home Didascálias, TEATRO Campo Minado (FITEI) – Teatro Carlos Alberto, 8/06/2017

Campo Minado (FITEI) – Teatro Carlos Alberto, 8/06/2017

Qual é o tempo de validade de uma memória de guerra? Lola Arias, jornalista, escritora, encenadora argentina, propõe-nos uma resposta clara em Campo minado, levado à cena nos dias 8 e 9 de junho no Teatro Carlos Alberto, no âmbito do FITEI: tanto tempo quanto o protagonista consiga contar a sua história. Se uma peça como esta depende destas memórias, ela autodefine-se como efémera. Quando o protagonista já não quiser ou puder contar a sua história, a peça desaparece. Estamos aqui perante um tipo de teatro documental elevado ao seu expoente máximo: não só é um trabalho que cumpre o desígnio didático que este género por natureza carrega – neste caso a elucidação sobre a curta e esquecida guerra das Malvinas/Falklands, de abril a junho de 1982 –, mas sobretudo porque coloca o público frente a frente com protagonistas reais do evento – veteranos dessa mesma guerra.

Ao longo de um ano, Arias fez castings a cerca de sessenta combatentes de ambos os lados, argentinos e britânicos, entrevistas filmadas a cerca de metade, e workshops colaborativos com um grupo restrito, do qual saíram os seis protagonistas desta peça: Lou Armour, David Jackson e Sukrim Rai, pela Grã-Bretanha; Gabriel Sagastume, Ruben Otero e Marcelo Vallejo, pela Argentina. O trabalho resulta do encontro entre os ex-combatentes e a encenadora, abrangendo, de forma cronológica, o percurso dos soldados desde que sabem que serão enviados para as ilhas até ao regresso a casa,esclarecendo vários detalhes que o público de Campo minado passa a conhecer:como os últimos três algarismos de um bilhete de identidade determinam quem vai parar a uma guerra; como se identifica a perna de um camarada, pela meia que usa, isolada do resto do corpo pela explosão de uma mina colocada pelo próprio exército antes da guerra começar; como homens se vestiam de mulheres simulando um striptease nas noites de espera em que qualquer diversão acelerava o passar do tempo; como se sobrevive no mar gelado do Atlântico sul após o afundamento de um cruzeiro em que se encontravam, e no qual pereceram cerca de três centenas de companheiros. Não interessa diferenciar aqui quem contou qual destes factos: a narração fica a cargo dos seis protagonistas, que se entrecruzam no palco para mostrar que as consequências das memórias de guerra não têm nacionalidade.

O texto foi desenvolvido por Lola Arias a partir dos testemunhos dos próprios, o que implicou um nível de seleção rigoroso, guiado, em primeiro lugar, por aquilo que os próprios achavam serem capazes de reproduzir, vezes sem conta, de cada vez que subissem ao palco, e, em segundo lugar, supomos e parece-nos o mais acertado, pela consciência de que tal nível de realismo e formato testemunhal não se coaduna com um texto demasiado longo, cujo resultado seria a fadiga do público e, assim, a banalidade da experiência vivida. É precisamente este aspeto o mais exemplar de Campo minado, a fuga ao potencial de vitimização, sentimentalismo ou melodrama que a situação facilmente implicaria. O texto é denso, mas encenado de forma ágil, sem grande recurso a efeitos que lhe retirem o foco no seu desígnio didático, consistente, sobretudo, na utilização de material autêntico, em grande parte pertencente aos próprios veteranos: diários; pedaços de roupa, usados na altura, ou recuperados anos depois numa visita ao local; páginas de jornais em que os próprios surgem. Tudo bem articulado pelos seis ex-soldados, que dominam o espaço cénico de uma forma tão profissional que chega a ser desarmante.

Um palco central serve de base para sugestão de cenas de guerra, entrevistas, sessões de psicoterapia, concertos. Como não apelidar de atores estes homens que aprenderam ou melhoraram os seus dotes musicais para as cenas de música de qualidade profissional? Que manejam coerentemente máscaras de Margaret Thatcher e do presidente argentino Leopoldo Galtieri, enquanto ouvimos excertos dos seus discursos inflamados? Que, através de vários objetos e um microfone, simulam o vento das áreas vazias das Malvinas, ou as areias em que soldados assustados se arrastavam no solo durante os bombardeios aéreos? Que movimentam duas câmaras para vários pontos do palco, ajudando à projeção, na parte de trás do palco, por exemplo, de uma cena de guerra entre bonecos numa mesa?

“Campo minado”deixa-nos sem fôlego pela absurda quantidade de informação que descobrimos desconhecer: os Gurkhas, povo originário do Nepal, tradicionalmente incorporado no exército colonial inglês, e famoso pelo manejo de uma faca especial, a Kukri, lutou ainda nas Malvinas. Em sua representação, temos Sukri Rai, cujo percurso pós-guerra ficamos a saber ter passado pelo mundo inteiro em empregos menores, vivendo apenas há cerca de uma década no Reino Unido, já que, pese embora a sua utilização no exército, os Gurkha não podiam viver em solo britânico ou obter a cidadania até 2006.Do outro lado: através do testemunho arrebatador de Marcelo Vallejo, cujas expressões seguimos, em tamanho gigante, junto com as de David Jackson, durante uma “sessão de psicoterapia”, a que o último hoje em dia se dedica, ficamos a saber da chegada de autocarro à Argentina, no fim da guerra, estando proibido de contar às mães de soldados, entusiasmadas com o seu regresso, que o estão em vão; proibido de falar sobre o ocorrido, a humilhante retirada dos sul-americanos do território, britânico desde o século XIX, e que agora era reclamado pelo país. Em determinado momento, David questiona-o: é fácil estar ali hoje, perante o inimigo? E Marcelo dá conta do seu percurso de pacificação: o ódio visceral inicial a tudo o que fosse inglês, a insuportável consciência de que o próprio filho aprendia aquela língua na escola, o vício da cocaína que aparentava silenciar as memórias que ninguém queria ouvir, a obsessão, hoje, pelo desporto, enquanto campeão de triatlo. Uma conversa dura, cada um na sua língua, de dois homens que se matariam há trinta anos, e que agora testemunham, em conjunto, a dificuldade de elaborar o que aconteceu em prol de um texto que não dê uma resposta simplista às perguntas que pululam ao longo de todo o espetáculo: Qual o dividendo político de cada um dos países do sofrimento destes homens? Quem teve culpa? A quem pertencem as ilhas hoje?

A parte final, simulando uma luta cacofónica de conhecimento wikipédico tão em voga nos nossos dias, dá-nos a resposta possível: as Malvinas têm uma História; as Falklands têm outra. Tal como os nomes do arquipélago divergem em cada um dos países beligerantes naquela guerra, também a justiça da pertença a um ou a outro é impossível de discernir. O que Campo minado faz, porém, é algo maior que isto: mostrar o que resta de todos os soldados que combateram e que não se suicidaram. Como salienta a encenadora na conversa pós-espetáculo: não interessa a questão da soberania; a peça não é britânica nem argentina. É destes homens, que lutaram e tiveram que seguir as suas vidas. Nasceu com eles, morrerá com eles.

Por defeito profissional, Luís Pimenta Lopes escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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