home Didascálias, TEATRO Escrever, Falar – Casa das Artes de Famalicão, 24/2/2019

Escrever, Falar – Casa das Artes de Famalicão, 24/2/2019

Dois homens, aparentemente do nada, estão juntos e deixam-se ficar. Como chegaram ali, onde estão efectivamente? Detalhes insignificantes que a encenação de Simão do Vale Africano deste Escrever, Falar não quer resolver, despindo a cena, onde resta como único adereço um banco corrido de madeira e as marcações traçadas no chão negro, com as cores verde e vermelha que cada um dos personagens veste, como um semáforo onde desligaram o aviso de trânsito com cuidado. Coberto com um impermeável, o par parece ter parado depois de uma corrida à chuva, para fazer um balanço, medir a pulsação (inevitável tentar colocá-los num local/momento definido).

Reza o cliché que quando se juntam dois ou mais homens, os assuntos pouco divergem: futebol, mulheres ou carros, e depois o resto, eventualmente. Aqui, uma Áurea e uma Clara dominam mentes e corações dos interlocutores, nomes próximos de luz, clareza talvez, algo que escasseia neste diálogo criado por Jacinto Lucas Pires, pleno de histórias em que real e imaginado se entrelaçam, e as sugestões prevalecem sobre os factos. O texto é chamado de “meta-literário”, esse palavrão tão disseminado, porque também, através dos diálogos, as personagens se situam espacial e emocionalmente numa peça que se desenrola “em tempo real”. A encenação acrescenta fisicalidade às cenas, originalmente parcas em didascálias, conferindo-lhes dinâmica e uma comicidade que quebra o dramatismo latente nas vidas que se vão desvelando a cada frase.

O homem de vermelho (Nicolau, representado por Daniel Silva) apaixonou-se por Clara, estática no Parque da Cidade, ensopada à chuva, a quem vislumbrou um sorriso de Mona Lisa, e confia mais na sorte do que na acção para que repare em si. Cria toda uma narrativa para justificar o facto de nunca ter encontrado a coragem para quebrar o muro que o separa da realidade, focando-se em moscas mortas ou no uso descabido do humor para afogar em gargalhadas o terror da solidão. O homem de verde fluorescente (Hugo, representado por Diogo Freitas) confessa ter matado a mulher Áurea, que o traiu na casa partilhada, possivelmente simulando um acidente de automóvel, e vive atormentado pelos detalhes que o levaram a esse desenlace e, desde então, lhe pesam no coração.

Duas almas destroçadas detalham os despojos de uma batalha de cuja derrota são os únicos responsáveis, carregando de imagens memoráveis (a noite da chuvada com as flores amarelas afundadas no pântano, ou o incidente num daqueles “dabliú-cês (…) só para o pessoal que está a trabalhar” ao lado da amada que esperava por um encontro, são de antologia, em espectros diametralmente opostos de dramaticidade) um diálogo duro mas bem temperado, traduzido por actuações intensas e generosas de Daniel Silva e Diogo Freitas.

Uma nota final para o local onde vimos o espectáculo. É muito bom encontrar teatro de qualidade fora dos grandes centros urbanos, numa Casa das Artes de Famalicão em excelentes condições para receber todas as formas artísticas. Um local a regressar em breve.

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