home Antologia, LITERATURA Beethoven – Luís de Freitas Branco (Caminho, 2020)

Beethoven – Luís de Freitas Branco (Caminho, 2020)

Uma das primeiras coisas que se deveriam notar, quando se lê este Beethoven – Vida e Personalidade, é que ele retoma uma edição originalmente publicada nos anos 40 do século passado – motivo pelo qual não há que estranhar práticas ortográficas como o aportuguesamento de nomes próprios. Esta opção, há muito abandonada entre nós, motiva a circulação, ao longo de todo o livro, de formas como «Luís van Beethoven», ou «João van Beethoven» [pai do compositor], além de outros casos que são, actualmente, bizarrias onomásticas. Noutro ponto que se deve observar, trata-se, não de um, mas de dois livros da autoria do maestro e musicólogo Luís de Freitas Branco: A Vida de Beethoven (1943) e A Personalidade de Beethoven (1947). O que implica um tom e um alcance ligeiramente diferentes – veloz e geral, no primeiro; com maior profundidade e pormenor, no segundo – no que são, agora, dois momentos de uma reunião de dois títulos anteriores, escusado será dizer, esgotados há muito. Ainda no campo dos avisos prévios, e a fechá-los, diga-se que aspectos como a grafia em que surge o livro em nada perturbam o valor e o interesse desta obra. Que se mantém intacta – ainda que certos momentos de Beethoven – Vida e Personalidade se tornem potencialmente confusos, por azar de certos acasos da ortografia. Veja-se, por exemplo, o que acontece ao nome do compositor e discípulo de Beethoven Ferdinand Ries, que passa, naturalmente, a ser «Fernando Ries» (p.63). Uma escolha que, sem grande esforço imaginativo, poderia provocar, no leitor, a suspeita de uma gralha, por hipotética confusão com qualquer «Fernando Reis». Aliás, mais adiante no livro, grafa-se «Ferdinand Ries» (p.81). É um daqueles casos em que a obediência à grafia original não faz muito sentido. Tanto mais que a adopção do chamado Acordo de 1990, em toda a obra, inviabiliza a premissa de respeito pela originalidade da ortografia…

Beethoven surge neste livro como ser real. Não é, por isso, o arquétipo do artista, o símbolo da sua música, a efígie do compositor, para poisar em cima do piano, do aparador, ou em estátua votiva, o que o leitor tem diante de si. É o homem, que foi artista e cidadão, o que este livro apresenta. De resto, Luís de Freitas Branco atreve-se, sem qualquer remorso, a contrariar o Mestre, em certas passagens do seu livro. Sem desrespeito, nem, como é óbvio, banalização do legado beethoveniano, o autor permite-se esclarecer e mesmo corrigir impressões canónicas e aparentemente incontestáveis. Pense-se, por exemplo, nessa autêntica reunião de Titãs que foi o momento em que Beethoven se encontrou com Goethe. Nessa ocasião histórica, as afirmações que o compositor fez em relação a Goethe, e que chegaram até nós, apenas põem em evidência a rebeldia e o espírito independente de Beethoven, que acusa o poeta de pactuar em demasia com os poderes instituídos. No entanto, LFB corrige, marginalmente, como quem estivesse a comentar, discretamente, o desenrolar imaginário do passado. Acentua o autor quanto há de injustiça e mesmo impropriedade nas palavras ásperas do compositor, que acusa mesmo o autor de Fausto de não ser mais do que um fútil cortesão – «O ar da corte agrada a Goethe mais do que deve agradar a um poeta.» (p.94). Goethe não seria bem o que Beethoven dele disse, conforme nos assevera Freitas Branco – que tem do seu lado a razão: «a escrupulosa polidez do grande poeta não o impedia de assumir uma atitude firme quando as circunstâncias o impunham» (p.95).
Nada disto, porém, impediu Luís de Freitas Branco de se abeirar das dimensões lendárias que, como não podia deixar de ser, rodeiam uma figura como a de Beethoven. Freitas Branco tem, por exemplo, uma atitude de exemplar serenidade, quando é chegado o momento de se pronunciar sobre as narrativas segundo as quais o compositor teria, em jovem, contactado com Mozart. Sem nunca ser peremptório, LFB não se fecha a possibilidades alternativas de acesso à verdade dos factos. Equaciona, por isso, a hipótese de Beethoven ter executado uma peça musical diante de Mozart e até que houvesse recebido lições esporádicas do compositor mais velho – mas assevera que «não se deve falar de Beethoven como discípulo de Mozart, embora possa haver a certeza de que, se Mozart vivesse ainda em 1792, o teria escolhido a ele, e não a Haydn, para seu professor» (p.31). Este aparte referente a Haydn é um pedaço de informação não para negligenciar; de resto, mais adiante no livro, LFB não deixará de produzir mais variações sobre este tema, para tomar de empréstimo a gíria. Como explica o autor, Beethoven, no Natal de 1790, «deve ter visto Haydn pela primeira vez, mas não teve empenho de lhe ser apresentado, nem de lhe mostrar as suas obras, sem dúvida por viver ainda Mozart, que ele decididamente preferia» (p.34). Num concerto que deu, Beethoven viria mesmo a «recus[ar]-se a acrescentar as palavras “discípulo de Haydn” ao seu none, nos exemplares impressos [do programa da sessão]» (p.45).

