home Antologia, LITERATURA Estorvo – Chico Buarque (Companhia das Letras Portugal, 2019)

Estorvo – Chico Buarque (Companhia das Letras Portugal, 2019)

Uma viagem nunca é fácil: uma viagem solitária e uma viagem de estreia. Chico Buarque ou deveremos antes dizer Francisco Buarque de Hollanda, carioca, 75 (setenta e cinco) anos, presenteou-nos, em 1991, com o seu primeiro romance Estorvo que lhe valeu o prémio Jabuti. Em 2019, o multifacetado artista – cantor, compositor, ficcionista – veria a totalidade da sua obra premiada com uma honrosa distinção (das quais destacamos a Ópera do Malandro, Benjamin, Budapeste, Leite Derramado, O Irmão Alemão): o Prémio Camões.
Nesta estreia, que de virginal tem muito pouco, pois respira sensualidade por todos os poros, Chico Buarque apresenta uma escrita plena de transparência, musicalidade e texturas. Como um sonho, semi-pesadelo a espaços, a pena de Buarque é precisa e certeira. Escrita paradoxalmente madura, como transcrevemos: “Era como se estivessem separados dele, não por uma mesa, mas por camadas de tempo. Às vezes eu achava que ele preferia mesmo dizer coisas que os outros só pudessem compreender anos depois(…) ele era dessas poucas pessoas que sabem pensar e falar com o tempo dentro.”
Ao longo de magníficos 11 (onze) capítulos, Chico Buarque vai desvelando situações do quotidiano do narrador, sendo que é possível que este Estorvo repouse bem com os dias, e se retome facilmente sem nos perdermos, pois se há uma relativa interligação, há também uma consequente independência de capítulos, como se de micro-sonhos se tratassem, nunca perdendo a coesão.
A trave-mestra do romance passa pela viagem ao interior da primeira pessoa, o narrador, e da sua família, particularmente a sua relação com as suas raízes, personificadas nas figuras femininas da mãe, irmã e ex-mulher, havendo um pai fantasmagórico. São estas raízes, nesta viagem de existência episódica e de peripécias mais ou menos em movimento de psicose contida e transformada em movimento artístico e pinceladas imagéticas notáveis, quase em dança, a cada página um passo de um homem que se procura a si mesmo, foragido, violentado, tendo como pano de fundo um Brasil marginal (“prossigo a viagem como alguém que procura uma religião”) que enterradas até ao inferno, poderão proporcionar ao narrador o alcance máximo e libertação até aos céus. Considera-se ainda o pesadelo kafkiano que assombra uma certa burguesia, como nas palavras de José Cardoso Pires aquando da calorosa recepção crítica em 1991.
Entre conjugações verbais presentes e futuras, frases curtas e simples, Chico Buarque dispensa o barroco ou o burilado. É um escritor de acção a cada frase. Do movimento. Do prospectivo. Tal como os sonhos. Desta forma, é de uma cadência doce, quente e afectuosa. Entre analepses e prolepses prodigiosas, igualmente singelas, não pretende confundir, mas antes envolver, presentear e dar prazer ao leitor. De novato, é um livro que tem muito pouco. De escrita ritmada, o poder da metáfora vai-nos embalando até aos últimos capítulos: “Então eu passava a noite sozinho ali em cima, tendo aprendido que a noite é superior ao dia. E que quando amanhece, não é o dia que nasce no horizonte, é a noite que se recolhe no fundo do vale”.
Um “estorvo” altamente bem conseguido que nos perturba, mas que nos deixa com vontade de iniciar ou simplesmente não cessar a viagem.

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