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Entrevista com a rapper Capicua

Falar com ídolos, conhecê-los e ouvir-lhes a voz pode ser uma experiência terrível, com a realidade a chocar de frente com a nossa fantasia, criada pela persona pública e artística, mais do que pela pessoa real, sempre inalcançável. Ana Matos Fernandes aka Capicua é a excepção que confirma a regra, com o discurso fluido e intenso de quem sabe exactamente o que quer e como lá chegar, e chegou a um patamar na carreira que lhe permite usar a sua voz para melhorar o Mundo, o que faz como objectivo de vida, mais do que a fama ou o reconhecimento. A inteligência e o trabalho árduo são bem audíveis no mais recente Madrepérola (Universal, 2020), disco alegre e “solar” (como nos diz a MC), mas também interventivo e atento ao contexto em que surge (ainda anterior a Março). Mesmo depois da tragédia que assolou o Mundo e afectou com grande acuidade o meio artístico, este álbum mantém-se assertivo e actual, pelo foco em temáticas transversais, pela sua autenticidade e coerência. Os concertos de apresentação são aguardados com grande ansiedade. Mas nem só de Madrepérola se fazem as boas conversas.

REVISTA INTRO (RI): Como surgiu o conceito global do Madrepérola? A música guiou a estética de todo o conceito ou vice-versa?
CAPICUA (C): É difícil de explicar quem nasceu primeiro, se foi o ovo se foi a galinha. O período prévio à escrita de um disco é sempre de grande pesquisa e reflexão. É algo que se vai construindo, mas gosto de ter uma proposta para cada disco, ou seja, o que é que quero explorar, estética e tecnicamente, e o que quero propor como trabalho artístico, no momento em que eu estou na minha vida, e no momento em que o mundo está. Pela razão óbvia de ter escrito o disco durante a gravidez, numa época feliz e virada para o futuro, e por achar que o Mundo estava bastante “pesado” e hostil, queria fazer um disco solar, optimista, dançável (também percebi que precisava de trabalhar esse lado da minha escrita, por várias razões, até porque nunca o tinha experimentado de forma tão óbvia), e também inspirada pelo disco Língua Franca (Sony Music, 2017), que fiz com os brasileiros e a sua forma espontânea de escrever, mas muito centrado nessa alquimia de que a música é aquilo que me permite transformar aquilo que me preocupa em coisas positivas, que esse optimismo é o processo de transformação das dores da existência em arte. Esse é o exercício que as pérolas fazem e a frase “ostra feliz não faz pérola”, que serve de mote ao disco e origina o [seu] nome, conheço-a há muitos anos. Depois descobri ser do Rubem Alves e achei muito forte essa ideia de que as ostras fazem pérolas de grãos de areia e tinha tudo a ver com o processo de criação. O nome Madrepérola resumia também a ideia de maternidade, numa altura em que vivia intensamente a gestação. Portanto foi um processo paralelo, entre os temas e o que queria trabalhar em termos teóricos para sustentar o disco.

RI: A inevitável pandemia: como tem sido para uma artista, com a família recentemente aumentada, viver todas estas incertezas? Uma oportunidade de recomeço e estímulo à criatividade ou um desastre que veio expor as insuficiências que já existiam?
C: Não tem sido fácil, não só enquanto trabalhadora da cultura, vários meses sem trabalho e sobretudo quando ia recomeçar a temporada de concertos, como é especialmente duro pensar que tinha um disco para apresentar, com concerto marcado e fomos todos para casa. Foi um anti-clímax, quando finalmente ia consumar o disco em palco, depois da vitória suada de o lançar com todo o sacrifício e esforço pessoal que isso implica, fiquei bastante desanimada. Entretanto, como sou uma optimista, vejo o copo meio cheio, e de facto este disco ensinou-me vários mantras para transformar os grãos de areia em pérolas. Consegui aproveitar o tempo da quarentena e de paragem para coisas positivas, mas do ponto de vista laboral tem sido difícil, porque estávamos completamente desamparados pela inexistência do estatuto do trabalhador intermitente e as ajudas têm sido poucas e selectivas e especialmente no meu caso, com um disco novo que quando começarem os concertos vai deixar de ser novidade, e talvez um bocado anacrónico, se pensarmos que muito mudou com esta experiência e se calhar hoje faria um disco diferente, inevitavelmente. Por outro lado, também acredito na intemporalidade do meu trabalho, e acho que o disco tem toda a razão de existir nesta fase em que temos mesmo de transformar os grãos de areia em pérolas, colar os nossos caquinhos e fazer arte como Gaudí, e todas essas metáforas que este disco trata. E de facto os mantras do disco têm-me ajudado, e consegui fazer algumas coisas que tinha há muito pendentes, em casa e no trabalho, pensar em alternativas e experiências para o futuro. Tem sido bom para arrumar as gavetas e a casa, literal e figurativamente.

