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César Cardoso em entrevista

O saxofonista e formador César Cardoso lançou em pleno período de confinamento o excelente álbum Dice of Tenors, em que resgata e cria novos arranjos para composições marcantes de seis gigantes do saxofone tenor (John Coltrane, Hank Mobley, Dexter Gordon, Sonny Rollins, Benny Golson e Joe Henderson) e lhes junta dois originais de grande nível, tanto harmónico como musical, num equilíbrio suave, fluído e lírico entre a complexidade da escrita e a interpretação acessível a todos os ouvidos. Para este feito, juntou um ensemble internacional de oito elementos, que dividiu em metades iguais para os metais e a secção rítimica, todos de qualidade e entrosamento audíveis desde as primeiras notas. São eles: César Cardoso no saxofone tenor sax e nos arranjos, Jason Palmer no trompete, Miguel Zenón no saxofone alto, Massimo Morganti no trombone, Jeffery Davis no vibrafone, Óscar Graça no piano, Demian Cabaud no contrabaixo e Marcos Cavaleiro na bateria. Um álbum ambicioso e que atinge com distinção o seu desiderato de homenagem e de colocar os clássicos ao serviço de voos mais arriscados, como todo o bom jazz é capaz de fazer. Felizmente este leva a nossa bandeira.
Conversamos com o músico, com quem trocamos as ideias aqui transcritas.

Revista INTRO (RI): Um dado de saxofones tenores, seis faces bem distintas: John Coltrane, Hank Mobley, Dexter Gordon, Sonny Rollins, Benny Golson e Joe Henderson. Qual o critério para a escolha? Alguma ordem de importância, como os valores de 1 a 6 dos dados?
César Cardoso (CC): A escolha não foi fácil, até porque existem muitos mais saxofonistas tenores que me influenciaram, mas reduzi para 6, talvez os mais importantes, e também por limitações de duração do disco, uma vez que pretendia compor 2 originais para o disco.

RI: De onde chega a paixão pelo saxofone? Qual o primeiro solo que te fascinou e porquê?
CC: Destes todos que escolhi, o primeiro solo que me fascinou foi o do Hank Mobley no Remember e por isso quis que partes do solo estivessem presentes no arranjo. Este foi o meu primeiro disco de jazz e que me marcou incontornavelmente. O saxofone começou por ser uma “imposição”, quando comecei a estudar, ainda com 7 anos, na banda filarmónica local eles atribuem o instrumento de acordo com as necessidades do momento, mas rapidamente me identifiquei com o instrumento, foi uma ótima escolha.

RI: No ensino do Jazz, para além da teoria, há algo mais que se possa ensinar?
CC: Acho que sim, ensinamos os alunos a procurarem o seu caminho mas tendo por base a linguagem com muitos anos de história, seja ela técnica, teórica ou rítmica.

RI: Quanto à criação e interpretação no Jazz: já tudo foi descoberto ou ainda há áreas por explorar? Qual o futuro desta arte?
CC: É uma boa questão, e cada pessoa tem a sua ideia visão. A meu ver já foi tudo inventado, os elementos importantes estão já todos presentes, o que torna a música nova é a combinação de diferentes elementos e naturalmente todas as influências presentes em quem compõe mas os elementos já foram inventados há muitos anos atrás, é a minha opinião.

RI: O jazz português tem personalidade? Quais os traços que o identificam?
CC: Penso que há uns anos atrás o Jazz Português tinha uma personalidade muito própria, era reconhecível facilmente, seja pela estética da música, pelo tipo de som da gravação, etc. Hoje em dia penso que é mais difícil de verificar isto, até porque muitos músicos já estudaram fora de Portugal, gravam com músicos estrangeiros, e com toda este influência naturalmente a música tende a mudar um pouco, com novos estúdios e técnicos mais especializados, tornar-se mais próximo daquilo que estamos habituados a ouvir como “estrangeiro”.

RI: Quais os pioneiros do Jazz em 2020?
CC: Esta pergunta é um pouco difícil de responder, os pioneiros serão sempre os primeiros a inventar este estilo musical, em 2020 não há nenhum pioneiro a meu ver, há muitos novos e bons músicos, isso sim, sem dúvida.

RI: para quem não conhece o Jazz e quer conhecer, por onde começar?
CC: O ideal é começar pelo princípio, ouvir os clássicos, desde o Louis Armstrong, ao Duke Ellington, Cout Basie, Charlie Parker, Miles Davis, Sonny Rollins, John Coltrane entre muitos outros. É muito importante ter um conhecimento aprofundado de como surgiu o Jazz para depois poder levar a outros caminhos e outras influências.

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