home LP, MÚSICA Festival Vodafone Paredes de Coura – 14 a 17/8/2019

Festival Vodafone Paredes de Coura – 14 a 17/8/2019

As borboletas na barriga do primeiro dia do festival Vodafone Paredes de Coura não deixaram espaço para um palco secundário, que só se estreou depois das duas da manhã. Portas abertas, foi para o palco Vodafone que os festivaleiros desataram a correr, guardando lugar para o ainda longínquo concerto de The National, na esperança de que fosse a pérola da noite. Não foi, mas não desiludiu.
Quem abriu caminho musical às vinte e seis mil pessoas que acabariam por passar na relva neste dia foram os bracarenses Bed Legs. Fernando Fernandes, vocalista, de t-shirt amarela, banhada em mosquitos, foi agradecendo ter passado de festivaleiro a constar no cartaz do festival. Muito rock n´roll e uma entrega digna de abertura de um festival inesquecível. Precederam a Julia Jaklin, mais bucólica. Talvez tivesse sido o ar húmido das Blue Mountains, na Austrália, que conferiu essa qualidade à sua música. Contudo, sentiu-se a dificuldade de integração num alinhamento energizado pela expetativa do primeiro dia. O ambiente estava agitado, no bom sentido, de tal forma que a própria estava particularmente surpreendida pelo calor do público “are you drunk or really friendly?”. O som estava ótimo, ainda que mais adequado a um último dia ou um recinto fechado.
Boogarins, com nome de flor que cura, tal como o seu primeiro álbum, voltaram a repor os níveis de energia dignos de um mar de gente. Referiram, em conversa informal, que a banda funciona porque conseguem encetar conversas entre eles, o que acaba por incluir quem ouve a sua música. A metáfora, citando Fernando Almeida, é perfeita para a paisagem em que nos encontramos, onde até o formato da plateia nos aproxima. A mensagem passou e a conversa, realmente, envolveu.

Já passava das vinte e três e a surpresa da noite para todos os presentes, incluindo os próprios, subiu ao palco. Era vez dos australianos Parcels. Com o recinto já muito composto, envolvidos na simpatia que os Boogarins tinham deixado, apresentaram-se com um visual digno de Beatles ou Bee Gees (comparação não aleatória). Rapidamente, está tudo a dançar, aos saltos e a entoar canções acabadas de ouvir. Os elementos da banda vão girando entre instrumentos, rodando as vozes e conquistando tudo e todos. Sem vontade de ir embora, nem os Parcels nem os festivaleiros presentes, deixaram o momento passar em branco e há memórias deste concerto em todos os cantos das redes sociais. Inclui-se nesta partilha a conterrânea do quinteto Julia Jaklin.
Para fechar o palco principal, catorze anos depois da sua primeira presença em Portugal e em Paredes de Coura, voltam os The National. Tangíveis, palpáveis, sempre envoltos na nébula etérea que os liga ao público português. Apresentaram um alinhamento muito semelhante a outros concertos que deram em território nacional. As lágrimas, a emoção e as histórias contadas por Matt Berninger, assim como proximidade com os presentes, repete-se. “Once I met Nick Cave here” desperta uma gargalhada, e assíduos “The Day I die” ou “I Need My Girl” também voltam. Terminam com “Vanderlyle Crybabe Geeks”, que, como também já vem sendo habitual, é o público que entoa. Nada de muito novo, portanto, para um público que também não exigiu mais. Consistentes, prometem voltar.
A noite fecha com KOKOKO! e o Nuno Lopes, no seu papel de DJ, no palco Vodafone FM. Os primeiros encantaram e deixaram-se encantar. Já Nuno Lopes sofreu da síndrome de primeiro dia de festival, em que ainda não há muita gente a aguentar-se até às tantas. A festa fez-se na mesma e deu som ao regresso dos campistas às respectivas tendas.
A sensação que ficou, neste primeiro dia, é que a Austrália é dona do mundo da música… ou melhor, que foi dona do primeiro dia do Vodafone Paredes de Coura. Acima de tudo, é evidente o amor a este festival, que ultrapassa fronteiras e continentes e está cá para ficar.