RI: Quase 20 anos de carreira (se as contas não nos falham). Quando soubeste que não serias mais uma voz entre tantas e tinhas “dado o salto”? E qual foi a tua reacção?
C: Na verdade começou com maior intensidade em 2004. O meu percurso foi muito degrau a degrau e cada degrau teve um sabor diferente. Lembro-me quando saiu a minha primeira mixtape [Capicua goes Preemo] em 2008, o meu primeiro trabalho a solo, senti que tinha saído do circuito hip-hop da minha cidade e chegado ao hip-hop lusófono. Com o primeiro disco, senti que tinha saído da tribo do hip-hop e chegado a outras tribos urbanas. Com o Sereia Louca (2014) e sobretudo com o “Vayorken”, que foi um hit, senti que tinha chegado a pessoas de todas as idades. Cada degrau vai trazendo vitórias que confirmam que estou no caminho certo mas tem sido tudo progressivo, suado e trabalhado, por isso há vários momentos. A minha reacção foi de satisfação porque gosto de pendurar as medalhas na minha lapela. Trabalho muito e dediquei-me muito à música nos últimos anos, e os meus sacrifícios pessoais transformam-se nessas medalhas, que gosto de celebrar para me auto-motivar e saber que estou a conseguir. De facto, não tinha uma referência feminina que tivesse conseguido uma carreira longeva no hip-hop português e tive de inventar isso, resistir ao tempo e ainda continuo a tentar. Não é fácil manter uma carreira na música e no rap em particular, e por isso nunca dou nada como adquirido.

RI: A escrita é denúncia, terapia ou reacção? As palavras ainda são armas eficazes em 2020, com o poder avassalador das imagens cada vez mais reforçado pelo (i)mediatismo?
C: A escrita é tudo isso. É denúncia, megafone para as minhas causas; é terapia, porque faz esse exercício de transformar as coisas duras em arte e, de certa forma, consegue trazer alguma recompensa nas alturas difíceis e é reacção, a tudo o que me inspira em cada momento, ao que me preocupa, ao que acho que o Mundo precisa enquanto contributo. Sim, as palavras são armas. Se não acreditasse nisso não faria música como ferramenta para mudar o Mundo, amplificar as minhas causas. E creio que pode ser uma forma de mudar as mentalidades e transmitir mensagem, principalmente neste mundo saturado de informação, imagens e mediatismo. Mas nunca é demais relembrar que a música emociona, e quando aliada à palavra, tem um poder acrescido, porque a música é invasiva e a palavra, em discurso directo, associada à música, tem muito impacto. O discurso directo interpela-nos, faz-nos pensar e nesse sentido ainda e cada vez mais é importante no contexto actual.