Quer num momento, quer no outro – A Vida de Beethoven e A Personalidade de Beethoven –, o livro não isola a biografia do compositor e a apreciação da sua obra, nem esta das manifestações do seu fautor, dos seus contemporâneos e do que a posteridade regista. Beethoven, informa-nos, foi «o primeiro pianista, por ter sido o primeiro a opor à execução miúda e picada do cravo de penas, a execução enérgica e larga, a plenas mãos, que inaugurou a moderna arte do teclado» (p.46). Em 1823, pós ter assistido a um concerto do muito jovem prodígio Franz Lizst (com apenas 11 anos), Beethoven «beijou-o na testa predizendo-lhe um brilhante futuro» (p.99). Segundo reza a lenda, algo não muito diferente (embora sem beijo, ao que se julga) tinha feito Mozart, depois de ouvir Beethoven a tocar,: «Este moço ainda há-de fazer falar muito de si no mundo.» (p.31) Sem comparação possível com o funeral de Victor Hugo, acompanhado por mais de dois milhões de pessoas, quando Beethoven morreu, 58 anos antes, em 1827, «Teve de ser requisiada uma força militar para conter, na emorme praça e nas ruas próximas, as 20 000 pessoas que o acompanharam, acrescidas de uma multidão de curiosos.» (p.107)
Um dos trunfos deste livro é a confluência que nele existe de fontes diversas para o conhecimento de Beethoven. Por um lado, deve-se assinalar, com agrado, a presença assídua de diversos excertos provenientes das cartas do compositor. Estas permitem um acesso (quase) sem reservas à personalidade de Beethoven e autorizam o leitor a formar ideias mais concretas e definidas acerca de várias circunstâncias da vida do artista: «assalta-me melancolia, o que para mim, é um mal tão grande como o sentir-me doente» (p.30) Há depois um importante conjunto de fragmentos escritos do compositor, muitos deles extraídos dos seus «cadernos de conversação», material de que, a certa altura, devido à surdez, sempre o acompanhava – e onde os seus interlocutores deviam escrever o que pretendiam comunicar ao Mestre. Num deles, poder ler-se o seu credo da liberdade, que é também um brevíssimo manifesto do romantismo que Beethoven ajudou a forjar – «amar sobre todas as coisas a liberdade, não negar a verdade – nem mesmo junto de um trono!» (p.44). Os documentos alusivos às despesas pessoais de Beethoven «não se referem apenas a roupas calçado e alimentação. Há uma verba para o piano, outra para o fabricante de cabeleiras, e – caso mais estranho – o apontamento da morada de um professor de dança» (p.37). São pequenas, quase insignificantes notas como estas, que LFB consultou e integra no seu livro, que ajudam a constituir um retrato muito menos limitado do que, de outra forma, poderia ter sido.

Não deixa de ser curioso que Beethoven tenha legado à posteridade tão abundantes exemplos escritos dos seus pensamentos e opiniões. Como o próprio registou, «escrever, como sabes, nunca foi o meu forte» (p.55). E, conforme garante Freitas Branco, que disso mesmo fornece provas abundantes: «era, a a escrever cartas, desconexo e confuso» (p.64). O que não o impediu, contudo, de reflectir sobre assuntos que exigiam capacidades que não podiam orçar pela mediania, tanto mais que as suas anotações estão marcadas por registos concentrados no «Divino do Humano» (p.59). Num dos seus escritos avançou mesmo: «não há monografia demasiado erudita para mim» (p.116). Na verdade, conforme informa Luís de Freitas Branco, Beethoven «nunca possuiu a quantidade suficiente de livros para que se dissesse com verdade que possuía uma biblioteca», mas apenas uma «biblioteca de mão» (p.128), como lhe chamava o secretário do compositor, Anton Felix Schindler. Fosse como fosse, um contemporâneo descreve o compositor como um «ansioso de saber» (p.42). Algo que sempre levaria Beethoven, como diríamos hoje, a investir na sua formação permanente, quer no campo musical, quer no domínio literário e filosófico.

Figura cimeira da música ocidental, nome máximo do romantismo, para cujas feições, em música, tanto contribuiu, Beethoven encarnou o espírito da época. Um tempo de convulsões histórias, políticas e sociais, atravessada pelo fim do Antigo Regime, o rebentar da Revolução Francesa, as investidas napoleónicas, a redefinição de fronteiras e de poderes – em suma, com a formação do que se chamaria o início da Época Moderna. A todos estes estímulos a vida e a obra de Beethoven não deixaria de responder. Estes dois trabalhos de Luís de Freitas Branco, finalmente reeditados, num só volume, permitem um acesso privilegiado a esse universo fascinante, de uma importância sem par na definição da cultura ocidental.

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