O que aconteceu nas margens do Taboão no quinze de agosto foi de uma beleza indescritível. Transportados até à imortalidade pelos New Order, envolvidos no rock punk de Car Seat Headrest, levados até uma nova dimensão com os Kruangbin, seduzidos pela Stella Donnelly e na brincadeira com os Capitão Fausto, os festivaleiros deste segundo dia levaram consigo uma das melhores experiências de sempre vividas no Vodafone Paredes de Coura.
A somar, o palco secundário apresentou-se como uma belíssima alternativa e um fabuloso cenário para a “after-party”. Acid Arab, ainda que sofrendo de questões técnicas, deram uma performance inesquecível, aquecendo uma noite gelada e contrastante com os trinta graus sentido durante o dia. Também, e pela primeira vez, se sentiu uma das dificuldades que desta edição do festival em que se ouviam ambos os palcos. Os concertos em simultâneo começaram neste dia e acabaram por condicionar alguns momentos. Sentiu-se em ALVVAYS e Boy Pablo, ainda que tenham dado espetáculos estelares.
Logo ao início da tarde, de nome difícil de pronunciar e, quase sempre, sem letra para entoar, tornou-se evidente que os Kruangbin traziam consigo alguns fãs dedicados. Vários espanhóis diziam ter sido a principal razão para vir a Coura. Mas não só espanhóis! Houve muito quem se tivesse sentado e dedicado a ouvir. Consigo o trio trazia os acordes memorizados e alguns temas de um recente disco com título em castelhano: Com todo el mundo. Os sons psicadélicos, possíveis netos de bandas dos anos setenta e oitenta, conferem aos texanos o estatuto de uma banda promissora e, claramente, a não perder de vista num futuro próximo.
Car Seat Headrest foi, em grande parte, um dos causadores das boas sensações do feriado no festival. Vêm de Seatle que, não só é o berço do grunge e alguns criadores de boa música, mas também de outras formas de arte, o que, claramente, influenciou o som rock n´roll que contagiou o público. No mesmo palco, a fechar a noite, estariam também os Capitão Fausto com a dura missão de tocar após os New Order. Cumpriram. Mais que cumpriram! De tal modo que o Tomás Wallenstein não resistiu a fazer crowd surfing ao som dos acordes finais da “Final”.

Mas o grande momento da noite foram os lendários New Order. Arrepiante, bonito, sincero… Temas dos Joy Division (“She’s lost control”, “Transmission”, “Atmosphere” e o final “Love will tear us apart”) fizeram deste concerto uma viagem no tempo, ressuscitando Ian Curtis. Ainda assim, foi “Blue Monday” que elevou a parada e pôs um mundo de gente a cantarolar, a saltar e, até, a lacrimejar.
Paredes de Coura entrou, definitivamente, em modo sedutor. Faltavam mais dois dias de abundância. E assim foi!

Quase pressentindo que o cansaço daria sinais de si, a organização reservou uma noite mais tranquila para o terceiro dia de festival. À luz da lua cheia, de um céu limpo e ar fresco, os concertos deste dia eram dignos de se ver sentados na relva, sem pressas, sem vontade que acabassem.
Os geniais First Breath After Coma chegaram com a sua música robusta, intercalada de um diálogo tímido, quase a pedir desculpa pela belíssima qualidade das suas melodias. Trouxeram Noiserv no bolso, de surpresa, com quem fizeram um retiro musical para, segundo os próprios, se ouvirem melhor.
No palco secundário, a realçar dois nomes: Balthazar e Connan Mockasin. Os primeiros não diria que são belgas, pois trazem consigo ritmos quentes, embrulhados em brilho. Connan porque trouxe um universo muito próprio a quem lá estava para o ouvir. Envolvente sim, pedante q.b.
Enquanto isso, Jonathan Wilson apresentava uma sonoridade tranquila. Braço direito de Father John Misty, adepto de um rock clássico, sem floreados, ajudou a noite a instalar-se. Não foi grande a adesão ao concerto, por ser muito próximo de Balthazar, mas os presentes gostaram. Seguiriam-se os Deerhunter, com direito a menção de alguns nomes portugueses que deixaram a maioria do público muito confuso. “Quem já ouviu falar de Nuno Canavarro, dos Street kids?”. Aparentemente muito pouca gente e na década de oitenta. Do seu indie rock trouxeram temas como “No one’s sleeping” e “He would have laughed”.
Seguir-se-ia Spiritualized e um concerto íntimo, como se numa sala pequena. O público deitou-se na relva, sob as estrelas e o vento frio e usufruiu do momento quase mágico. Usando de harmónica e um gospel peculiar e excluindo êxitos mais próximos do rock, é difícil descrever esta atuação escapando ao trocadilho com o nome da banda, para dizer que foi uma experiência divina. E assim, sem querer, começou a bênção das margens do Taboão ainda antes de Father John Misty.

No fim da noite, para encerrar o palco Vodafone, eis que entra Josh Tillman (aka Father John Misty). Já tinha marcado presença em Coura em 2015 e, aparentemente, além de saudades deixou memórias de luxúria, como ele tão bem sabe fazer. A sensualidade e alguma provocação continuam a ser imagem de marca do homem mais velho do folk rock, como o próprio se intitula. A ironia prossegue e as bênçãos também. A dada altura, é claro que vai terminar muito antes do que todos gostariam. Sem tempos mortos, faltou “Pure Comedy” em pouco mais de uma hora de concerto. Foi breve, demasiado breve. Permanecem “Nancy from now on” e, claro, “I Love you Honeybear”, com a vontade que volte depressa.
Noite fria no ar. Noite quente nos corações dos festivaleiros. Abençoados sejam.

