home LP, MÚSICA Benjamin Clementine – CAE Figueira da Foz, 27/3/2018

Benjamin Clementine – CAE Figueira da Foz, 27/3/2018

Benjamin Clementine tornou-se, em poucos anos, numa figura mítica da música. Muitos são os enigmas sobre o seu passado, que o mesmo cultiva com o seu silêncio, mas a história de como acabou sem-abrigo nas ruas de Paris, vindo da sua Londres natal, para aí ser descoberto, enquanto cantava na rua, por um agente que viu nele a centelha de génio, comoveu o mundo. O seu talento e música singulares fizeram o resto.
O facto de se recusar a abordar pormenores da sua infância e juventude só adensou o mistério e aguçou o apetite do público. Sabemos ser o mais novo de cinco irmãos, de uma família de origem ganesa, muito religiosa, e que durante algum tempo viveu em Londres com os seus avós. Na verdade, vamos entrando na sua vida e no seu passado mais pela sua música do que por aquilo que confidencia nas entrevistas. Certo é que ninguém fica indiferente a Benjamin Clementine, à sua voz e à sua figura.
O seu primeiro álbum – At Least For Now – levou-o a todos os cantos do mundo, Portugal incluído. Regressou esta semana, já depois de editado o seu segundo disco – I Tell a Fly. São trabalhos muito diferentes, o que demonstra o seu crescimento enquanto artista. As canções tornaram-se mais densas e a sua mensagem deixou se focar no cantor. É um disco sobre o mundo, ou melhor, sobre a visão que Clementine tem do mesmo. Rejeita a definição daquele como sendo um trabalho “político”, preferindo o adjectivo “humanista”. É um disco sobre a paz e a guerra, sobre pessoas, sobre o seu melhor e, quase sempre, sobre o seu pior.
Há nele referências à guerra na Síria (“Phantom of Aleppoville”) e metáforas (como “Billie the Bully”). “By the Ports of Europe” refere-se à questão do Brexit e “God Save de Jungle” à “selva” de Calais, em França, local onde estiveram centenas de refugiados bloqueados junto à fronteira, à espera de uma oportunidade para entrar no Reino Unido.
É um disco caótico e intenso, que,  em termos estéticos, segue por caminhos alternativos e pouco imediatos. Se no primeiro trabalho podemos ouvir parte da história da vida de Clementine (aquela que este se dispôs a partilhar connosco), neste ouvimos a história de outras pessoas. Para dar vida a tais temas tão contemporâneos, usa instrumentos como o inseparável piano, sintetizadores e o cravo, tão europeu, num arcaísmo paradoxal, cuja sonoridade barroca nos faz lembrar Bach e um outro tempo.
Benjamim carrega em si muitas vidas, muitos mais anos do que os 28 registados no seu assento de nascimento. A música que apresenta agora diz-nos isso mesmo, pela sua complexidade e cunho dramático. Não é que no trabalho anterior tal não se intuísse já, mas apenas pela profundidade emocional das letras das suas canções.

