home Folhetim, LITERATURA Entrevista Leïla Slimani – Feira do Livro do Porto 2018

Entrevista Leïla Slimani – Feira do Livro do Porto 2018

No passado dia 21 de Setembro, tivemos a oportunidade única de entrevistar a escritora franco-marroquina Leïla Slimani, aquando da sua passagem pela Feira do Livro do Porto. A conversa fluiu com grande facilidade, entre impressõoes sobre a sua obra, a Literatura e opiniões sobre os assuntos que estão na ordem do dia. Um privilégio.

Revista Intro: Podemos começar com aquilo sobre o que toda a gente quer falar: o Goncourt. Primeiro, receber um prémio destes permite colocar de parte qualquer insegurança que possa ter como escritora e arriscar mais? Ou existe um novo tipo de insegurança no que toca a responder ao que é esperado de si? E ainda, o que significa receber este prémio como mulher, como alguém deslocado, que vive em França mas vem de Marrocos? E, em 2018, devemos ainda ficar surpreendidos com a falta de prémios atribuídos a pessoas que não sejam homens brancos?

Leïla Slimani: No que toca à insegurança, esta é parte da vida de um escritor. Não se pode ser escritor se não nos sentirmos inseguros. Escrever é a coisa mais difícil que alguma vez fiz e ainda é e vai sempre ser; escrever um romance, tentar criar uma personagem que exista verdadeiramente ou que irá existir na mente do leitor. Não tem nada que ver, para mim, com o prémio. Quando estou em frente ao computador, não vou dizer-lhe, “sabes, recebi o prémio Nobel, escreve lá o livro”. Tenho que escrever como sempre fiz e é tão difícil como sempre foi. Não tenho medo do que o público está à espera nem me importo com isso, porque o que eu tenho de escrever é o que eu tenho de escrever, é algo íntimo e pessoal e por isso é uma luta comigo. Eu quero lutar, mas não com o público, nem com as expectativas, nem com o fardo que pode estar sobre os meus ombros, mas apenas comigo mesma. No que toca ao facto de ser uma mulher, uma imigrante, árabe e muçulmana, acho que isso é uma vantagem na literatura de hoje, porque o que eu tenho para dizer é importante, e talvez seja mais relevante e mais rigoroso do que o que um homem branco, de cinquenta anos, que vive no ocidente, tem para dizer. Talvez seja injusto, talvez não seja certo, mas acho que as pessoas olham para mim como uma vítima e é exatamente o contrário. Eu não sou uma vítima. Estou na posição certa para escrever livros hoje em dia .

R.I. Gostaria que nos focássemos no conceito de intimidade e como, nos seus dois livros, as pessoas parecem estranhas umas às outras, mesmo quando partilham espaços de intimidade.

L.S. Principalmente quando partilham espaços de intimidade. Quanto mais próximos estamos, menos vemos as pessoas com quem vivemos. Ficamos cegos, porque as pessoas tornam-se objetos, como uma peça de mobiliário. “Ele está aqui” ou “ela está aqui”, por isso já não olhamos para ele.

R.I. Acha que a nossa obsessão com intimidade está relacionada com o facto de não sermos íntimos, que num tempo em que estamos constantemente expostos à vida uns dos outros nas redes sociais, chegamos a um ponto de mudança no que toca às relações interpessoais e à forma como nos relacionamos?

L.S. Acho que a intimidade é uma espécie de utopia, porque nunca existe realmente mas todos a procurámos toda a vida. Quando somos crianças, procuramos por intimidade nos nossos pais, nos nossos amigos, e quando somos adolescentes e adultos, procuramo-la nos nossos amantes, mas sabemos que nunca conseguimos alcançar o que buscamos porque o que queremos é uma espécie de fusão. Nós gostaríamos de voltar para dentro das barrigas dos que amamos, mas isso é impossível. Gosto da ideia de que se tenta encontrar esta intimidade, mas paramos sempre numa certa fronteira, e acho que somos todos estranhos uns para os outros e aqui sou muito influenciada pel’ O Estrangeiro de Camus. Acho que as minhas personagens, em certos aspetos, são muito semelhantes a Meursault: elas sentem que não pertencem a este mundo e ninguém as pode entender. Para mim, toda a gente é assim e não nos percebemos uns aos outros, mas algumas pessoas conseguem fazer de conta e esquecem o facto de não serem percebidas e talvez algumas não se importem com isso. Mas eu vejo-o e estou ciente e quando se está ciente, não se pode esquecer. Eu só quero tentar expressar este sentimento existencial de não pertencer, de que ninguém nos vai entender completamente, e qualquer intimidade que se consiga alcançar é ao mesmo tempo algo bonito e melancólico.

