home Antologia, LITERATURA Discurso sobre as Ciências… – Jean-Jacques Rousseau (Edições 70, 2019)

Discurso sobre as Ciências… – Jean-Jacques Rousseau (Edições 70, 2019)

Devemos não só a Rousseau, que o escreveu, mas também a Diderot, que (entre outras boas acções) o aconselhou, o Discurso sobre as Ciências e as Artes. Esta génese, quase bifronte, praticamente partihada, é uma oportunidade para saudar e para lamentar. Saúde-se, então, o aparecimento de um livro de Jean-Jacques Rousseau publicado entre nós – uma edição que inclui uma secção de Cartas sobre a Polémica. A polémica, seja dito, não é, neste contexto, uma entidade abstracta e ideal a que pudéssemos rezar, ou de que devêssemos fugir – conforme as inclinações de cada qual. Trata-se antes da controvérsia gerada pela obra que titula esta novidade editorial. Mas lamente-se, ainda assim, que, não sendo Jean-Jacques Rousseau, nem Denis Diderot, perfeitos desconhecidos da edição portuguesa, nenhum deles tem propriamente um acervo digno da sua importância nos catálogos nacionais. Se a busca se cingir a títulos facilmente alcançáveis e não esgotados, o caso é, claramente, ainda menos animador. Ambos os autores são dos que forjaram a modernidade antes de ela sequer se insinuar como possibilidade no horizonte opressivo do Antigo Regime. Antecipadores, ambos, da Revolução Francesa; precursores, sobretudo Rousseau, do romantismo – qualquer deles merecia maior atenção. Que neste momento tenhamos esta, eis o que se deve ressalvar, desde já, sem equívocos.

Entre outros pontos de interesse e apelo, Rousseau é uma figura humana e cultural que tem exercido um fascínio perene no imaginário histórico e estético do mundo ocidental. O autor das Memórias é, em si mesmo, merecedor do maior interesse, e bem o comprovam, entre outras, algumas biografias mais ou menos recentes, como aquela, em três impressionantes volumes, que lhe dedicou Maurice Cranston. (O mesmo se diga, ainda, de Diderot, de quem há, inclusive, uma biografia com o sugestivo título The Irresistible Diderot). Por exemplo, como nos lembra o prefácio de Roberto Aramayo, «Rousseau considerou[-se] músico até aos quarenta anos» (p.8). Um facto que se pode dizer tanto mais interessante e revelador, quanto o autor é hoje lembrado (quando é), sobretudo, enquanto pensador, memorialista e romancista.

No ano de 1749, Rousseau peparava-se para concorrer a um prémio lançado pela Academia de Dijon, destinado a um discurso a submeter àquela instituição, e que tinha por repto a pergunta: «São as artes e as ciências prejudiciais ou benéficas às sociedades?» O autor ficou, desde logo, a dever ao aconselhamento arguto do seu amigo Diderot fazer arrancar o seu Discurso com um «elogio da ignorância citando Sócrates» (p.12). Sempre segundo Aramayo, «a tradução da passagem da Apologia de Sócrates que Rousseau usa deve-se muito provavelmente a Diderot, uma vez que este a estava a traduzir, talvez de memória, com o fito de amenizar o seu cativeiro» (p.12). De acordo com o mesmo Aramayo, que tem a boa ideia de não escamotear que Rousseau omite estes ‘pequenos factos’ dos seus próprios escritos, resta-nos chegar até essas informações através de portas mais ou menos travessas. Nomeadamente, a Refutação de Helvétius de Diderot, na qual este escreve, muito claramente: «“Não há que titubear” – disse-lhe [Diderot fala a Rousseau]. “Tomareis o partido que ninguém tomará.”» (id.) (a grafia poderia [deveria] ter sido Helvécio, fórmula consagrada em português; paralelamente, ars poetica [p.25] escreve-se sem acento no «e», pelo singelo facto de que em latim não havia acentos…) Quer isto dizer que a base do Discurso sobre as Ciências e as Artes – ou seja, a questionação do valor do saber científico e da actividade artística – se deve, na verdade, a Diderot. Não vem agora ao caso rebuscar mexericos com séculos de existência, mas apenas o interesse de sublinhar uma colaboração de grande acuidade entre dois génios universais – ainda que um deles fosse tão pouco amigo de revelar as suas fontes e as ajudas de custo da amizade e do convívio intelectual.

Exagerando tudo, porventura com estudada modéstia, Rousseau chamou ao Discurso, «de quantas [obras] saíram da minha pena (…) a mais débil no que diz respeito ao raciocínio e a mais pobre em matéria de harmonia» (p.12). Por certo que não lhe faltará harmonia (era o que mais faltava), nem haverá nela debilidade que a abale irremediavelmente (seria absurdo sugeri-lo); no entanto, o paradoxo que percorre todo o escrito é comparável (passe a analogia arrevesada) ao contra-senso que marca a poesia de Alberto Caeiro. Esta, com o propósito de promover um dizer raso e ausente de artifícios, cria alguns dos versos mais enganadoramente simples da tradição portuguesa. Quanto mais o poema tenta repudiar os recursos do estilo, mais os refina, até eles formarem uma espécie de forro invisível a olho nu – mas que nem por sombras deixa de lá estar. O mesmo sucede neste escrito de Rousseau. Quanto mais o autor se esforça por assumir a posição do «homem honesto que nada sabe e que não se estima menos por isso» (p.25), tanto maior se mostra a amplitude dos seus conhecimentos, a força da sua retórica, o arcaboiço e a elegância da sua argumentação. Uma das supremas ironias deste projecto concentra-se numa das frases com que se concluem as Cartas sobre a Polémica: «Procurei erguer um monumento que não devesse à arte a sua força e solidez.» (p.136). O que é, em si mesmo, um artefacto retórico, além de uma alusão ao «momunento mais duradouro que o bronze» que Horácio se gabava de ter erigido com as suas Odes. De resto, já em pleno Discurso, o próprio Rousseau afirma aquilo que é, no fundo, uma inevitabilidade, perante a elaboração de um discurso (mesmo que este se proponha questionar, e mesmo refutar, a validade das ciências e das artes) – «A necessidade fundou os reinos, as ciências e as artes reforçaram-nos.» (p.29) Por conseguinte, as artes e as ciências tiveram, algures, um papel não apenas de «preenchimento», mas de continuidade para os alicerces mais sérios e legítimos. Contudo, não é preciso avançar muito na leitura para se perceber como Rousseau pretende, e não sem urgência, sabotar este pressuposto lógico e inescapável, que é o da bondade e premência da ciência e das artes – «Os males causados pela nossa vã curiosidade são tão antigos quanto o mundo.» (p.31); «os vícios, conduzidos pelas belas-artes» (p.34); (p.41) É todo um edifício (para retomar a imagem do próprio Rousseau), um edifício de retórica, que se ergue para exterminar males como… a retórica.

Ao procurar, para o seu Discurso, materiais e peças que sustentem a sua construção, Rousseau atinge um resultado especialmente interessante – mas que, como é óbvio, é totalmente alheio aos seus projectos. Uma das suas estratégias consiste em repescar argumentos que concorram para uma certa ideia de moralidade que inviabilize e torne injustificáveis as ciências e as artes. Ao fazê-lo, porém, não podia, naturalmente, adivinhar como as suas palavras viriam a obter uma ressonância tão poderosa na nossa actualidade (e em tempos não tão actuais) – «Os antigos políticos falavam incessantemente de costumes e de virtude; os nossos não falam senão de comércio e de dinheiro.» (p.46) Rousseau nunca poderia ter adivinhado que, em pleno século XXI, tantos estariam a discutir a nefasta proximidade entre política finança, ou o quanto é indistinto um gestor de um estadista. Mas o facto é que – como costuma suceder aos clássicos – uma dos vectores da sua intemporalidade é, precisamente, esse. Em última análise – e aí, por instantes, se suspendem, até ver, a actualidade e a premência desta obra –, uma das principais técnicas de Rousseau consiste em fazer sobressair a grandeza incalculável da moralidade, de modo a subalternizar e ridicularizar a actividade científico-cultural – «Ó virtude, ciência sublime de almas simples, serão necessáriastantas fadigas e tanto aparato para te conhecer?» (p.57) Conforme já se disse, é quase o exacto oposto disso, aquilo que obtém. E não nos custa imaginar que fosse, precisamente, esse um dos seus objectivos.

As Cartas sobre a Polémica, mais do que aduzirem elementos novos ou distintos, corroboram, repisam e reformulam a questão magna do Discurso. Com mais ou menos requintes de malvadez, na defesa do, realmente, indefensável, Rousseau esgrime a sua retórica impecável, brande sem piedade toda a sua arte e toda a sua ciência, para censurar tudo aquilo que de mau existe nas artes e nas ciências – «critico sobretudo o estudo das nossas ciências» (p.75); «com um pouco de trabalho tem[-se] a certeza de fazer pão; mas com muito estudo é bastante duvidoso que se consiga fazer um homem sensato» (p.99)

O Discurso sobre as Ciências e as Artes cria uma defesa aparentemente involuntária do saber e da criatividade. Ao censurar a ganância, a vaidade e o orgulho causados pela ciência e pela arte, Jean-Jacques Rousseau assinou uma das defesas mais subtis e impressivas da importância do que se propôs censurar.

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