home Didascálias, TEATRO Drama – Teatro São Luiz, 16/03/2019

Drama – Teatro São Luiz, 16/03/2019

Em DramaVictor Hugo Pontes transforma as Seis Personagens à Procura de um Autor, de Luigi Pirandello, oferecendo nova vida a esta obra dos anos vinte. Estas seis personagens exprimem-se agora não por palavras mas com o todo o seu corpo, através da sua presença e movimento.
Victor Hugo Pontes dá assim continuidade à sua pesquisa sobre a fronteira entre o teatro e a dança, a palavra e o movimento, e cria uma linguagem de poesia-cinética que estimula os sentidos de quem está no palco e fora dele.
A trama é objectiva, o seu conteúdo imenso: um ensaio de uma companhia de teatro é invadido por seis personagens que, depois de interromperem o seu trabalho, tentam convencer o director da companhia a encenar as suas próprias vidas. Estes seis são uma família em luto pela sua própria condição. Aparecem com rostos esmorecidos e como que vindos de um limbo onde reina a agonia. No início, o director fica perturbado por receber tal visita. Porém, aos poucos, começa a interessar-se pela situação, e eventualmente vive-se o drama (ou, melhor dizendo, um conjunto de dramas).
Encontramos em Drama uma peça de teatro dentro de outra e, curiosamente, da interacção entre a família dos seis e os actores da companhia, apercebemo-nos de algumas realidades que nos fazem reflectir sobre a própria forma como encaramos a vida. Ora, todas as personagens, embora máscaras, são imortais e eternas, na medida que sobrevivem aos seus autores e actores. Contudo precisam de ser criadas e não existem sem que preexistam actores para as personificar. A isto acresce que cada personagem vive alheia a uma potencial autonomia plena do próprio contexto em que, e para que, foi criada. As personagens que conhecemos em Drama buscam ardentemente um sentido para a sua existência, enquanto que os actores representam a própria vida humana. No fundo, esta bem poderá ser uma história que representa o drama da perda da consciência da existência humana, das máscaras que colocamos no dia-a-dia e da forma como estas se relacionam com quem realmente somos.
Enquanto que qualquer personagem vê todos os seus traços e conflitos previamente definidos, o ser humano é uma entidade em constante transformação e evolução. Se por um lado a personagem permanece pronta e acabada, o Homem permanece indefinido e inacabado.

A cenografia esteve excelente, pelo que F. Ribeiro merece a nossa atenção. Contrariamente, a equipa de o som poderia ter feito justiça à sala do antigo teatro D. Amélia e a Joana Gama, isto porque os níveis de decibéis variavam entre o aceitável e o exageradamente ruidoso.
Joana Gama, excelente pianista nacional que acompanha a peça, infelizmente terá caído numa toada excessivamente experimental, o que nos impossibilitou de apreciar em pleno a sua técnica e talento.
Os interpretes foram Ángela Diaz Quintela, Daniela Cruz, Dinis Santos, Félix Lozano, Pedro Frias, Valter Fernandes, Vera Santos e um conjunto de intervenientes que participou nas acções de formação que antecederam a peça de teatro, todos com excelentes prestações. A interacção com as diferentes comunidades por onde passa esta peça e a integração de potenciais espectadores revela também o espírito inovador de Victor Hugo Pontes.
O estilo de cada personagem mostrou-se distinto e os vários elementos de cada família destacavam-se a nível individual e no seu respectivo colectivo, graças ao excelente trabalho da equipa composta por Emília Pontes, Domingos Freitas Pereira e Mário Ribeiro, encarregues pela confecção de figurinos. Relembramos também Cristina Cunha que seleccionou e trabalhou com os figurinos.
Com tudo de bom que esta peça e equipa consegue reunir, não podemos evitar um reparo: não se entende a tendência populista e básica para explorar, mais uma vez, de forma desordenada, o tema da sexualidade e uma sub-espécie de erotismo numa peça de arte, muito menos com crianças em palco e na plateia.

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Foto © Estelle Valente

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