De regresso a Portugal para três concertos, tivemos o privilégio de assistir ao segundo, no esgotadíssimo Grande Auditório do CAE da Figueira da Foz.
O público presente ansiava pelo início do espectáculo que, a julgar pela mise em scéne, se antevia pouco convencional. Pouco antes das 22 horas, as luzes baixaram e começámos a ouvir os primeiros sons de “Farewell Sonata”. Fez-se um silêncio absoluto no auditório. Vestidos de forma idêntica (fato-macaco azul), descalços, o cantor e os três músicos que o acompanham entraram em palco. Enquanto Benjamim se sentou ao piano e deu início ao tema propriamente dito (a lembrar o romantismo de Debussy), os restantes elementos deambularam pelo palco, em movimentos coordenados e com uma execução precisa. Mexem nos manequins expostos (adultos, crianças, grávidas) e, tal como soldados, dirigem-se aos seus postos, prontos. Assim que termina o tema inicial, os músicos arrancam com os acordes de “God Save de Jungle” e Clementine dá-nos as boas-vindas com um vigoroso “Welcome to jungle, dear!”.
As expectativas para este concerto eram elevadas e em momento algum foram defraudadas pelos performers. Sim, porque Clementine e a sua trupe são verdadeiros performers, não se limitando a debitar o alinhamento. Vão-nos contando uma história que seguimos com facilidade, ainda que nenhum de nós conheça o argumento. Fez-se verdadeiro drama performativo em palco.
Com “Phantom of Aleppoville” e “One Awkward Fish”, Clementine tem-nos na mão. Com esta última canção, cria um momento de tensão dramática intenso,  ao deitar, gentilmente, no chão, um dos manequins, um rapaz, sussurrando-lhe no final da canção: “Sleep little boy… shhh… it´s all alright… sleep…”) numa clara alusão a Aylan Kurdi e às tantas centenas de crianças que “dormem” nas praias do Mediterrâneo. A tensão foi parcialmente quebrada, com o desmembramento não intencional do manequim, mas tal não foi suficiente para afastar o nó na garganta que se havia instalado em todos nós.
Naturalmente, os temas mais conhecidos do público garantiram uma maior adesão, de que foi paradigmático o delírio colectivo com os primeiros acordes de “I Won´t Complain”.
O concerto prosseguiu com o piano e, acima de tudo, a voz de Benjamin Clementine no centro de tudo. “Winston Churchill´s Boy” e “London”, precederam “Condolence”, claramente uma das favoritas da audiência. No final desta, Benjamin pede-nos: “Vamos cantar juntos, sem medo”. Este desafio abriu um extenso diálogo entre o músico e a assistência, até então em silêncio absoluto: “I´m sending my condolence, I´m sending my condolence to fear… I´m sending my condolence, I´m sending my condolence to insecurities…”. Quer que cantemos sozinhos. Como um maestro, vai-nos dando o tempo e o tom, e as frases são repetidas com vontade.
E assim Benjamim Clementine vai conduzindo o espectáculo, com brincadeira, provocação, desafios lançados e aceites, com reacções cada vez mais efusivas. Em “The Ports of Europe”, os músicos percorrem a plateia formando um coro que vai entoando, com diferentes ritmos, “Portobello”, o que lhes valeu no final do tema uma enorme ovação.
No final do concerto, os manequins são desmembrados e atirados violentamente ao chão, ao som de “Quintessence”: “They say you must become an animal/Or the animal to protect us/The good animal and so we go to war”. O palco fica transformado num verdadeiro cenário de guerra, como se ali alguém se tivesse feito explodir.
Poucos momentos e muitas palmas depois, os músicos regressam para o encore e a primeira das canções apresenta-nos um Benjamin diferente, à guitarra, num momento de pura diversão partilhada.
Em seguida, a surpresa da noite: Benjamin Clementine toca e canta “Tive razão”, de Seu Jorge, para delírio da assistência. E ali está a prova de que não importa o que vem tocar mas a sua presença, numa celebração ou espécie de sessão de terapia colectiva, que nos leva do choro ao riso.

Ainda há tempo para “Jupiter” (é absolutamente impressionante a extensão vocal do cantor) e “Nemesis”. Benjamin Clementine deixa-nos com a mensagem mais simples e difícil de todas: “Treat others the way you want to be treated… Remember your days are falling numbers…”.
Naquela noite fria de Primavera, o CAE da Figueira da Foz foi pequeno para receber aquele alien de 1,93m (mas que em palco parece ter muito mais) – de passaporte britânico mas avesso a fronteiras – um “alien of extraordinary ability”, de acordo com o visto aposto no dito passaporte à entrada dos EUA. Nunca tal expressão terá sido mais certeira.

Alinhamento:
1 – Farewell Sonata;
2 – God Save the Jungle;
3 – Phantom of Aleppoville;
4 – One Awkward Fish;
5 – I Won´t Complain;
6 – Winston Churchill´s Boy;
7 – London;
8 – Condolence;
9 – The Ports of Europe;
10 – Quintessence;
Encore:
1 – Tema inédito;
2 – Tive Razão;
3 – Jupiter;
4 – Nemesis

Notícia de última hora: quem não viu o Benjamin Clementine nesta mini-digressão (ou quer repetir a experiência), poderá fazê-lo no SBSR 2018, onde o artista actuará dia 21 de Julho, no palco Super Bock.

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