home Antologia, LITERATURA Entrevista a Pedro Vieira – 19/03/2019

Entrevista a Pedro Vieira – 19/03/2019

Pedro Vieira (n. 1975) publicou no passado mês de Fevereiro o seu terceiro romance Maré Alta (Companhia das Letras), uma obra de fôlego, que procura retratar o Portugal do século passado por via das suas personagens anónimas, os “figurantes” que ficam de fora dos livros de História, mas que traz consistentemente para a ribalta na sua escrita.

INTRO: O que o levou a tentar o clássico romance de formação e cruzá-lo a história contemporânea portuguesa?
PEDRO: Em primeiro lugar, quis fazer uma coisa diferente do que já tinha feito. Tinha publicado dois romances focados na época contemporânea, embora não tivessem referência a uma data específica. Agora quis experimentar se conseguia fazer algo com outro fôlego, um retrato do século XX português, também pessoal, e que se passasse por uma série de episódios dos quais eu queria falar em literatura. Daí a necessidade de ir quase até ao início do século e trazê-lo quase até os nossos dias, deixando estes anos recentes de fora.
INTRO: Era uma lacuna que queria colmatar naquilo que tinha escrito ou antes uma lacuna na literatura portuguesa?
PEDRO:Tem mais a ver comigo. Queria fazer uma coisa diferente e queria desafiar-me também, de alguma maneira. Por outro lado, deste ponto de vista, pela menos da forma como resolvi contar a história, acho que também não há muita abundância na literatura portuguesa, pelo menos daquilo que eu conheço. Há alguns exemplos que se aproximam. Há um livro de Inês Pedrosa por exemplo, que, se não me engano, se passa em três momentos diferentes da história do século XX, três mulheres, mas há outros com alguma abrangência temporal, como o “Sinais de fogo” [de Jorge de Sena]. De facto achei que poderia ser interessante contar esta história do ponto de vista que eu costumo utilizar, das pessoas e das classes de que eu costumo falar…
INTRO: Do cidadão comum. Mas o marco distintivo é a amplitude temporal.
PEDRO: Sim, sim. Porque em termos de ângulo não há assim tanta diferença. Quis fazer algo com um arco temporal maior e que me permitisse falar de outras coisas também.
INTRO: Aqui a linguagem das personagens, principalmente nos seus primeiros capítulos, era um português bem diferente, mais simples, mais popular, mais local. Como é que o Pedro trabalhou nesse registo?

PEDRO: Foi um esforço consciente e necessário. Nunca se sabe se resultou, isso os leitores o dirão. Mas tentei ter algum cuidado nesse aspecto. Tentar pôr-me no lugar dessas pessoas de alguma maneira, sabendo que não poderia usar a oralidade do século XXI, algo que já fiz e até carreguei bastante nesse aspecto, por achar que a coloquialidade também faz parte do discurso literário. Aqui tentei pôr-me um bocadinho nesse lugar e recuperar inclusive uma série de palavras, sentidos, expressões, que precisavam ser pesquisadas e recuperadas, até por achar graça a que as palavras não se extingam. Às vezes o nosso léxico é mais curto do que o desejável. Foi quase um trabalho de garimpagem andar à procura desse universo e dessas palavras.
INTRO: Uma arqueologia.
PEDRO: Uma maneira de tornar mais plausíveis essas personagens que já teriam vivido há mais tempo.

