home Antologia, LITERATURA Averno – Louise Glück (Relógio D´Água, 2020)

Averno – Louise Glück (Relógio D´Água, 2020)

A atribuição do Nobel da Literatura tornou-se polémica, prejudicando o prestígio que granjeou durante décadas, mas também o laureado, cujo trabalho de uma vida é subitamente escrutinado por motivações bem para além da escrita (veja-se o caso de Peter Handke, por exemplo). Quando a Academia Sueca decide esquecer rancores e preconceitos bem públicos a escolha costuma ser certeira. Foi o caso de Louise Glück (Nova Iorque, 1943), premiada pelo conjunto da sua obra, que começou recentemente a ser publicada e traduzida em Portugal pela Relógio D´Água, com quatro livros já nos escaparates. Tivemos a fortuna de ler Averno pela primeira vez em livro, na edição bilingue da referida editora, com tradução de Inês Dias.
A poesia da americana é despojada e até, como dizem os seus conterrâneos, “underwhelming”, surpreendendo pela ausência de uma linguagem demasiado formal e da preocupação com a métrica ou a rima, prevalecendo em Averno as alusões, metonímias e alegorias ligadas ao mito de Perséfone, que nos remetem à infância conturbada do sujeito poético e parecem conter ecos autobiográficos, como a juventude problemática da autora (que padeceu de anorexia no final do ensino secundário e só através de terapia se conseguiu reerguer, sendo obrigada a desistir da universidade). «Como uma avezinha privada da luz do dia:/assim foi a minha infância.» (67)
Ao longo das estrofes encontramos traços comuns: a depuração da linguagem, uma certa ânsia, quase angústia, pela libertação física e emocional, até ao extremo da morte como liberdade derradeira, e o confronto com o horror e o sofrimento nas suas várias vertentes.
Mas comecemos por Perséfone e pelo próprio título, chaves hermenêuticas essenciais. Averno, título do livro e tema do primeiro poema, é um “pequeno lago numa cratera (…) em Itália: considerado pelos antigos / Romanos como a entrada para / o mundo dos mortos.” Avançamos na leitura por via da ponte perfeita entre o mito de Perséfone e a visão que a poeta pretende transmitir ao putativo leitor, que interpela com frequência e envolve na experiência literária.
Segundo o mito clássico, a jovem Perséfone, filha de Zeus (deus dos deuses) e Deméter (deusa das colheitas, Natureza e estações do ano), quando contemplava o lago é capturada por Hades, guardião do submundo (ou dos Infernos) para se tornar sua esposa, sem conhecimento da sua mãe e com a permissão, dada em segredo, de Zeus. «Quando Hades decidiu que amava aquela rapariga/construiu-lhe um duplicado da terra,/tudo igual, até o prado,/mas com uma cama também.» A mãe, inconsolável na sua tristeza, gera seca generalizada e miséria que se prolongam mais do que o esperado, forçando Zeus a reverter parcialmente a sua decisão: o casamento mantém-se, mas Perséfone terá que passar meio ano nos Infernos e a outra metade à superfície. A juventude perdida, a traição e sofrimento infligidos pelo Pai, o fim da inocência e dos laços familiares, a dissolução de sonhos e fantasias, para darem lugar ao grande Nada, sem apelo ou agravo, fora do controlo do livre arbítrio, estão presentes ou latentes em cada verso. Filha de deuses, Perséfone perde a imunidade que derivaria da sua ascendência por razões fúteis. Castigada e humilhada, é forçada a aceitar um destino funesto.
A dor é analisada com frieza objectiva mas ao mesmo tempo destemida e sem condicionamentos prévios, como se as palavras fossem ditas no divã para um ouvinte fictício, que analisa sem julgar, apreende sem se deixar prender pelo sofrimento alheio. Fá-lo pela voz da protagonista e de outros sujeitos por identificar, com frequência em discurso directo, acentuando o tom de familiaridade e de testemunho. «Nunca estou sozinha, pensa,/transformando o pensamento em prece./A morte surge então, como a resposta a uma prece.»

A ligação de Glück à mitologia e lendas clássicas surge ainda na infância, com os pais a usarem essas histórias fundadoras da cultura ocidental como contos para a adormecer, criando em si o desejo precoce de ser poeta.
Sem surpresa e com este fundo desde o início da leitura, é sobre Perséfone, a memória e a passagem do tempo que se espraiam os versos de Averno, com foco na infância e na finitude humana, jogando com os sentidos (significados e não geradores de sensações) de um conjunto finito de imagens repetidas, como se a iteração esculpa o seu significado inicial até à mera condição de vocábulo útil ao poema concreto, intrínseco ao sujeito poético como uma segunda pele. A linguagem directa é camuflada de simplicidade, mas o registo consistente que atravessa a obra é de profundidade difusa e de um peso emocional e íntimo bem dissonante. «como se o artista tivesse/o dever de criar/esperança, mas a partir de quê? de quê? / A própria palavra/é falsa, um expediente para refutar a percepção – no cruzamento, / luzes festivas da época. (…) não estás sozinha,/dizia o poema, no túnel escuro.» (25)
O tom negro e irónico é enquadrado por prosa poética, que cruza discussões académicas, opiniões quase doutrinais e estados de alma, atingindo uma insólita e inesperada transcendência e literariedade pelo uso hábil de imagens comuns conciliadas com referências clássicas, apelando de igual forma a literatos e iniciados.
O tempo e a memória materializam-se nos elementos naturais, ou associados à psicanálise, com referências directas e veladas às teorias freudianas, que nos escusamos aqui a aprofundar. «Três partes: tal como se divide a alma,/ego, superego, id./Assim também os três níveis do mundo conhecido,/uma espécie de diagram que separa /o céu da terra e do inferno.» (31) A infância (o passado) é apresentada como negra e traumática, consequência da incúria paternal e da evocação dolorosa dos sonhos e possibilidades, entretanto esmagadas: «O tempo passou, transformando tudo em gelo./Sob o gelo agitava-se o futuro./Se caísses nele, morrias.» (77) O presente é o tempo que conta, território das decisões e mudanças, da acção: «Eu vivia no presente, que era/a parte do futuro que podias ver./O passado flutuava sobre a minha cabeça,/como o sol e a lua, visível mas inalcançável.» (77) O misterioso futuro surge submerso, sob uma corrente subaquática ou mesmo sob o gelo: «Noutros dias o lago era uma folha de vidro./Sob o vidro, o futuro marulhava,/discreto mas convidativo:/tinhas de fazer um esforço para não escutar.» (79)

Todos estes elementos se encaixam e desenvolvem com a participação activa do leitor, que lhes confere o sentido último que traz consigo, emprestando assim aos signos e aos significados pretendidos pela poeta uma renovada concretização a cada leitura, o pessoal e o universal tornados indistintos em dois momentos sucessivos. Como referia Anders Olsson ao apresentar as motivações da Academia Sueca para a atribuição do Nobel a Louise Glück, apesar de «nunca negar o significado do contexto autobiográfico (…) procura o universal, e nisto retira inspiração nos motivos mitológicos e clássicos, (…) como máscaras para um eu em transformação» (tradução nossa).
«There is always something to be made of pain.» diz a poeta no seu “Love Poem”. Louise Glück consegue esse milagre de transformar a dor em arte poética. Sorte a nossa.

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