home Antologia, LITERATURA Às vezes são precisas rimas destas – Poesia política portuguesa e de expressão alemã (1914-2014) (Tinta da China, 2017)

Às vezes são precisas rimas destas – Poesia política portuguesa e de expressão alemã (1914-2014) (Tinta da China, 2017)

A Tinta da China, juntamente com o Goethe-Institut Portugal e a Associação Portuguesa de Estudos Germanísticos (APEG), acaba de lançar um dos livros mais bonitos do ano. Esta é uma antologia poética, cujo nome, em Português e em Alemão, toma emprestado o “poema de combate” de Vasco Graça Moura: “indecente rimar. uma criança/ a esbugalhar os olhos de pavor./ uma cidade a arder, a governança/ do mundo a esquivar-se: a sua dança/ rima obscenamente com timor”. Como por aqui se vê, esta seleção de poemas por Joachim Sartorius, Fernando J. B. Martinho, João Barrento e Helena Topa, abrange história portuguesa e alemã, incluindo tipologias do horror tão díspares como a perseguição nazi ou a ocupação de Timor pela Indonésia. Mas não só. Como a própria delimitação temporal do título nos garante, esta é uma História que começa na 1ª Guerra Mundial, portanto, no início do pequeno século XX, como configurado por Eric Hobsbawm, mas não termina, como este havia delimitado, em 1990. Neste sentido, esta antologia rebela-se contra a constância dos conceitos cronológicos em que encaixamos a realidade política e literária. Cem anos de poesia política contam uma outra história, como explica o texto introdutório de Sartorius, autor da ideia original a partir da sua publicação em 2014 do volume “Niemals eine Atempause. Handbuch der politischen Poesie im 20. Jahrhundert” (editora Kiepenheuer&Witsch), na Alemanha: “A ideia que tinha em mente era uma versão diferente, menos comum, do livro de história: um livro de história escrito através de poemas.” E se esta história “estica” o século XX até 2014, é porque, desde 1990, ela demonstra que o seu fim, tantas vezes apregoado, não confere, e que se mantém de perfil tão violento quanto aquele de que se revestiu até à queda do muro: as guerras do Golfo, Timor, a Troika em Portugal. Manuel Alegre, por exemplo, assina o poema de nome familiar (“Resgate”, 2012), quase no fim da antologia: “Há aqui qualquer coisa de que não gostam/ da terra das pessoas ou talvez/ deles próprios/ cortam isto e aquilo e sobretudo/ cortam em nós (…)”. O governo? As agências de rating? Não, os alemães: “Trazem palavras de outra língua/ e quando falam a boca não tem lábios/ trazem sermões e regras e dias sem futuro/ nós pecadores do Sul nos confessamos/ amamos a terra o vinho o sol o mar/ (…) Por isso podem cortar/ punir/ tirar a música às vogais (…)”. Esta antologia descarta, portanto, uma unidade poemática encarcerada em fronteiras ou discursos nacionais. Pelo contrário, ancora-se no diálogo de autores de língua alemã e portuguesa, sobre uma única unidade temática, a da poesia política, por sua vez tão abrangente que permite relermos composições canónicas sobre as trincheiras, tão longínquas no tempo, assim como lírica militante anti-austeritária, provavelmente desconhecida da maioria dos leitores, mas com referenciais contextuais políticos, económicos e sociais ainda em curso. Ainda Sartorius: “Ao construir esta antologia parti, pois, da convicção de que não há outro género de textos publicados (…) que tenham proferido juízos tão verdadeiros sobre a história e a política como a poesia”. Poesia é história, poesia é luta, poesia é ilustração. Com traduções de Paulo Quintela, João Barrento, ou Yvette Centeno, entre muitos outros (identificados junto a cada uma das traduções), é uma edição bilingue, com poemas portugueses traduzidos para alemão, e vice-versa. O volume apresenta-se cuidado na explicação da sua organização, desde aspetos de ordem ortográfica, à informação sobre fontes consultadas, à bibliografia utilizada. Um portento, portanto, tanto para leitores portugueses como alemães.
Dividido em doze partes, o livro percorre a história através de secções denominadas a partir de um verso de um poema incluído na própria secção. Principia então com “O monstro quer sangue”, do soneto de Gomes Leal com o mesmo nome (“Pedem sangue da Terra os intestinos…”), e terminará no capítulo “O conto de fadas da modernidade”, do poema “Fala o diretor-geral”, de José Miguel Silva, em que um CEO feito sujeito lírico tem voz de Cassandra numa epopeia capitalista: “E, passada a turbulência, cá estaremos, accionistas do futuro, para herdar a Terra”. Pelo meio, hão de passar os mais óbvios, em versos aforísticos, alguns dos quais reconhecemos imediatamente: Sophia e o 25 de abril (“O dia inicial inteiro e limpo”), Brecht e o comunismo (“É a coisa simples/ Que é difícil de fazer”), Erich Kästner e o contraponto alemão à Itália de Goethe, a dos limoeiros (“Conheces o país onde os canhões florescem?”), Ruy Belo e o marasmo lusitano (“No meu país não acontece nada”), Jorge de Sena e o grito contido por quatro décadas (“Não hei-de morrer sem saber a cor da liberdade”), Marie Luise Kaschnitz e o Enola Gay (“Aquele que lançou a morte sobre Hiroxima/ Foi para o convento, toca aí os sinos”), Saramago e o zeitgeist salazarista (“Mais perguntas, amor? Antes calados”), Zeca Afonso e os vampiros (“Eles comem tudo/ E não deixam nada”), Paul Celan e o Holocausto (“A morte é um mestre que veio da Alemanha”).

No início de cada capítulo, igualmente bilingues, surgem textos introdutórios que contextualizam historicamente a secção, e justificam, colhendo exemplos pelos vários poemas, o seu potencial dialógico. No capítulo “Somos uma república”, aludindo às duas experiências semelhantes de regimes pós-monárquicos, encontramos então Brecht lado a lado com Almada, o primeiro a elogiar os revolucionários, o segundo mais cético com as polarizações: “Eh comunistas! Eh fascistas! (…)/ Assim mesmo necessitais de inimigos./ Chamais construir: eliminar inimigos”; assim como Manuel Alegre com Paul Celan, obviamente não por pertinência cronológica, mas pelo louvor comum a uma mártir da revolução de novembro alemã, Rosa Luxemburg, assassinada em janeiro de 1919 pelas milícias paramilitares embrionárias das SA.
A antologia passa ainda pela Guerra Civil espanhola, onde destacamos Guernica em forma de poema por Carlos de Oliveira, e pelos campos de concentração alemães, incluindo dois poemas portugueses dedicados, respetivamente, a Dachau (Mário-Henrique Leiria) e a Buchenwald (Egito Gonçalves). Fernando Assis Pacheco olha para o mapa de Espanha e aponta para o local onde Humberto Delgado é assassinado por Rosa Casaco & Ca, em 1965: “Aqui, aqui – mostro/ a quem quer ouvir-me. / No silêncio do Outono. / Em Villanueva do silêncio/ del Fresno,/ com um tiro”. Aos leitores menos conscientes do “tempo de mudez” do pós-guerra alemão e austríaco, será do maior interesse tomar contacto com os poemas de Enzensberger (“…de que nada quero saber, país modelo, / fossa de assassinos, para onde fui cordialmente lançado/ de corpo meio vivo”), Ingeborg Bachmann (“O uniforme do dia é a paciência”), ou Günter Eich e o seu “Inventário” do poeta entre ruínas de guerra. Até ao seu término, esta visita passará ainda por Angola, a ditadura de Pinochet, as Torres Gémeas, o fim da Alemanha de Leste ou o massacre dos chechenos numa escola em Beslan em 2004. Para os mais cáusticos: Pessoa sobre “Este senhor Salazar”, e Brecht sobre o “Hitler pinta-paredes”.
De resto, estão lá todos e todas: Gomes Ferreira, Gedeão, Ana Hatherly, Torga, Natália Correia, Eugénio, Ramos Rosa, Fiama, Cesariny, O’Neill, Gastão Cruz, Mourão-Ferreira, Ary dos Santos. Entre os alemães, destacamos Kurt Tucholsky, Hermann Broch, Nelly Sachs, Günter Grass, Heiner Müller ou Sarah Kirsch.
Por não caber aqui todo o arsenal da arma carregada de futuro que é a poesia deste livro, limitamo-nos, de forma simplificada, a reconhecer aquilo que os visionários combatentes nela incluídos nos ensinam: nunca é tempo de baixar a guarda.

É possível ler as primeiras páginas do livro AQUI.

Por defeito profissional, Luis Pimenta Lopes escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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