home Antologia, LITERATURA As Provadoras de Hitler – Rosella Pastorino (Dom Quixote, 2020)

As Provadoras de Hitler – Rosella Pastorino (Dom Quixote, 2020)

Passados 75 anos sobre a sua morte, Adolf Hitler continua a despertar a curiosidade da Humanidade e a história da sua vida a vender livros. Neste As Provadoras de Hitler, é a escritora italiana Rosella Postorino que ressuscita a história de Margot Wölk que, todas as manhãs, durante quase dois anos, escoltada por soldados das SS, percorreu de camioneta a distância que separava a casa dos seus sogros, na Prússia Oriental, de Wolfsschanze – a Toca do Lobo –, o complexo militar de onde Hitler, por aquele tempo, tentava não perder a II Guerra Mundial. Ali chegada, ingeria, angustiada, iguarias ao alcance de poucos naquela Alemanha devastada pela economia de guerra, consciente de que cada garfada poderia ser a última. Wölk era uma das quinze mulheres que todos os dias provavam a comida destinada a Hitler, antes que esta lhe fosse servida, a fim de evitar o envenenamento pelos seus inimigos, reais ou imaginários. Das quinze, foi a única que sobreviveu à guerra, mergulhando num silêncio de décadas, que só rompeu no final da sua vida.
Conforme Rosella Postorino nos explica no final do livro, partindo dos relatos de Margot Wölk, conta-nos a história de dez mulheres simples de Gross Partsch, na Prússia Oriental (actualmente a cidade de Parcz, na Polónia), chamadas diariamente a provar os pratos de cada refeição servida a Hitler. A ideia era simples e tinha sido usada antes por inúmeras figuras de poder, e, apesar do risco de vida, aquelas mulheres, alemãs e supostamente nazis, acediam às melhores iguarias numa altura de penosa fome.
A história é-nos narrada na primeira pessoa por uma das dez provadoras (menos cinco do que na história real): Rosa Sauer, berlinense de gema, órfã, que se havia mudado para casa dos seus sogros no campo, enquanto o marido combatia na frente russa. Diferente das companheiras, Rosa esforçava-se para se enquadrar na nova realidade que a leva três vezes por dia ao esconderijo campestre de Hitler: “Voltei a pôr o meu vestido de xadrez no armário que fora de Gregor, juntamente com todo o meu vestuário de empregada. Os sapatos eram os mesmos – para onde é que vais com esses saltos altos, advertia Herta, mas só com aqueles é que eu reconhecia os meus passos, por muito incertos que se tivessem tornado. Nas manhãs mais nebulosas, por vezes eu agarrava no cabide quase com raiva, não havia qualquer motivo para me confundir com as provadoras, eu não tinha nada em comum com elas, porque é que eu tinha de fazer com que me aceitassem?”.
Curiosamente, Hitler nunca aparece neste livro, sendo apenas descrito pela boca das outras personagens, como divindade ou bobo, mas sempre de forma indireta, como uma sombra. Hitler não comia bem. Não havia carne porque era vegetariano (dizia, numa estranha e não intencional ironia, que não suportava a crueldade dos matadouros) e a sua dieta era um escândalo de desequilíbrios, com certa predilecção pelos grãos de soja. Com sérios problemas de estômago, entupia-se de comprimidos contra a flatulência.
As provadoras tinham que experimentar todos os pratos uma hora antes e esperar para ver se estavam em condições ou, pelo contrário, morriam envenenadas. Algumas choravam enquanto engoliam. A autora traça-nos um retrato vivo do tratamento que lhes era dado, meras cobaias numa prisão, quase escravas, embora pagas pelo seu “serviço” ao regime nazi. Para Wölk, a figura que inspirou Rosella Pastorino e que no romance aparece como a protagonista Rosa Sauer, comer nunca voltou a ser a mesma coisa. Conta a autora, em várias entrevistas à imprensa aquando do lançamento do romance que: “A vizinha de Margot em Berlim disse-me, quando eu fazia pesquisa para o romance, que ela era uma pessoa difícil à mesa. O acto de comer, o gesto principal que fazemos todos para poder viver, foi alterado a partir daquele momento pela experiência de ter sido provadora de Hitler, e isso ela nunca poderia superar”.
Ainda que toda a narrativa seja, em si, um pouco previsível, fica-se preso à paranóia a que estas provadoras estavam sujeitas – “O medo da morte era uma colónia de insectos que formigava debaixo da minha pele.” –, bem como a algo superior: à sua luta pela sobrevivência. A autora detalha de forma exímia a evolução da dinâmica do grupo de provadoras, que cedo descobrem que a única forma de sobreviverem é o estabelecimento de relações entre si, que contemplam também a frivolidade e as disputas por futilidades, e conferem algum sentido de normalidade à sua vida. As provadoras tornam-se, ao longo da narrativa, num só corpo cúmplice, que ora se dilui ora se uniformiza.
Se é verdade que este não é um livro violento, que retrate as barbaridades dos campos de concentração ou outros horrores da guerra, não é menos verdade que encontramos nas suas páginas uma dor sempre presente, tão profunda quanto silente: a dor de quem sobrevive, recorda e se culpabiliza e não encontra expiação para a sua culpa. A vida de Rosa gera no leitor, simultaneamente, simpatia (é uma alemã que perdeu a mãe na guerra, tem o marido na frente e passa fome) e antipatia (o seu trabalho diário visa a sobrevivência de Hitler, ainda que não fosse simpatizante do regime e ganha privilégios através da sua aproximação romântica a um oficial das SS, entretanto chegado à Toca do Lobo).
É sem dúvida um romance de sentimentos, explorando a culpa, a perda e a ambiguidade entre honestidade e traição. A autora questiona (e questiona-nos) se, em tempo de luta pela sobrevivência, haverá ainda lugar para a intimidade e os afectos e que papel lhes estará reservado perante a privação. Tal como em qualquer boa história, também nesta nada é preto ou branco, mas matizado por inúmeros tons de cinzento.
Rosella Postorino, nascida em Reggio Calabria em 1978, vive em Roma e é uma escritora e editora de sucesso. Com este As Provadoras de Hitler, o seu primeiro livro editado em Portugal, ganhou, até ao momento, a 56.ª edição de um dos mais importantes prémios literários de Itália, o Campiello, e ainda os prémios Rapallo, o Pozzale – Luigi Russo, o Chianti, o Wondy e, em França, o Prémio Jean Monnet de Literatura Europeia.

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