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Era uma vez…em Hollywood

Tarantino regressou às grandes telas, motivo de celebração global mesmo antes do primeiro minuto do filme. Cimentou uma reputação inabalável, com uma obra coesa e personalizada, em que este Era uma vez…em Hollywood encaixa como o penúltimo filme de uma carreira que terminará com o décimo (muitos rezam que seja Kill Bill III). Entretanto estreará uma peça de teatro e uma série televisiva da sua autoria. O obra é um tributo sentido ao Cinema, mas também à cidade de Los Angeles (onde Tarantino cresceu), levando para a ficção personagens reais de uma época dourada do cinema, representada pelos westerns e estrelas glamorosas, como o protagonista Rick Dalton (Leonardo DiCaprio em busca do merecido segundo Oscar), que se tornaram obsoletos diante da crescente mercantilização da contra-cultura hippie de 1969, aqui retratada no seu anunciado nadir. Longe de consensual, mas, como todo o cinema de referência, motivo de conversas interessantes depois dos créditos finais, em Era uma vez… Tarantino cede o espaço por regra preenchido com acção, personagens e diálogos “tarantinianos” à contemplação e ao silêncio, em longos planos-sequência em que, dirão os críticos, “nada acontece”, mas são a marca de uma obra distinta e memorável: a longa cena em que Cliff Booth (Brad Pitt) conduz o Volkswagen Karmann Ghia pela cidade, ou Sharon Tate passeia pela rua em silêncio, banhada pelo sol, num momento de pura felicidade e esperança no futuro, ou a cereja em cima do bolo, quando Booth alimenta a sua querida pitbull Brandy com a sua gelatinosa comida favorita (“Wolf’s Teeth”, com rótulo original, onde consta a frase “Good food for mean dogs”, ambas inventadas por Tarantino, assim como o rótulo e a própria consistência da ração).

Desde a premiada estreia Reservoir Dogs (1992), Tarantino insiste em recuperar carreiras perdidas no tempo, juntando nomes esquecidos e novos talentos numa família coesa, cuja química forjada nas filmagens confere fulgor renovado ao seu trabalho. Thurman, Grier, Travolta, Keitel, Carradine, Madsen, Waltz… a lista é interminável e o seu instinto revelou-se sempre certeiro, com desempenhos notáveis e filmes à medida do seu trabalho interpretativo. Em Era uma vez… essa tendência passa a linha narrativa, com Rick Dalton e o seu duplo Cliff Booth (Brad Pitt, por ironia na pele do “verdadeiro” e clássico herói americano, o “tough silent guy”, com um passado nos bóinas verdes, para quem a morte e a luta são familiares) como encarnações ficcionais dos esquecidos de uma indústria sôfrega de novidade e lucro rápido, à custa do sacrifício da essência da Arte como busca da perfeição e não fórmula acabada para obter atenção máxima com esforço mínimo. O retrato de Booth é paradigmático da facilidade com que uma estrela em ascensão se torna pária na LaLaLand. Acusado do assassinato da mulher (nunca provado em tribunal e cuja recriação é um dos momentos mais hilariantes do filme), Booth perde a oportunidade de ser actor e dedica-se com fidelidade quase canina ao seu amigo e chefe Rick Dalton, apoiando-o de todas as formas. No final do dia, regressa à sua roulotte nos confins de Los Angeles, para comer macarrão com queijo em pó em frente à TV, na companhia da fiel pitbull. Tal como a química ficcional de Dalton e Booth, também a de DiCaprio e Pitt é uma das mais valias da película, evocando Jack Nicholson e Robert Redford nos seus tempos áureos e outras duplas certeiras.

A acção decorre em dois dias, separados por alguns meses, em que conhecemos Rick Dalton em plena decadência artística, integrado em séries de segunda como mau da fita e morto sucessivamente nos guiões por estrelas adolescentes que assumem protagonismo. O diagnóstico é do seu agente Marvin Schwarzs (Al Pacino em boa forma e com muito pouco tempo no ecrã). A forma como Dalton nos é mostrado no seu melhor e pior, com um DiCaprio sempre no tom certo nessa deambulação, é um dos triunfos do filme, permitindo ao espectador aceder ao “making of” dos filmes e ensaios, algo hoje banal mas impensável à época. As cenas das filmagens, em que assistimos à deformação de um actor de talento, que luta com a idade, os vícios e a falta de estímulos, valem por si só o preço do bilhete. Pelas dezenas de referências óbvias e camufladas, pela exibição de técnica de câmara, recriando os planos da época, pelos detalhes cuidados de cenário, guarda-roupa, montagem e interpretações de gala, com os erros e a tendência para o “overacting” em todo o seu esplendor.

Mas a verdadeira estrela do argumento de Tarantino é Sharon Tate (desempenho notável de Margot Robbie), numa segunda vida poética e repleta de ternura, uma prenda à família e amigos que a viram desaparecer de forma trágica. Surge como a epítome da inocência de quem começa o seu caminho no estrelato – poucas falas tem e ainda menos acções, bastando a sua presença – símbolo do poder da imagem e do magnetismo próprio de uma actriz bela e promissora. A cena em que, a caminho do jantar, pára no cinema para ir assistir a um filme seu, sem que seja reconhecida até se apresentar, é porventura a melhor do filme. Com a verdadeira Tate no grande ecrã, assistimos à Tate de Margot Robbie a assistir ao seu filme, embevecida com a reacção do público que enche o cinema, criando uma tripla camada empática e comovente, que envolve o espectador no abraço de homenagem à falecida actriz.

Alguma falta de fluidez no decurso do filme, não tanto pela toada contemplativa, mas antes pela ausência de um pulsar transversal, comum a todos os restantes filmes do americano, prejudica a experiência cinemática, que nem a banda sonora consegue reparar. Mas a recompensa é superior, com o final bombástico e a confirmação de que o estrelato à antiga permanece bem activo em Hollywood, com interpretações estelares de Robbie, Pitt e DiCaprio, irrepreensíveis nesta declaração de amor a Hollywood, a Sharon Tate e a Los Angeles.

Para ver e repetir.

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