RI: É sempre ingrato falar dos pares mas arrisquemos. Artistas da nova geração: qual a voz que mais te entusiasma e porquê?
C: É difícil. O Slow J, por exemplo. Tenho ouvido muito os discos dele (tem dois discos e um EP).
Ele é muito talentoso. É produtor, canta, faz rap, grava mistura, ou seja, é um homem do renascimento nesse sentido. E depois conjuga várias influências que eu gosto. Faz lembrar um pouco o Carlão, o Manel Cruz, mas também o Gonjasufi. Depois tem algo novo, uma cena afro-portuguesa, e tem muitas nuances, é muito emocional. Gosto muito do trabalho dele.

RI: O poder das redes e dos algoritmos: uma fatalidade ou uma “fatelice”?
C: É a realidade que vivemos. Tenho uma música no Madrepérola que fala sobre isso, o “Quadrado Perfeito”. Faz essa crítica de estarmos permanentemente nas redes sociais e de se tornarem, por um lado, uma gaiola e por outro lado a moldura com que olhamos para o Mundo e isso é perigoso, porque a realidade é permanentemente filtrada por aquelas lentes deturpadas que as redes sociais nos impõem. E depois há o, como se diz em inglês, fear of missing out, a ideia de que temos que estar sempre a par do que se passa e a mostrar o que estamos a fazer, a participar. Sobretudo para quem trabalha em música, há uma necessidade permanente de estarmos ligados, de expormos a nossa vida para estimular o interesse do público, num contrato um bocado perverso entre mostrar o artista e não a sua arte, valorizar mais o artista ou a vida por detrás do artista para que a sua arte tenha mais visibilidade. Há muita perversidade em todo este jogo. E depois cria-se uma ilusão de cidadania, em que as pessoas acham que esta pode ser exercida apenas nas redes sociais, com posts e petições, sem perceber que essa também é uma forma muito enviesada de olhar para a democracia. Há muitos perigos que moram, não só nas fake news, nas turbas e nos linchamentos, mas também nessa ideia comodista de fazer cidadania com um clique.

RI: A mulher portuguesa em 2020: somos tão progressivos como queremos fazer parecer ou apenas brandos nas críticas e mudanças?
Temos sido mais assertivas nas críticas e há muita coisa ainda para conquistar. Houve muita evolução, à custa de muita luta, depois do 25 de Abril. As mulheres estão no mercado de trabalho, há mais licenciadas do que licenciados, mas por outro lado temos uma diferença salarial enorme, poucas mulheres na chefia de grandes empresas… Há muito trabalho pela frente. Nas nossas relações pessoais, as mulheres continuam a ter a dupla jornada: o trabalho doméstico, cuidar da família, muito mais do que os homens, os números assustadores da violência doméstica… Apesar de todas as conquistas, há muitas ainda por fazer. Agora, acredito que neste país temos sido mais assertivas e mobilizadas, e acho que tenho contribuído para isso. Sinto que se fala hoje das questões de género pela óptica certa, pelas questões de direitos humanos, apesar de algumas polémicas de descredibilização da causa. Há alguns anos atrás, falar de feminismo era uma espécie de Porto v. Benfica, Homens vs. Mulheres e hoje já se percebeu que é uma questão de igualdade acima de tudo e temos de continuar a lutar para viver numa sociedade mais justa para todos. Uma sociedade verdadeiramente inclusiva é boa para homens e mulheres.

RI: Se fosses Primeira Ministra por um dia, com plenos poderes, qual seria a tua primeira medida?
C: Queria muito acabar com os offshores e benefícios fiscais e a fuga ao fisco das grandes empresas e fortunas. Tirar o dinheiro desviado de quem pode pagar para pôr no Estado Social. O Estado precisa de se reforçar, para termos um SNS e uma Segurança Social forte e uma educação de qualidade, pública, e de facto é preciso justiça. É preciso tirar aos ricos para dar a todos, como um Robin Hood do Estado Social. Tirar dos ricos, que fogem aos impostos ou vão pagá-los na Holanda e noutros paraísos fiscais e taxar essas grandes fortunas e grandes empresas, que não dão o seu contributo, para podermos investir em saúde, educação, segurança social e habitação para todos.

Foto © Vera Marmelo

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