O livro foi um best-seller imediato, recebido de forma entusiasta tanto pela crítica como pelos leitores. O escritor viu a sua vida mudar após esse contrato e, apesar de não ter recebido nem mais um cêntimo pelos direitos do livro, ganhou o reconhecimento do mundo literário. O Apelo Selvagem permaneceu em impressão desde a sua primeira edição e chegou-nos às mãos pela reimpressão de 2017, da Bertrand Editora, detentora dos direitos para publicação em língua portuguesa, com tradução de Rui Guedes da Silva.

Após uma leitura quase compulsiva, ocorre-nos que reduzir O Apelo Selvagem a um livro sobre um cão, é como reduzir as “Variações Goldberg” a umas pancadas em teclas pretas e brancas.

O cerne do livro é, de facto, a história de Buck, filho de Elmo, um São-Bernardo, e de Shep, uma pastor-escocês, nascido e criado em “berço de ouro”, no soalheiro Vale de Santa Clara, na Quinta do Juiz Miller, que não era “nem cão de casa nem de canil” (pág. 10), era o “rei, rei de tudo quanto naquela quinta gatinhasse, rastejasse ou voasse, incluindo os homens” (pág. 11) […] “Nos quatro anos que se seguiram à sua infância, vivera a vida de um fidalgo saciado; tinha um grande orgulho em si próprio e era até um tudo-nada egoísta, tal como o são por vezes os aristocratas de província, devido à sua situação insular” (pág. 11). Raptado por Manuel, um trabalhador da quinta, acaba por ser vendido e enviado para as áreas mais geladas do Canadá, onde puxaria trenós: “Buck não lia os jornais, caso contrário, teria sabido das atribulações que o aguardavam, a ele e a qualquer cão costeiro, de Puget Sound a San Diego, que tivesse músculos fortes e pêlo comprido e aconchegante. Tudo porque alguns indivíduos, tacteando as trevas do Árctico, haviam encontrado um metal amarelo; e, como as companhias de navegação e outros transportes andavam a espalhar a descoberta, milhares de homens precipitavam-se para o Norte. Ora estes homens precisavam de cães, e os cães que precisavam tinham que ser possantes, com músculos poderosos para o trabalho e pêlo espesso que os protegesse da geada” (pág. 1). Sofrendo privações e sevícias, tratado de forma rude e muitas vezes cruel, Buck vai percebendo que sua vida está a mudar e não há como escapar a esse destino. É a história da sua viagem de regresso (sem nunca lá ter estado) ao instinto mais elementar de qualquer ser-vivo: sobreviver. Mas o livro é bem mais do que isso.

Procurando não antropomorfizar Buck, London descreve com traços de mestre as suas aventuras. A narrativa é feita sempre na terceira pessoa, como se alguém conversasse connosco sobre a vida daquele, e toda ela pelo ângulo de compreensão do animal. London não é grande fã de eufemismos, já que a sua narração é directa e objectiva. Em O Apelo Selvagem, a realidade é apresentada sem filtros: a morte é feia e as feridas doem, tornando dificílimo ler certas passagens sem uma pausa para inspirar fundo.

O livro é uma alegoria, que explora a capacidade de adaptação e a relação entre a natureza e a individualidade, e de como esta inevitavelmente se molda àquela, num conflito que o escritor recria de forma virtuosa. O leitor é preso pela forma como London conduz a narrativa e nos dá conta da mudança de Buck, com tal subtileza que é quase como se fossemos mudando com ele, sofrendo as mesmas dores, o mesmo desalento, o despertar do instinto selvagem: “Esse primeiro roubo provou a aptidão de Buck para sobreviver no meio hostil do Norte. Provou a sua adaptabilidade, a sua capacidade para se ajustar a condições mutáveis, cuja inexistência teria significado uma morte imediata e terrível. Assinalou, além disso, a decadência ou a desintegração da sua natureza moral, coisa inútil, obstáculo até, na impiedosa luta pela sobrevivência. No sul, onde imperava a lei do amor e da fraternidade, era muito bonito respeitar a propriedade privada e os sentimentos pessoais; mas no Norte, sob a lei do cacete e dos dentes, era louco todo aquele que tivesse tais coisas em consideração, e enquanto ele as seguisse não conseguiria medrar” (pág. 33 e 34). Naquele momento, todos os valores ensinados a Buck, como cão doméstico, caem por terra. A moral e a cortesia são inúteis na hora de lutar pela comida. Onde vigora a lei do cacete, aplicada pelos humanos, e a lei dos dentes, pelos outros da sua espécie, a única opção é lutar, mesmo que de forma brutal e incivilizada.

