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Factotum – Charles Bukowski

Que dizer sobre quem já tudo foi dito? O próprio Charles Bukowski não se eximia de o fazer, conhecido como fanfarrão profissional, misógino e depravado, mas cuja escrita mostra uma faceta oculta dessa hagiologia criada em torno de todos os detalhes da sua vida.

Factotum (Alfaguara, 2017) é o 2º romance publicado da sua vasta obra, até agora inédito em Portugal. Poeta celebrado, foi um prosador militantemente à parte, embora sempre a par dos tempos, fiel a um só senhor: ele próprio.

A crer na lenda, escrevia contos diariamente durante anos, sôfrego, em busca de uma voz distinta, perseguindo o sonho de viver da escrita. Enviava-os pelo correio para várias publicações de referência. Um dia, chegou a carta esperada, momento ficcionado neste livro.

Nunca acreditou na glorificação da pobreza, na ridícula imagem do escritor vagabundo, mas ao mesmo tempo, rejeitava o modelo de “viver para trabalhar”, normalizado pelo capitalismo. Não apenas por um salário, mas pelo estatuto social atrelado a esse vínculo, o reconhecimento social de uma cidadania plena e funcional, vazia de significado.

– Está bem (…) já sabemos que te achas superior a este trabalho. (…) Sim, a tua atitude. Achas que não reparamos? Foi nesse momento que fiquei a saber que não bastava fazer simplesmente o nosso trabalho, tínhamos de estar interessados nele, quiçá apaixonados.”

Por coincidência, encontramos Henry Chinaski (alter-ego de Bukowski, ambos conhecidos por Hank entre amigos) neste limbo, bem regado por um cocktail hedonista de álcool, mulheres (por alguma razão desconhecida, atraídas por ele) e um fatalismo aceite de braços abertos, porque afinal tudo é material de escrita.

Cedo decide desligar-se de qualquer pretensão para além da sua Arte, saltando entre o instituto de emprego e biscates mantidos por dias, horas ou até minutos, o suficiente para preservar a dignidade, garantir a sanidade mental e, já agora, ter uns trocos para tabaco, renda, uma rodada no bar, pão quente com manteiga de amendoim nos dias de sorte.

A escrita é veloz e despida de adornos. Os diálogos curtos e directos, como duelos corpo a corpo. Aqui e ali, um toque de comédia e sarcasmo, para apimentar um pouco as coisas.

A loja parecia deserta. Havia uma tabuleta na montra: Precisa-se de Empregado. Entrei. Um homem de bigodinho sorriu-me.

– Sente-se. – Passou-me a caneta e o impresso. Preenchi o impresso.

– Ah? Universidade?

– Não propriamente.

– A nossa área é a publicidade.

-Ai sim?

– Não lhe interessa?

– Bom, sabe, tenho andado a pintar. Sou pintor, percebe? Fiquei sem dinheiro. Não consigo vender as minhas coisas.

– Temos imensos casos assim.

– Para além de que não gosto delas.

Anime-se. Pode ser que venha a ser famoso depois de morrer.

As banalidades aparentes de uns são o quotidiano de muitos, e esse elenco de anti-heróis pulula na sua narrativa. A acção decorre durante o período da II GM, para a qual Chinaski não foi recrutado. Os empregos vão surgindo, principalmente aqueles que ninguém quer.

O jornalismo era o sonho, de preferência no Times Building. Tenta o impossível e inesperadamente é chamado para uma entrevista. Para compôr a situação, tinha apanhado chatos pouco antes da novidade. Com a ajuda de Jan, a única mulher capaz de lhe encher as medidas, envolve-se em gaze colada com fita adesiva e veste a roupa por cima, numa das cenas mais hilariantes do livro. Tudo em vão. Sem surpresas, é-lhe atribuída a limpeza e manutenção das retretes e do chão. Para iniciar, tinha de puxar o lustro ao corrimão de latão que contornava todo o exterior do edifício. Uma olhadela aos papéis esquecidos nas secretárias dos jornalistas foi o máximo de proximidade com um futuro alternativo.

Concluí que a ideia seria não pensar. Mas como é que se pára de pensar? Porque é que fui escolhido para polir este corrimão? Porque é que não poderia estar lá dentro a escrever editoriais sobre a a corrupção municipal? Enfim, havia pior. (…) Atravessei a rua com os trapos e o frasco e entrei no bar.”

A única companheira tolerável enquanto escreve é a música clássica no rádio. Beethoven, Brahms, Wagner, Mahler, ténues vislumbres do sublime, lembretes da possibilidade de grandeza e paz num mundo agreste. Misantropo, confessa-se “um tipo que se dava bem com a solidão; sem ela, era apenas mais um homem sem comida ou sem água. (…) Não me orgulhava da minha solidão, mas dependia dela. A escuridão do quarto assemelhava-se à claridade para mim.”

A multidão de que não abdica é a presente nas corridas de cavalos, onde usa esquemas elaborados para fazer a aposta certeira. Compreende-se. Era talvez o único local onde as probabilidades de vencer aumentavam exponencialmente, face ao resto da sua mísera existência.

Confrontado com um Mundo onde se sente estrangeiro, Chinaski decide viver, ao invés de se lamentar, confinado a uma rotina de torpor e lenta decadência. A coragem de dizer não e seguir o seu caminho, abraçando os revés inevitáveis, é uma possibilidade real, mesmo com todos os sacrifícios inerentes.

Manter os olhos na meta ajuda. Ter uns testículos proporcionais apenas à irresponsabilidade de quem nada tem a perder, também.

Era verdade que não abundava em mim a ambição, mas teria de existir um lugar para as pessoas sem ambição. (…) melhor do que aquele que lhes está normalmente reservado. Como raio haveria um tipo de gostar de ser acordado às seis e meia da manhã por um despertador, saltar para fora da cama, vestir-se, comer à pressa, cagar, mijar, escovar os dentes e o cabelo, e penar no trânsito para chegar a um sitio onde, fundamentalmente, vai fazer com que outra pessoa ganhe montes de dinheiro e se exige que se mostre grato pela oportunidade?”

Quem tiver a resposta, atire a primeira pedra.

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