home Antologia, LITERATURA D. Maria I – Mary del Priore (Casa das Letras, 2020)

D. Maria I – Mary del Priore (Casa das Letras, 2020)

D. Maria I, da autoria de Mary del Priore, antes de ser uma biografia, ou paralelamente a sê-lo, é um estudo histórico e uma panorâmica dos anos que antecedem a ascenção ao trono da primeira rainha a governar como soberana de pleno direito em Portugal – e só mais uma monarca estaria, de novo, nas mesmas circunstâncias, como se sabe: a sua bisneta, D. Maria II. Ao traçar os factos fundamentais da vida de D. Maria I, a historiadora de origem brasileira compendia o conjunto de acontecimentos centrais de três reinados da História de Portugal: o de D. João V – que ainda reinava, quando D. Maria nasceu –, D. José, que sucedeu ao pai, e, naturalmente, o da biografada.
O livro de Del Priore é um estudo minucioso mas acessível, que abarca um amplo conjunto de informações, mas que se reúnem e coordenam de modo harmonioso. O pormenor quotidiano alia-se às grandes panorâmicas; a ambiência física convive com a auscultação da individualidade dos intervenientes, muito em particular de D. Maria. A Família Real surge diante do leitor espartilhada num apertadíssimo código de conduta, que prescrevia a correcção e acerto de cada passo da vida, desde o que deveria ser o singelo dia-a-dia das crianças, mas era qualquer coisa de bem diferente – «A educação corrigia tudo o que fosse vivacidade, movimento natural, gosto da infância. Reprimia o carácter e continha o corpo.» (p.25) –, passando por uma enorme variedade de cerimoniais religiosos e da vida de corte. Portugal, como um todo, é descrito como um país que vive sob a tutela irreprimível da Igreja. É um reino de excessos, de devoções que condicionam e reprimem. Não se trataria bem de fé, ou simplesmente de crença, mas de superstição e medo organizados sob a esquadria implacável de uma «religião de Estado».
O retrato feito por Mary del Priore no seu D. Maria I está bem longe de ser um quadro idealizado. Nem mesmo se disfarçam os aspectos menos aprazíveis, no tratamento da personagem da Rainha – «ao casar-se, aos 26 anos, Maria era moça de pouca beleza. Tinha olhos pequenos e nariz grande, mas nem por iso deixava de impressionar pela delicadeza, amabilidade e cortesia» (p.63). Pelo contrário, a apresentação da monarca é feita de forma integral e abrangente. As dimensões concretas, mesmo as mais comezinhas – «a verdadeira paixão de Maria era o chocolate, produto exótico e de elite» (p.106) –, não ficam de fora do relato. Quando, por exemplo, morre o seu marido – o Rei consorte D. Pedro III –, D. Maria I oculta esse doloroso facto da filha, D. Mariana Vitória, que então se encontrava grávida, e que vivia na corte espanhola, por ter casado com o Infante Gabriel de Bourbon, filho do Rei espanhol Carlos III. A morte do Rei consorte de Portugal só viria a ser comunicada à princesa depois de esta ter sido mãe. São episódios da vida da protagonista desta biografia que auxiliam a composição da imagem da Rainha.

D. Maria I, enquanto objecto de estudo e figura histórica, não é uma realidade estática, mas uma construção dinâmica. Mary del Priore desenha o carácter e o comportamento da monarca dividida entre dualidades. D. Maria viveria permanentemente de acordo com um «pêndulo entre pecado e culpa» (p.19), e a sua acção como rainha dar-se-ia num constante «jogo entre clemência e terror» (p.88). Se, de um lado, se mostrava piedosa, não deixou de castigar os desobedientes ao poder real, como os que se rebelaram nas potências imperiais do Reino, como o Brasil, ou a Índia. Num resumo certeiro, escreve a historiadora: «A sua vida começou a oscilar entre momentos de alegria e tristeza. Maria tentava unir a humanidade da penitente com a dignidade de rainha.» (p.153)
A evolução da figura de D. Maria I espelha o avançar histórico do país, desde o auge da monarquia absolutista até ao seu declínio e, por fim, a nação é atravessado pelo complexo de fenómenos que levariam à transição para o regime liberal. A autora, como é natural – e como se pode perceber desde o subtítulo do seu livro: «As Perdas e as Glórias da Rainha Que Entrou para a História como “a Louca”» –, não deixa passar em claro o infeliz ocaso da Rainha. De acordo com Del Priore, a mentalidade dominante sempre conspirara contra esta monarca, que chegou a ser assaz popular, mas que, no fundo, teria sido um desvio apenas tolerado à prevalência masculina. Foi assim que, por meio de «um golpe palaciano» (p.165), o filho de D. Maria, D. João – futuro D. João VI –, assumirá a posição de regente, em substituição da mãe. Ainda de acordo com a autora, a alegada loucura da Rainha terá germinado na sua mente depois do seu afastamento do trono e subsequente enclausuramento. Fosse como fosse, o facto é que D. Maria I se encaminhava, a passos largos, «para um mundo fechado e triste» (p.173). O desfecho teve as cores carregadas de um exílio forçado. Antes que das Invasões Francesas, como se sabe, a Família Real partiu para o Brasil. No Convento do Carmo, na cidade do Rio de Janeiro, passou a Rainha deposta os seus últimos oito anos de vida. Mary del Priore dá conta de um fim de vida assaz discreto, pouco documentado, quase desconhecido. Os momentos derradeiros são um descer de pano sem estrondo, nem tragédia – «Deixou o mundo como quem deixa um salão animado, sem nada interromper.» (p.204). Com o falecimento de D. Maria I, sobe ao trono o seu sucessor, D. João VI, o último Rei antes da revolução liberal e da implantação do novo regime político.
Num livro cuidado, como este é, talvez não tivesse sido má ideia adaptar alguns pormenores ortográficos que, em português do Brasil (a autora é brasileira), fazem todo o sentido, e são mesmo de norma; mas que, pelo contrário, são desvios da regra entre nós. Por exemplo, em «o murmurinho alimentado pelo ministro» (p.59), não deveria estar «burburinho»? Onde e lê: «Eis porquê, antes de deixar este mundo, escreveu à filha» (p.69), era «porque» o que devia surgir, sem dúvida nenhuma. E o uso do apóstrofo em «falta d’água» (p.197) é totalmente anómalo no português europeu. Certamente, um autor português editado no Brasil teria o seu texto adaptado. Veja-se, por exemplo, o caso das traduções de Frederico Lourenço, que, reeditadas no Brasil, como é natural, se submetem às normas do português do Brasil. Por exemplo: «Os campônios fugiram por toda a parte.» (Ilíada, Canto XI, 676, trad. Frederico Lourenço, p.290, Penguin/Companhia das Letras, 2009), em vez de «Os campónios». O mesmo trabalho de adaptação deveria ter sido feito neste livro.

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