A transição da domesticidade à selvageria dá-se, em Buck, de forma gradual e intensa, e percebemo-lo, por exemplo, pela mudança do seu ladrar: de um ladrar doméstico, passa ao uivo de um cão que luta contra os perigos do gelo, a maldade e egoísmo humanos, apoiado na supremacia do mais forte. Buck é espancado para ser domado, passa frio, fome, tem as patas magoadas pelo gelo cortante, vê outros animais em iguais circunstâncias perecerem pelo caminho, precisa de matar para sobreviver e arrasta o peso dos trenós nas piores intempéries. London mostra-nos a melancolia da simplicidade, como o corte frio da transparência do Inverno, a exasperante resistência da lama, a respiração que condensa, a vida toda concentrada no imediato, perante a inexistência de um futuro que dê sentido ao presente. Depressa percebe que vive melhor o presente quem não tem futuro, um amanhã pelo qual ansiar.

Em O Apelo Selvagem, Jack London mostra-nos a vida no seu estado mais puro, a existência reduzida ao essencial. Não é certamente um livro para apreciadores de sofisticações barrocas, de complicações pós-modernas. Antes aceita a Natureza tal como ela é: onde não há justiça em viver ou morrer, porque a vida não tem que ser justa. Comemos, respiramos, cheiramos, defendemo-nos, atacamos e sobrevivemos. Não há crueldade na necessidade. Apenas pragmatismo.

Mas o livro é também uma história de amor. London leva-nos a imaginar quão vazia seria a existência sem amor – amor puro, verdadeiro e desinteressado, que transforma a vida do ser amado em algo precioso, bem mais do que a existência de quem assim ama. Fá-lo através do amor de Buck por John Thornton. Pelos seus olhos, recordamos a capacidade infinita de amar que cada ser transporta em si: “e assim brincando Buck ia convalescendo e entrava numa nova existência. Pela primeira vez conhecia o amor, o amor genuíno e impetuoso. Nunca tivera essa experiência na quinta do juiz Miller, no soalheiro Vale de Santa Clara. Com os filhos do juiz, caçando e vagabundeando, tratara-se de uma camaradagem de trabalho; com os netos do juiz, uma espécie de guarda altiva; e com o próprio juiz, uma amizade grave e digna. Mas aquele amor febril e ardente, que era adoração e que era loucura, coubera a John Thornton despertar-lhe.” (pág. 92).

Buck encontra calor humano na frieza do Norte, quando é salvo de um final trágico e acolhido por Thornton. Nesse humano sente a lealdade, que devolve na mesma medida. No final, mesmo após todas as provações,  ainda consegue amar incondicionalmente: “Em compensação o amor de Buck por Thornton parecia não parar de crescer. Na viagem daquele Verão, apenas ele, de entre os homens, podia pôr qualquer fardo às costas de Buck. Quando era Thornton a mandar, nada era demasiado para Buck. Um dia (já se tinham reabastecido com os lucros da jangada e partido de Dawson caminhando em direcção à nascente do Tanana), os homens e os cães encontravam-se no cimo de um penhasco que descia a pique sobre um leito de rocha nua, a cem metros de altura. John Thornton estava sentado à beirinha com Buck encostado a ele. Um capricho insensato apoderou-se dele. Chamou a atenção de Hans e Pete para a experiência que tinha em mente. – Buck, salta! – ordenou, estendendo o braço por cima do abismo. Um segundo depois, agarrado a Buck, debatia-se na extremidade do rochedo, enquanto Hans e Pete puxavam os dois para trás, pondo-os a salvo. – É espantoso! – disse Pete, depois de tudo passar e de recuperarem a fala. Thornton abanou a cabeça: – Não, é maravilhoso e terrível ao mesmo tempo. Às vezes tenho medo, sabes?” (págs. 97 e 98).

Mas o apelo da floresta continua bem vivo em Buck, que apenas lhe  resiste por amor a Thornton: “No entanto, apesar deste grande amor que dedicava a John Thornton e que parecia o índice de uma suave influência civilizadora, o apelo do primitivo, que o Norte despertara nele, continuava vivo e activo. Fidelidade e devoção, sentimentos que nascem do aconchego da lareira e debaixo de um tecto, ele tinha-os; conservava, no entanto, a ferocidade e a astúcia. Ele era mais um ser selvagem, vindo da Natureza para se sentar à fogueira de Thornton, do que um cão das amenas terras do Sul, marcada por gerações de civilização.” (pág.s 94 e 95) […] Das profundezas da floresta soava um apelo, e sempre que ele ouvia essa voz, misteriosamente vibrante e hipnotizadora, sentia-se tentado a voltar as costas à fogueira e à terra batida que o rodeava para mergulhar na floresta e ir para longe, cada vez mais para longe, não sabia onde nem porquê; nem se questionava para onde nem porquê: o apelo soava imperiosamente nas profundezas da floresta. Não obstante, sempre que chegava àquela macia e intocada terra e à mancha verde, o amor por John Thornton obrigava-o a voltar para junto da fogueira.” (pág. 96).

O último elo entre Buck e a humanidade é quebrado com a morte daquele: “Conhecia a morte enquanto cessação de movimento, enquanto passagem para fora e para longe das vidas dos seres vivos, por isso compreendeu que John Thornton estava morto. Criava-se nele um vazio imenso, de alguma forma semelhante à fome, mas um vazio que lhe doía e doía, e que alimento nenhum conseguiria saciar. (pág. 128) […] Caiu a noite e a Lua cheia subiu ao céu acima das árvores, iluminando a terra até esta parecer banhada por um sol fantasmagórico. Com a chegada da noite, reflectindo e velando ao pé da lagoa, Buck apercebeu-se de um novo estremecimento de vida, diferente do causado pelos yeehats. Ergue-se, alerta, farejando. De muito longe vinha até ele um ganido desmaiado, agudo, seguido por um coro de outros ganidos agudos semelhantes. De minuto para minuto, os ganidos ficaram mais altos e mais próximos. De novo, Buck reconheceu-os como sendo algo ouvido nesse outro mundo que lhe persistia na memória. Caminhou para o centro da clareira e pôs-se a ouvir. Era o apelo, a voz de muitas notas, que soava mais sedutor e convincente do que nunca. E como nunca, ele estava disposto a obedecer. John Thornton estava morto. Quebrara-se o último elo. O Homem e as exigências do Homem já não o prendiam.” (pág. 129).

Sem amor, o apelo selvagem torna-se irresistível e a transformação completa-se: “Então, um velho lobo, escanzelado e coberto de cicatrizes, avançou. Buck arreganhou os lábios como que a preparar-se para rosnar, mas acabaram por cheirar o focinho um do outro. Nisto, o lobo velho sentou-se, apontou o focinho para a Lua e lançou um longo uivo de lobo. Os outros sentaram-se e uivaram. Agora o apelo chegava a Buck em acentos inconfundíveis. Sentou-se também e uivou. Depois saiu do seu canto e a alcateia rodeou-o, cheirando-o de maneira meio amistosa, meio selvagem. Os líderes elevaram o grito da alcateia e precipitaram-se floresta adentro. Os lobos seguiram-nos ganindo em coro. E Buck foi atrás deles, lado a lado com o seu irmão selvagem, ganindo enquanto corria.” (pág. 131).

Jack London conduz-nos à raiz do nosso ser – ao ser primordial, que perante a fome e a falta do que comer, mata, sem ressentimentos nem maldade.

O livro vive da importância das coisas simples, das forças telúricas, que se estende às palavras, às personagens, aos cenários. Sem figuras de estilo complexas, ou adjectivação criativa, o léxico usado é o dos elementos e dos estados de espírito (do cansaço, da dor, do amor, da raiva, da vingança), presentes em Buck em estado bruto. A descrição crua das muitas provações e injustiças a que o nosso herói é sujeito, deixa-nos ansiosos por descobrir o seu destino e traz-nos lágrimas aos olhos em vários momentos.

Fechada a última página, é evidente porque “Apelo Selvagem” se tornou um clássico da literatura.

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