INTRO: As mudanças de nome das personagens principais acompanham as sucessivas mudanças de identidade do próprio país ao longo do livro. São mentiras e farsas para as personagens lidarem com a realidade? Será essa a visão de Portugal pretendida em Maré Alta? É preciso criarmos aqui alguma construção falsa para nos ajudar a lidar com a realidade?
PEDRO: Talvez não. Nesse aspecto acho que é mais uma forma de [as personagens] lidarem consigo próprias e com as pessoas também. Como diria um famoso autor, o homem é ele próprio e as suas circunstâncias. As pessoas mudam também consoante as suas circunstâncias. Mas seria mais uma tentativa de reflectir a forma como às vezes não nos sentimos bem na nossa pele. Temos de fazer um corte.
INTRO: Eu achei muita graça ao que li numa entrevista sua, em que dizia que as pessoas que mudam de nome mudam de moral. Não é assim tão fácil…
PEDRO: O ambiente em que se vive ou essa mudança de circunstância pode empurrar-nos noutra direcção. E acho que isso é natural, porque nós somos uma daquelas espécies que se adaptam a tudo, por vontade ou por necessidade. De alguma maneira, com algumas das figuras do livro, acabou por acontecer e quis reflectir sobre isso.
INTRO: A ilusão da mudança sempre fui guiando as grandes e as pequenas revoluções, a vontade de mudança e se calhar alguma ilusão de que se poderia mudar mais do que aquilo que se conseguiu. O Pedro diria que ainda há utopias na realidade portuguesa?
PEDRO: Sim, acho que sim, mesmo que não estejam escritas, que não haja uma cartilha para seguir. E não acho que seja uma coisa só eminentemente portuguesa. Acho que faz parte da natureza humana essa insatisfação permanente e achar que somos sempre incompletos de alguma forma. O que não quer dizer que seja no bom sentido, porque às vezes há grandes saltos utópicos que nos levam ao abismo. Mas essa necessidade nós temos sempre, e acho que vamos ter sempre.
INTRO: Uma frase na sinopse do livro chamou-me a atenção: “Num romance sem heróis, onde todos lutam, sobrevivem e morrem a tentar ser livres…” Que liberdade é essa Pedro?
PEDRO: Liberdade no sentido político claro. E Portugal atravessou um período bastante negro no século XX de falta de liberdade. Mas também é no sentido pessoal de escolhas, de caminhos. Pode não ter a ver com o regime em que se vive, mas sabermos viver connosco próprios. E avançando um pouco na cronologia do livro, quis reflectir de alguma maneira que, mesmo tendo deixado para trás um regime de estagnação e de falta de liberdade, não nos desprendemos dele na totalidade, mesmo vivendo em liberdade de facto, liberdade formal. Há características que ficam, e não só nas pessoas que cresceram nesse contexto. Às vezes nas pessoas que lhes sucederam, pessoas da minha geração, houve uma espécie de contágio, algumas marcas que ainda ficam.
INTRO: O José Gil fala disso.
PEDRO: Sim, e eu acho que faz muito sentido. Às vezes as mudanças são bruscas, como a que nós tivemos, mas as cabeças não mudam bruscamente. A moral muda, mas não mudou bruscamente, só com matizes e isso é algo ainda bem presente. Uma pessoa como eu, que nasceu em 75, já em liberdade de facto, pode ter ainda alguns atavismos que vieram de trás, medo do futuro, do presente. Uma atitude mais defensiva em relação às nossas próprias escolhas. Isso é uma coisa que eu acho que ainda moldou boa parte da geração a que pertenço.
INTRO: No seu percurso de vida também já passou por momentos em que fez escolhas. Quando decide dedicar-se à escrita, por exemplo, decidiu que tinha que se despedir do emprego que tinha para poder escrever, com mais liberdade e com mais tempo. E que optou por ter uma vida um bocadinho mais regrada porque as circunstâncias assim impunham. Isso também foi uma escolha livre, uma escolha da liberdade.
PEDRO: Foi, foi. Mas que me provocou até alguma estranheza, porque tive alguma dificuldade em avançar para isso. Fi-lo porque podia, porque de alguma maneira tinha a minha subsistência garantida. Uma pessoa que depende absolutamente do seu trabalho do dia a dia não pode fazer o que eu fiz, sob o risco de penar.
INTRO: Mas há outras liberdades para além dessa.
PEDRO: Sim, claro e eu pude fazê-lo mas tive de ponderar. Para mim acabou por ser um gesto libertador e isso reflecte-se na relação que tive com o livro. Acaba por ser uma temática dominante do livro, essa liberdade como pano de fundo. O conceito mais lato da coisa.
INTRO: Ter um emprego com tudo o que isso representa, ter um trabalho, com um horário, deixa-nos um determinado tempo livre para a escrita não é?
PEDRO: Os outros dois livros que eu publiquei, escrevi-os enquanto trabalhava normalmente. Portanto, sempre fora do horário de trabalho. Como quis fazer uma coisa diferente, que implica a pesquisa e tempo de escrita maior, e depois trabalho de edição. Tinha que dispor desse tempo não podia fazê-lo de outra maneira.
INTRO: O livro impunha-se assim.
PEDRO: Sim. Ou ia ser muito cansativo e de certeza que o resultado não ia ser o mesmo. Tive uma disponibilidade diferente e espero que isso se reflicta na relação que os potenciais leitores venham a ter com o livro.
INTRO: A escolha de se focar em vidas mais “pequenas”, sem qualquer conotação pejorativa, nas vidas de cidadãos anónimos foi claramente assumida. É aliás um traço da sua escrita. Isto dá-lhe maior margem de manobra criativa? Ou considera que as pessoas ditas comuns são mais inspiradoras do que os vencedores dos livros de História?
PEDRO: Para mim são mais inspiradores, em geral. Não quer dizer que não tenha referências, como toda a gente, mas pelo menos em termos de escrita, esse é o universo de que quero falar. Posso mudar de ideias entretanto num futuro livro, mas não estou a ver isso acontecer, porque é de facto o universo que me interessa mais. Eu também sou muito observador, “vampirizo” muito a vida das outras pessoas, como muitas pessoas que escrevem o fazem. Nem todas confessam. Oiço muito, tomo notas. Há matéria literária em todo lado, nomeadamente nas vidas de todos os dias. E esse é o universo que me interessa mais porque é também o universo no qual eu cresci, o universo que me formou. A minha tarefa enquanto escritor é trazer esse universo à tona. Isso para mim é o mais interessante.
INTRO: Há algum episódio da nossa história que gostasse de ter abordado mas, por qualquer razão, não o tenha feito?
PEDRO: Não, neste caso não. Acabei por falar daquilo que queria. Em determinados momentos fiz uma espécie de economia na escrita, porque estava à espraiar-me demasiado.
INTRO: E ainda assim, o livro é extenso.
PEDRO: Devo muito ao trabalho de edição, neste caso à Eurídice Gomes, a minha editora na Companhia das Letras, que tem um olhar externo e lúcido, que é muito importante, porque quando se está a escrever, a pessoa passa tanto tempo sozinha e tende a maravilhar-se consigo própria, com aquilo que está a fazer, e alguém vem de fora dizer “O que é que isto está a fazer aqui? Não adianta nada com a narrativa. Os leitores não vão perceber o que é isto. Não adianta nada neste episódio.” É importante e acho que o livro terá ficado francamente melhor graças a esse trabalho.
INTRO: Projectos para o futuro, depois de um livro como este?
PEDRO: Não sei. Tenho uma ideia em conjunto com a editora também mas vai ser uma coisa totalmente diferente, à partida de não-ficção, para fazer uma espécie de intervalo Mas não será uma coisa deste género. Em termos de romance, sinceramente não tenho nenhuma ideia. Eu tenho feito os romances de uma forma bastante espaçadas. Não sei como é que vai ser. Não tenho mesmo plano nenhum.

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