home Antologia, LITERATURA Cai a Noite em Caracas – Karina Sainz Borgo (Alfaguara, 2019)

Cai a Noite em Caracas – Karina Sainz Borgo (Alfaguara, 2019)

Cai a Noite em Caracas é um romance sobre árvores: a genealógica, que nos prende, em vida e na morte à nossa família, a de sangue ou a escolhida; a árvore cujas raízes nos prendem ao país onde nascemos e que por vezes exigem ser cortadas; a ameixeira de carocinho que cresce no quinta da pensão das tias da protagonista, Adelaida Fálcon, com ameixas que nunca crescem por inteiro, cuja carne é pouca e nunca ficam doces mas saciam a fome de Adelaida quando criança. Escrito pela estreante jornalista venuzuelana Karina Sainz Borgo e meticulosamente traduzido por Vasco Gato, Cai a Noite em Caracas é um olhar para um país em ruína, onde falta comida e abundam as balas perdidas, narrada pela voz culpada de uma sobrevivente do excesso de violência e da escassez de meios.
A morte da mãe, a outra Adelaida Fálcon, parece funcionar para a protagonista como um catalisador para a sua fuga do país, uma fuga equiparada ao processo de dar à luz, pois “apenas uma letra separa partir de parir” (199). Este segundo nascimento é a única hipótese de prolongar a sua vida, ao usurpar a identidade da sua vizinha, Aurora Peralta, cujo passaporte espanhol lhe oferece a chance de fugir do país onde apenas a morte é certa, quer às mãos dos Motociclistas da Pátria, da fome, da doença sem meios para ser curada ou dos que saqueiam para comer.
A narrativa constrói-se entre vislumbres da infância de Adelaida em tons technicolor e numa Venezuela marcada pela prosperidade e modernização, promissora para venezuelanos e para os muitos imigrantes que nela se fixaram, “gente que nos respetivos países tinha sido esquecida … que construía um lugar que em parte já era seu” (57), e um presente sombrio, onde a violência diária é traduzida pela linguagem crua e pelas imagens brutais: um namorado degolado com a língua exposta através da garganta numa “gravata mexicana”, um amigo crivado de balas abandonado num descampado ou um gangue de mulheres grotescas que ocupam casas e defecam como animais para marcar o seu território.
Ao perder a mãe, que morre prematuramente de cancro por falta de tratamento, Adelaida começa um duplo processo de luto: da mãe e da pátria. Órfã da primeira e rejeitada pela segunda, adota outro nome, que lhe traz o privilégio de viajar para a Europa, e deixa para trás o corpo da mãe, enterrado numa campa vandalizada onde o nome, igual ao da filha, foi arrancado – a analogia é óbvia – e um país que não identifica como seu.
Não há nomes no livro para os homens que detêm o poder, talvez para lembrar o cariz universal da violência e do desespero que a fome traz perante uma situação limite. Não há, no entanto, um lado puramente mau ou outro plenamente bom da barricada: Adelaida é engolida pela culpa de roubar a identidade, o dinheiro e as roupas de Aurora, mesmo que esta esteja morta. Num das imagens mais violentas do livro, Adelaida recorda Pancho, uma tartaruga que, quando criança, engordou com folhas de alface para que depois esta fosse morta e transformada numa tarte. A dualidade entre nutrir e matar o animal serve como metáfora para o sentimento de culpa de Adelaida, para o ardor no estômago que sentia ao comer o animal e se lembrava do seu guincho quase humano ao morrer e para a culpa que a deixa assoberbada ao pensar na morte, que a impele a escapar do país: “Lambia os lábios só de pensar que íamos comer essa tarte, embora preferisse não pagar a portagem de ouvir o Pancho morrer. … adorava o sabor adocicado e picante daquela carne suave, mas queria ter esse prazer sem atravessar a paixão e o calvário do bicho. Saborear a presa sem a recordação da sua morte. Comer sem a culpa de ter matado. … era por isso que te falava das facções, da que rouba e da que faz vista grossa. Da que mata sem matar.” (184) Ao deixar para trás um país desfeito, Adelaida vive a culpa dos que sobrevivem e escapam em vez de ficar, dos que colocam a sua vida em primeiro lugar. Ao saborear a fuga, Adelaida sente também a amargura do que fica para trás.
Cai a noite em Caracas é sufocante, por vezes violento, sempre desinquietante; pela narrativa perpassa um sentimento espectral e envolvente de inevitabilidade inescapável: a perda, a destruição, a ruína. Há muitas mortes em Cai a noite em Caracas; há também a lembrança de que os países são feitos dos que trocam de lugar tornando seus os países que os acolhem. Há ainda alguma luz, na forma da fuga de Adelaida, e talvez até a promessa que a noite dará eventualmente lugar ao dia, até mesmo num país “bonito nas suas psicopatias. Generoso em beleza e violência … nação construída sobre a fenda das suas próprias contradições, a falha tectónica de uma paisagem sempre prestes a desmoronar em cima dos seus habitantes” (45).

Por defeito profissional, a Ana Carvalho escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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