home Didascálias, TEATRO Cock – Instituto Superior Técnico, 16/09/2017

Cock – Instituto Superior Técnico, 16/09/2017

Mike Bartlett, aos 36 anos, é um reputado dramaturgo britânico. No Royal Court Theatre, onde foi escritor residente, encenou os seus três primeiros sucessos: “My child” (2007), “Contrações” (2008) e “Cock” (2009), premiada com o prémio Lawrence Olivier.

A peça “Cock“, levada à cena pelo Teatro do Vão, no Instituto Superior Técnico, e encenada por Daniel Gorjão, estreou este mês em Lisboa. Trata-se de um triângulo amoroso: um casal homossexual atravessa uma crise, na sequência de um dos seus elementos se apaixonar por uma mulher.

O palco parece uma nave espacial ou um videoclipe dos anos 80, forrado a prateado ou dourado, ficamos na incerteza, comandados que somos pelas luzes, com três cadeiras ao fundo, que são de cena e fora de cena e marcam a mudança de roupa e de adereços dos atores. Entramos e é esse palco brilhante e três corpos inicialmente nus, de costas, que encontramos.

As marcações dos atores apontam para um jogo de improvisação, colado e cosido vezes sem conta, que nem sempre parece introduzir fluidez. Os avanços e recuos no tempo da peça, as dúvidas e os dilemas permitem entropias. Por vezes, tudo parece bizarro, mas o que incomoda é que, tantas vezes, tudo parece, inevitavelmente, artificial.

A peça gravita em torno da intensidade do texto, nem sempre devidamente saboreado pelos atores que, dir-se-ia, devorados por aquela vertigem, não resistem a abusar na demonstração (e aqui reside o problema) de intensidade, sem nos darem os silêncios de que vivem as relações, as pausas de que vive o teatro.

Em certos momentos, quase etéreos, as personagens dançam e parecemos assistir a um videoclipe, ou, sem grande esforço de transposição, a visionar um filme do cineasta canadiano Xavier Dolan.

Estamos sempre na fronteira entre a histeria e o vazio.

E é desse ritmo anacrónico, muito gritado pelo ator que nos mostra a personagem traída sempre em sobressalto, e sentimo-lo bem, (e que bom que é), sem que, contudo, possamos desfrutar da dor guardada, da palavra não dita, da raiva não vociferada, da mágoa, que vos fala… E na palavra é intenso, ainda que o afetado sotaque lisboeta pareça mais importante que expurgar a palavra do que não lhe pertence. O companheiro, pelo contrário, sempre morno, entre hesitações de identidade e balanços sentimentais, nunca nos convence e parece-nos sempre sem entrega, nem ao amor do companheiro, nem ao público, mas, ainda assim, um pouco mais apaixonado pela personagem feminina. A atriz traz-nos um novo ritmo, mais envolvido com as pausas, mais consentâneo com os silêncios e, portanto, mais rico do ponto de vista da textura da personagem e da sua credibilidade.

E lamentamos que, ainda que sempre absorvidos pelo texto, agarrados ao encontro, tenso e intenso, entre os três, ao dilema de identidade que vence estigmas do masculino feminino, de orientação sexual, de categorias, de vontades, por vezes nos falte sentir mais amor, mais paixão, maior profundidade nos afetos. Sentimo-nos sempre próximos do texto, da ironia, da mordacidade e, sobretudo, do dilema entre a relação desgastada, amorfa e a novidade de uma paixão nova, do mundo de oportunidades. Balançamos e reconhecemo-nos da dúvida entre o que pode ser e a certeza do que já existe, e o que já existe pode ser tanto, mas o tanto pode parecer tão pouco, perante o muito que se pode ter… E o muito, esse muito (que pode ser), e se afinal for tão pouco, o que fazemos com o tanto que perdemos? E esse medo do desconhecido que comanda ações e recuos? Está tudo lá.

Não há motivo para enfado. Mesmo quando a interpretação nos desaponta ou a encenação não surpreende, nunca deixa de ser uma peça fresca e arejada, quase revigorante… Não há forma de nos desconectarmos dos diálogos, tão reais, tão empáticos e, ao mesmo tempo, disruptivos de tão crus, que valem a visita.

Saímos a revisitar o texto, frases, momentos, ironias, e, sobretudo, a nossa vida.

A peça termina ao som de St. Vincent, cantora americana que, em 2012, lançara um álbum com o incontornável David Byrne e que combina rock experimental, pop e influências jazz. Ouve-se”new love/wasn’t true love/back to you love/so much for a home run/with some blue bloods”.

Fica o refrão: “I’ve lost a hero/i’ve lost a friend/but for you, darling/i’d do it all again”…

Cock está em cena até ao dia 1 de Outubro.

Para mais crítica de Teatro, leiam AQUI.

Joana Neto, por defeito profissional, escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Foto ©DireitosReservados

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