home Didascálias, TEATRO As Cadeiras – Teatro do Bairro, 25/10/2019

As Cadeiras – Teatro do Bairro, 25/10/2019

No meio do absurdo desta As Cadeiras (escrita por Eugène Ionesco em 1952), que é um pouco o meio do nada, o espectador sente-se desconfortável. Sente a urgência de procurar um sentido face à sua ausência, ou talvez o desconforto nos venha da temática do próprio vazio, do confronto com a morte, com a velhice e o balanço inevitável de qualquer percurso de vida.O sentimento agrava-se com a dúvida constante entre o que é real ou imaginário, entre o que é a possibilidade da senilidade ou a narrativa verídica de um evento preparado por um casal á beira do fim.
Os actores estão magníficos! Carmen Santos e Luís Lima Barreto conseguem tornar credível uma conversa com fantasmas, um conjunto de cadeiras vazias onde imaginariamente dois velhos sentam os seus convidados. Tornam verídica a sua condição de idosos nos gestos trémulos e demorados, nos passos arrastados, na presença frágil.
A cenografia, a cargo de Alexandre Oliveira, é lúgubre e, portanto, bem ajustada ao tema da velhice e da proximidade com a morte. A encenação de António Pires dá vida a um diálogo de apenas dois personagens e a uma frenética dança de cadeiras, conseguindo ritmo onde dificilmente o movimento agarra, onde a história nos perturba e nos confunde, e logo é excelente!
Os dois protagonistas, um casal de velhotes em que a ternura ainda perdura, ensaiam o seu fim enquanto desenrolam o seu caminho: o estatuto social que não conseguiram, o reconhecimento pelo qual almejaram, as paixões que não vivenciaram, os amigos que perderam ou não tiveram. Na suposta senilidade, há uma perturbadora presciência da inutilidade da vida, uma vontade muito racional de lhe emprestar um derradeiro significado, um acréscimo de valor, marcar uma efémera passagem pela transmissão de uma última e indelével mensagem de salvação à humanidade.
Os espectadores talvez pressupusessem que a peça terminasse com a abertura das portas a um orador também ele imaginário. O absurdo vai, no entanto, mais além! Rafael Fonseca, o orador contratado pelo casal de velhotes, entra em cena e percorre sem atropelos uma sala supostamente cheia, olha o cadeiral vazio, onde acreditámos ver sentados coronéis, médicos, senhoras e até o próprio Imperador e transmite, por fim, a encomendada mensagem de salvação.
No entanto, a abundância de dúvidas e reticências, o jogo absurdo das cadeiras vazias e do entretenimento de personagens ausentes, os diálogos de mera circunstância, demoram-se em demasia e ensombram a peça, toldam a mensagem, quase até ao fastidioso. É um texto longo e cansativo, que exige dos actores o impossível: trazer vida onde ela não existe.

Em cena até 10 de Novembro.

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