R.I. Falando do No Jardim do Ogre (recensão AQUI), gostava que olhássemos para o corpo feminino e para o sexo. Li algumas críticas que descreviam Adéle como uma viciada em sexo, o que não é exatamente o que vi no livro. Adéle parece uma mulher aborrecida e cansada, que nunca se encaixa nem tem oportunidade de explorar o seu corpo. Será injusto julgá-la apenas como doente e reduzi-la a essa parte do seu carácter?

L.S. Como escritora, não quero colocá-la numa caixa mas sim o contrário: tentar dizer que ela é complexa e que se queremos tentar compreende-la, devemos abraçar essa complexidade. Não sou médica, não quero diagnosticá-la. Talvez ela seja viciada, mas não me cabe a mim dizê-lo. Mas talvez o que seja transgressivo ou subversivo em Adéle, e o titulo alude a isso, é o facto de ela querer ser um objeto. Hoje em dia toda a gente fala de empoderamento, e a mulher tem de ser um sujeito e procurar ter poder, mas ela não quer ser um sujeito, ela não quer poder, ela quer ser um objeto, uma boneca. Ela não quer liderar o sexo; ela quer ser alguém em quem os homens pegam e fodem; ela não quer liderar, ela quer passar de mão em mão. Ela não desfruta do sexo mas desfruta da humilhação, da degradação e do facto de os homens olharem para ela como um objeto. Ela é alguém incapaz de estabelecer intimidade; ela não quer intimidade, para ela a intimidade é uma prisão, porque a única intimidade que ela tem é com o marido e com o filho, e sofre com isso. Ela procura um tipo de liberdade e para ela a liberdade é o sexo e este sentimento de humilhação. Há uma música em francês, “Et maintenant que vais-je faire”: e agora o que vou fazer? Ela é uma mulher, casada, tem um emprego, e um filho. “Agora o que vou fazer? Tenho tudo o que uma mulher devia desejar e agora espero e morro? Eu quero desejar, quero sentir, quero excitação, quero coisas novas, não quero apenas esta vida”. É um tabu, algo difícil de expressar, mas toda a gente sente isto alguma vez na vida. Talvez seja por isso esteja fascinada pelas prostitutas e transexuais [alusão a uma passagem do livro], porque ao mesmo tempo que sabe que a sua vida é difícil e violenta, sabe que elas não pertencem a esta sociedade, não sentem a necessidade de serem burguesas, de serem normais, de casar. Ela fica fascinada por esta espécie de liberdade, mas não pode exprimi-lo porque isso é indelicado e não se pode dizer.

R.I. Nos dois livros, as questões da raça e da imigração estão sempre presentes, mesmo que subtilmente. Como é que a sua identidade como mulher franco-marroquina entra em jogo na sua escrita?

L.S. Acho que a literatura existe para dar complexidade à forma como vemos a realidade. É fácil colocar as pessoas em caixas e dizer coisas simples, mas a realidade é muito mais complexa. Sim, sou uma mulher do Magrebe. Na forma como as pessoas me vêem, sou muçulmana ou pelo menos as pessoas em França dizem que o sou. Mas o que diz isto sobre mim? Eu não me importo muito com estas questões; não me sinto marroquina, não me sinto francesa, talvez a minha única identidade seja ser escritora ou talvez a minha identidade seja um segredo e ninguém sabe quem sou. Acho que esta treta da identidade é um refúgio, é uma forma de nos escondermos e de nos colocarmos numa caixa. Não significa nada para mim.

R.I. Há algo que neste momento seja uma preocupação, uma obsessão sua?

L.S. Estou obcecada com o silêncio. Acho que a nossa sociedade fala demasiado, há demasiados comentários, demasiada conversa sobre nada. Adoro Tchekov e acho que ele está certo: porquê falar tanto, porquê comer tanto, porquê beber tanto? Estou obcecada com a absurdidade de falar o tempo todo. Tenho pensado em desaparecer, manter a boca calada, algo muito difícil no nosso tempo. Ficar apenas calada.

Por defeito profissional, a Ana Carvalho escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Os nossos agradecimentos à Penguin Random House pela oportunidade e à autora pela simpatia e disponibilidade.

Mais recensões/crítica literária AQUI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *