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Carta Nº 2 – Quero-o Tanto

Não tinha qualquer interesse no concerto que vimos naquela noite. Já não sei se esperava vê-lo a ele, ao amigo dele, ou simplesmente conhecer o bar. Passados trinta minutos perguntava-te se querias sair, tu resististe à ideia. Insisti, não me apetecia mesmo nada ficar ali – aquele desvio para vê-lo, ou apenas aproximar-me do mundo dele, parecia agora tão ridículo. Claro que não o encontraria ali, ele nem sequer estava na cidade.
Anda, leva-me para tua casa e tira-me este homem da cabeça. Leva-me, já que tens interesse em mim e há tanto que te insinuas – embora timidamente, no teu jeito frio e defensivo. Vamos juntar a tua vontade de mim à minha vontade de alguém, alguém que me dê o prazer e o calor que tanto preciso e que aquele homem ausente me nega.
Talvez estejas nervoso com o meu discurso tão directo, a oportunidade tão repentina. Nunca expressas o que sentes, preferes ocultar-te por detrás de uma máscara de seriedade, de falsa maturidade. Quanta agitação, quanto medo existe nesses teus gestos controlados, que ficam mais lentos e tensos à medida que avançamos para tua casa, à medida que me recebes na tua cozinha fria e desconfortável, no teu quarto de adolescente desarrumado.
E enquanto procuras uma garrafa de vinho, por entre as prateleiras da despensa vazias e cheias de pó, lembro-me dos apartamentos e dos quartos dos amigos, namorados, amantes do tempo da universidade: destes apartamentos e destes quartos sem calor nem ordem, sem conforto nem cuidado. E enquanto remexes as gavetas e os armários – em gestos cada vez mais impacientes e agressivos – em busca de um saca-rolhas que afinal não existe, observo com dó como é desconfortável e triste a vida de um homem só. Como fica tão desamparado, tão abandonado na sua própria negligência… Entre deixar a casa materna e viver com outra mulher, a vida do homem é um doloroso interregno de balbúrdia, desleixo e comida ultracongelada. Pergunto-me, então, porque é que as raparigas se tornam adultas e os rapazes apenas maiores e peludos.
Procuro amolecer-te os gestos com afecto – não é afinal esta mais uma tarefa que nos coube a nós, mulheres? O vinho também ajudaria, sim, lá consegues abrir a garrafa. Mas eu já não quero saber do vinho, demorou tanto que perdi a vontade de beber, demorou tanto que eu própria fiquei impaciente e já só quero que me desejes, que me desejes tanto que o prazer que sinta ao ser assim desejada seja mais anestesiante do que esse vinho.
Mas os gestos do teu corpo nu são tão presos quanto os gestos do teu corpo vestido, e a falta de entrega e de calor desconcertam-me. Sinto raiva. Não desejo o teu corpo (será que também não desejas o meu?), não desejo beijar-te, não desejo lamber-te; por que raio me convidei para esta situação? Lá tento, lá tentamos. Fazemos tudo direito, pomos o preservativo antes de qualquer contacto, nada de sexo oral. Dura pouco, muito pouco – ejaculação precoce, pois. Claro que nunca procuraste tratamento, nunca fizeste psicoterapia – os homens fazem psicoterapia? Afinal, há outras formas de dar prazer a uma mulher – dizes. Aguardo, impaciente, mas se a alternativa passa por conversar sobre o vinho, não é coisa que me leve a mim ou qualquer outra mulher ao êxtase.
Tenho então que to pedir: acaricia-me. Abordas a minha vulva com demasiada pressão, os dedos tensos, secos, sôfregos. E dou por mim a dar instruções a um homem de meia idade sobre prazer feminino. E pergunto-me como é que um homem de meia-idade chega à meia-idade sem saber acariciar a vulva de uma mulher, sem conhecer a pressão e o ritmo adequados, a posição do clitóris.
Procuro o orgasmo – entre a raiva e o desespero que se apoderam de mim – procuro-o apesar disso e venho-me. Não posso vestir-me e sair a correr, bem sei, ainda que seja essa a minha vontade. Fico um pouco, mais do que gostaria, certamente menos do que seria expectável. Mas o peito agita-se e as lágrimas acumulam-se atrás dos olhos, e seria tão difícil explicar-te estes sentimentos agora, tão injusto descarregar em ti uma raiva que afinal não é inteiramente para ti. Sim, saio; despeço-me com um sorriso e um abraço, mas desço as escadas do teu prédio em aperto, na urgência de chegar ao carro e arrancar muito depressa, para apenas estacionar novamente uns duzentos metros à frente e chorar, autorizar finalmente o peito a libertar-se do desespero e chorar ruidosamente.
Como explicar-te que o desejo por este homem delicioso que amo é agora mais intenso, que a minha tentativa de esquecê-lo apenas resultou em mais saudade? Sim, o fracasso deste nosso encontro apenas reforça a excepcionalidade daqueles outros, tão escassos, que vivo com ele; daquele corpo voluptuoso que me deseja inteiramente e que eu desejo comer por inteiro. Como dizer-te? Quero-o tanto, a ele, a outro.

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