home Antologia, LITERATURA Fábian e o Caos – Pedro Juan Gutiérrez (D. Quixote, 2018)

Fábian e o Caos – Pedro Juan Gutiérrez (D. Quixote, 2018)

Podemos estar mais ou menos de acordo com aquela velha máxima de que, no fundo, todos os escritores escrevem uma e outra vez o mesmo livro. No entanto, por vezes essa afirmação é, de facto, bastante precisa. É o que acontece com Pedro Juan Gutiérrez, escritor cubano nascido em Matanzas, em 1950, a quem já chamaram de “Bukowski caribenho”, autor da célebre “Triologia Suja de Havana”, vértice do que o próprio denominou por “o ciclo de Centro Havana”, e sem dúvida uma das contribuições mais originais das últimas décadas para o estilo que se reúne sobre a ampla e nada precisa etiqueta do “realismo sujo”.
Na “Trilogia Suja de Havana”, Gutiérrez junta tudo aquilo que se pode encontrar nos seus restantes romances (O Rei de Havana, Animal Tropical, O Insaciável Homem-Aranha, Carne de Cão), fiéis ao mesmo padrão: a narração autobiográfica de um pobre diabo que vive cheio de dificuldades económicas no centro de Havana, padecendo das misérias quotidianas de uma sociedade empobrecida, que tenta esquecer com álcool e, sobretudo, sexo. Um animal sem mais horizonte para além da sobrevivência a cada novo dia, habituado a aceitar os golpes de uma cidade a cair aos pedaços. Como Bukowsky, Pedro Juan Gutiérrez é um “flâneur” que, através das suas vivências, descreve os costumes e a sensibilidade de um povo habituado, na mesma medida, ao gozo e ao sofrimento. Com a mesma inspiração, Gutiérrez recorre a um estilo urgente, rítmico, coloquial, muitas vezes rude e desalinhado para descrever essa vida inflamada e febril, na senda dos escritores instintivos, insubmissos ao intelectual, escola de raiz eminentemente norte-americana que tem em Hemingway uma das suas principais referências. Mantendo o credo bukowskiano de “escrever como cuspir”, são autores muito prolíficos, acabando por gerar um estilo telegráfico, conscientemente imperfeito mas completamente viciante, que no caso de Gutiérrez é temperado pelo calor tropical e sensual e um humor mordaz. A cidade de Havana de Gutiérrez é desmesurada, hiperbólica, deformada, como que desenhada por alguém ébrio de rum añejo.
A forma visceral que imprime à sua escrita faz de Pedro Juan Gutiérrez um autor não consensual. Enquanto existem leitores e críticos que se incomodam com suas obras cheias de sexo, suor e rum, outros tantos vêm na sua escrita uma maneira desnudada de transcrever uma Cuba que vive constantemente no nosso imaginário. E se é certo afirmar que todo o autor depende do seu contexto, não deixará de ser mais certo que no caso de Pedro Juan Gutiérrez, a sua obra, toda ela consagrada a um “Eu” de atributos exagerados, sem Havana simplesmente não teria existido.

Em Fabián e o Caos (D. Quixote, 2018), a personagem alter-ego de Pedro Juan surge-nos desenhada com traços acrescidos de uma ideologia primária, de inspiração anarquista e anti-sistema. Ainda que fiel ao seu estilo e sem perder de vista a paisagem “habanera”, neste romance o autor atreve-se a explorar novas linhas de argumentação, desde logo com a personagem que dá título ao livro, inspirada no seu amigo da adolescência Fábio Hernandez, através da qual o autor enfrenta uma das questões mais controvertidas do regime castrista: a homossexualidade.
A narrativa de Fabián e o Caos, nunca identificando os protagonistas da revolução, situa-se nos anos sessenta, período que marcou o início do governo revolucionário de Fidel Castro, que tomou o poder em 1959. Um momento que, pelo conflito, une dois rapazes que aparentemente nada têm em comum. Fabián é um apaixonado pelo piano e a música clássica, arte pela qual sublima a sua homossexualidade e a realidade ao seu redor, cada vez mais agressiva. Já Pedro Juan, pelo contrário, é o exemplo do jovem insolente e hedonista, preocupado apenas em viver bem. Como ambos exibem culpas condenadas pelo novo governo (sexualidade anormal e ociosidade/luxúria), são obrigados a trabalhar numa fábrica de enlatados, na condição de párias da sociedade revolucionária. Surge assim uma amizade improvável mas reconfortante.
Fabián e o Caos contém em si e em certa medida, dois romances. O primeiro pode ler-se como mais um volume do “ciclo do centro Havana”, em que o autor mostra novos retalhos da história da iniciação do jovem Pedro Juan, desta feita com um carácter mais político do que o usual. O segundo romance é a história de Fábian, criado nos destroços de uma família endinheirada durante os tempos da Cuba colonial, caída em desgraça com a Revolução. Esta segunda história, em que Pedro Juan aparece também como personagem, descreve a paulatina descida ao inferno de uma alma sensível com talento para a música. que acabará arrastada pelos seus problemas de socialização para uma situação de humilhação, desprezo social e abusos de toda a espécie. Esta é, de facto, a verdadeira trave-mestra do romance. Se é certo que encontramos cenas sórdidas, relatos truculentos e crus, com recriação dos ângulos mais feios e escabrosos da condição humana, também o desenho de um personagem muito atractivo – Fábian – atormentado pela sua sinuosa personalidade, nos provoca tanto repugnância quanto compaixão.
Fabián e o Caos é um verdadeiro hino à liberdade e uma denúncia da forma como as engrenagens do sistema – neste caso, o cubano – conseguem sufocar as aspirações individuais e aniquilar a diferença, seja ela sexual, política ou religiosa. Fiel a seu estilo “escritor-pitbull”, Gutiérrez oferece aos seus leitores o mesmo olhar crítico sobre a situação cubana dos anos 60 e 70 presente na Trilogia: um misto de reconhecimento das mudanças que a revolução trouxe, com a falta absoluta de liberdade e diversidade, valores que são soterrados pelo discurso moralista e persecutório do regime, que se transformando numa ditadura com um frágil verniz de comunismo. Como pano de fundo para os dramas pessoais dos dois rapazes, assistimos ao passar do tempo numa ilha tomada pelo terror da guerra fria, da iminência do desastre atómico e do bloqueio económico perverso que gera escassez. Como contraponto, a fuga da realidade pelo rum, pelo sexo e pela música.
Um romance indispensável para os leitores fiéis de Pedro Juan Gutiérrez, mas também para todos aqueles que sentem interesse pela leitura que aborda questões polémicas que, em pleno séc. XXI, deveriam ser obsoletas.

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