Ao quarto dia descansaram. Não sem antes arrebatar corações, deixar mensagens políticas e provar que há concertos que não cabem no Palco do Vodafone Paredes de Coura.
O palco secundário muito recheado, com os portugueses Sensible Soccers a conseguir o público mais numeroso. Merecido reconhecimento a uma banda que regressou em força com uma sonoridade muito própria, contadora de histórias e uma alternativa aos moldes a que estamos habituados. Também neste palco estariam presentes Kamaal Williams e Flohio, nome promissor do hip hop londrino cuja fama já ultrapassa fronteiras. Flohio é, claramente, nome a reter.
No sábado, o palco Vodafone testemunhou sentimentos contraditórios. Logo depois dos portugueses Ganso proferirem o amor pela sua pequena legião de fãs, sobe ao palco uma imagem curiosa: uma mesa e uma cadeira. Mitski, não iniciante perante o público português, chega com a sua banda e um número sensual para, ao que parece, mascarar uma voz sem brilho. O concerto desenrola-se como se o local fosse outro, mas nenhuma peça de roupa é despida. Ainda assim, atuou perante um público tão espantado que só se pronunciou em “Nobody”. Esperemos que a americana, de ascendência japonesa tenha aprendido a lição (e pago a conta de uma qualquer loja de móveis do Minho).
E para prosseguir com os mistérios deste sábado, contamos com o gigante ponto de interrogação a pairar nas cabeças da maioria da audiência de Freddie Gibbs e Madlib. Provavelmente um dos piores concertos que já passaram pelo Paredes de Coura, apoiado apenas por um pequeno grupo de fãs que respondia positivamente a “make some noise” no final de cada canção e repetia “fuck tha police” a mando de “Freddie, Freddie, Freddie”. Talvez o público português não esteja preparado para ouvir o mais puro e duro hip hop americano, ou talvez o excesso de ouro nos dedos e pescoços dos artistas fosse o elemento mais distrator em cima de um palco quase nu. Permanece o mistério até nova oportunidade de ver (e ouvir?) algo similar, num momento tira teimas.
De certa forma, a noite terminaria com mais um mistério musical: os Suede. Brett Anderson em ritmo frenético, banhado em suor e animado pela sua própria música, parecia mais entusiasmado que os seus ouvintes. Contudo, êxitos de sempre entre canções mais recentes do álbum The Blue Hour relembram os fâs de sempre porque é que Suede são um dos símbolos da britpop dos anos noventa. A questão que permanece é se a festa do vocalista foi sentida, uma crise de meia idade aos cinquenta e dois anos ou uma tentativa de voltar a estabelecer-se junto de um público que parecia ter-se esquecido dele. Ainda assim, não foi mau. Ao que parece, na mente de Brett, até foi bastante bom! E um “She’s in fashion” em estilo acústico cura (quase) todos os males.

Patti Smith elevou os sons do habitat natural da música e espalhou vontade de voltar. Uma senhora de setenta e dois anos sincera, caustica, comovente. E não só de Patti vive o Patti Smith Group, é claro! Os seus amigos de longa data e companheiros de luta partilharam a sua mensagem de “Fucking Peace and Love”, encetada com um belíssimo “People have the power”. E, de repente, a história de um concerto memorável começava a escrever-se em Paredes de Coura. Canções de intervenção de Neil Young, uma habitual versão de Jimi Hendrix e um medley de “Free” dos Rolling Stones e “Walk on the wild side” de Lou Reed enchem de emoção o anfiteatro natural. Por sua vez, um exemplar de “Just Kids” emociona Patti também: “you’re the fucking best”.
Há muito que se sabe que mais nenhum festival em Portugal tem o carisma do Vodafone Paredes de Coura. Desde a ameaça do seu fim, em 2004, à mudança de alguns dos paradigmas que o caracterizavam até à data, que se recusa a alterar o seu código genético. E ainda bem! Continua a conquistar adeptos e a deixar as mais belas memórias nos fiéis participantes. Uma surpreendente média de idade dos espectadores de vinte e três anos prova isso mesmo. Acima de tudo, este evento é dono de si. Recusam-se patrocinadores de purpurina e barulho desnecessário porque, de outra forma, não seria Paredes de Coura. A mensagem que nos deixa é de respeito, cuidado, responsabilidade e muito amor próprio, pois só assim há amor para partilhar.
Até para o ano Couraíso.

Por defeito profissional, a Catarina Piñon Mendes escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Foto © Hugo Lima

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