home LP, MÚSICA Chavela (2017) – Catherine Gund e Dareshi Kyi

Chavela (2017) – Catherine Gund e Dareshi Kyi

Nascida Isabel Vargas Lizano na Costa Rica, em 1919, Chavela Vargas, cujo biopic estreou ontem nas salas nacionais, era uma criança solitária e mal-amada, cujos modos de maria-rapaz eram um embaraço para os seus pais conservadores. A Era Dourada do Cinema Mexicano atraiu-a para o seu país adoptivo, tendo fugido ainda adolescente para a Cidade do México para cantar nas ruas. Mais tarde, acabaria por se tornar uma cantora profissional, popularizando muitas músicas de Jose Alfredo Jimenez, compostas para serem interpretadas por homens.

O documentário é de Catherine Gund, co-realizado por Dareshi Kyi. O material central, uma extensa entrevista com Chavela, que serve como espinha dorsal do filme — filmada por Gund no início dos anos 90 no México e recuperada após a morte da cantora em 2012, aos 93 anos, é enriquecido com imagens e fotografias de arquivo, bem como entrevistas a fãs, amigos, amantes e admiradores. Embora bastante convencional na montagem, os intervenientes são filmados em espaços caseiros, como na cozinha ou na sala de estar, cercados por comida, livros, vinis, obras de arte e lembranças, resultando num ambiente familiar e descontraído.

Apesar de pouco se falar desta “ranchera”, Chavela Vargas era um espírito livre, sôfrega por tequila e mulheres; uma forma de estar que se tornou tão lendária quanto a sua voz: torturada e com uma intensa carga emocional.

Por volta de 1950, conquistou popularidade no seu país adoptivo, com as suas actuações cruamente apaixonantes e a sua voz única. Mais do que pelo seu contributo cultural, Chavela viria a ser reconhecida pelo arrojo, insubmissão e pela quantidade estonteante de amantes femininas que teve. A própria, juntamente com outros testemunhos, admite ter fugido com Ava Gardner no casamento de Elizabeth Taylor com Mike Todd em Acapulco, e também sugere uma intensa ligação com Frida Kahlo, ilustrada em algumas fotos fabulosas. Há ainda referências pouco exploradas sobre a sua propensão para a violência e o seu gosto pelas armas. Dito isto, é incontornável dizer que a sua vida foi tão intensa quanto a sua música.

«Chavela» centra-se numa entrevista datada de 1991, a primeira aparição em público da cantora após 15 anos perdidos para o alcoolismo e vários desamores. Perto do fim da vida, aos 81 anos, assume-se abertamente como lésbica e alcança o auge da sua carreira, ja transformada em musa de Almodóvar. Foi distinguida em 2007 com um Grammy, pelos seus 50 anos de carreira e começou a actuar em prestigiadas salas em todo o mundo.

Chavela Vargas destruiu o estereótipo da “senhorita”, com o seu visual andrógino de ponchos sobre calças. «Vestida como uma mulher, parecia um travesti», diz a própria a dada altura. Mas assim que vincou o seu estilo pessoal, a sua fama cresceu. Com o cabelo meticulosamente apanhado a terminar numa trança, sem maquilhagem, e sempre vestida de homem, começou a cantar com emoção a dor, a solidão e os amores perdidos, transmitindo em cada concerto que tinha sido literalmente dilacerada.

À medida que se popularizava, Chavela começou a conviver com muitos músicos itinerantes, esvaziando garrafas de tequila, umas após outras, em sessões barulhentas que duravam vários dias ininterruptos em bares boémios. «Ela tinha que ser mais forte, mais macho que os machos, e mais bêbada que todos os outros cantores», comenta um dos intervenientes. Numa sociedade homofóbica, misógina e patriarcal, tornou-se numa fora da lei sexual.

Porém, no meio de tanta euforia, também houve momentos sombrios. Chegou a estar desaparecida dos holofotes durante mais de uma década, período em que, na década de 1980, impregnada numa névoa de alcoolismo, foi “resgatada” por uma família indígena xamanista, que a ajudou a recuperar. Já com 70 anos, teve então um notável retorno ao estrelato, em Espanha, quando Almodóvar a apresentou a um público mais amplo, e subiu aos grandes palcos, entre eles Carnegie Hall, Olympia e o Palácio das Belas Artes, na Cidade do México. As filmagens desses últimos concertos tornam-se cada vez mais emotivos, na medida em que o espectador vai testemunhando a deterioração de Chavela, ao ponto de se perceber que o último desejo da cantora era morrer em palco.

«Chavela vivia num estado contínuo de despedida», diz Almodóvar, descrevendo a sua fome de continuar a apresentar-se ao vivo, até ao fim.

 

CHAVELA 

Realização: Catherine Gund, Daresha Kyi

Participações: Pedro Almodóvar, Elena Benarroch, Miguel Bosé, Liliana Felipe, Laura García-Lorca

Ano: 2017

Género: Documentário

Duração: 93 minutos

M/12

Estreia: 5 de Abril de 2018

 

Texto de Sandra Gonçalves

Mais textos sobre Música e musas AQUI

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *