home Antologia, LITERATURA Berta Isla – Javier Marías (Alfaguara, 2018)

Berta Isla – Javier Marías (Alfaguara, 2018)

Javier Marías (1951) é um dos mais aclamados autores espanhóis da actualidade. Autor de obras como Amanhã na batalha pensa em mim (1994), O teu rosto amanhã (2002-2007) cujos primeiros volumes já analisamos na Intro, Os enamoramentos (2011) ou Assim começa o mal (2014), já venceu o Prémio Nacional da Crítica, em Espanha, e a crítica em nada o remeteu para a sombra a respeito deste Berta Isla, publicado em 2018 pela Alfaguara em Portugal.
Em traços gerais, e para elucidar um potencial leitor desta crítica que ainda não tenha lido o livro a que aqui se faz referência, a narrativa explora a história de um casal – Berta Isla e Tomás Nevinson – ao longo de décadas (1969-1990). Tomas é recrutado pelos Serviços Secretos britânicos para cumprir funções de infiltrado e a narrativa foca-se essencialmente na vivência da sua ausência por parte de Berta Isla, que, ao longo da narrativa, se transforma na mulher à espera do marido, sem saber quando/se vem, acreditando que voltará mesmo quando tudo indica que não o fará.
Se as primeiras largas dezenas de páginas (pelo menos as que se sucedem imediatamente à parte introdutória), parecem alongar-se escusadamente, resvalando a narrativa para uma tendência quase obsessivo-compulsiva de contar sem deixar brechas, num relato na terceira pessoa, a partir do segundo terço da narrativa, com a narração na voz de Berta, fulgente, vívida, incisiva, a obra ganha um novo fôlego e eis então Javier Marías no seu esplendor, com a “porrada” literária a que já acostumou os leitores, com obras como Assim começa o mal ou Os Enamoramentos, martelando a fundo ideias como “o privilégio da saudade” (p. 143), a “força de demasiados séculos recordados” (p. 291) ou mesmo a de que “a morte se parece com a vida” (p. 316).
Como já aconteceu noutras obras e se tornou marca distintiva de Marías, para além das longas frases vertiginosas, Berta Isla mostra um escritor que, não ignorando o barulho de fundo, e incorporando-o, aliás, sem complacências, mergulha verticalmente nos demónios e no escondido. A leitura exigirá, por isso, paciência, sobretudo para se escapar daquela parte inicial que, introduzindo de forma quase escusada e demasiado explicativa, parece acabar por estar a mais na narrativa, reduzindo-lhe o fôlego num todo. Contudo, a vertigem final é de tal ordem que, uma vez lida a quadringentésima nonagésima sexta página, já a prosa plana inicial parece ter ficado soterrada nesta avalanche que é Javier Marías.

Já aqui se referiu o papel de infiltrado de Tomás Nevinson, o seu papel ao serviço dos Serviços Secretos. Não sendo esta uma obra sobre espionagem, a verdade é que também não deixa de o ser. É que a mestria literária de Marías é tal que o elemento social não é paisagem nem instrumento. Ao invés de veicular a narrativa, funda-a e cria-a. Ao invés de potenciá-la ou permiti-la, constitui-se como tal, sendo assim um elemento interno da formulação literária e permitindo uma relação dialógica com os leitores, em que estes, deparando-se com o panorama político-social da época, estão mais interessados nos abismos individuais das personagens, no pó que a política e as convulsões vão deixando em cada uma delas (de nós), no entulho que a História deixa fora dos livros, sem registo. A literatura mete-se, assim, nos confins da espionagem, fazendo o que só ela pode fazer, entrando sem complacência nas trevas individuais e acordando o que parece estar dormente na paisagem humana, que se faz em multidão sem rosto. Como o abismo pertence à arte, as bifurcações psicológicas, longe de serem lamechice ou sentimentalismo, apresentam-nos um romance na sua plena dimensão humana.
Javier Marías é um génio e nem um iceberg pode lê-lo sem ficar assoberbado. A sua literatura parece ter um quê de sadismo, tal é o impacto por vezes venenoso que deixa nos leitores. Será por isso impossível lê-lo em descanso no sofá. Marías chega ao seu leitor, ata-o ao seu confortável espaço de leitura e chicoteia-o mental, psicológica e emocionalmente. Não se recupera por dá cá aquela palha desta demolição em forma de literatura. Fica assim o aviso à potencial leitora: está aqui uma leitura transtornante.

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