home LP, MÚSICA Filipe Sambado – Maus Hábitos, 14/2/2020

Filipe Sambado – Maus Hábitos, 14/2/2020

No passado dia 14 de Fevereiro, dia de S. Valentim, o Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos no Porto foi-se enchendo progressivamente para uma comunhão lasciva com Filipe Sambado e a sua banda, desta feita sem acompanhantes de luxo, mas com um luxo de acompanhantes. Filipe revelou-nos que a formação nesta apresentação de Revezo (2020) tem variado a cada espectáculo, com algumas excepções. A curiosa abertura do evento esteve a cargo de Evaya, projecto de synth pop, que proporcionou uma atmosfera onírica à la Bang-Bang Bar de Twin Peaks.
Pré-aquecidos e a deslizar pelo rabbit hole, envergando uma persona simples e colorida, maquilhagem cor-de-rosa e vestes rosadas em pendant – Sambado, o vocalista/guitarrista de lábios em carne viva pisava finalmente o palco com a sua banda. As respirações em uníssono com “Tanga”, plenas de fisicalidade inauguraram a noite, prometendo festa. Durante cerca de hora e meia, presentearam-nos com avanços do novo álbum, bem como os clássicos.
Em encore imprevisto – “só mais uma”, em noite de Cupido à solta, o romance efémero nortenho conheceu desenlace com o público no palco, apesar da limitada ventilação do espaço e com chave de ouro: o famigerado “Assambado”. Filipe, Primeira Dama e Chinaskee em trio sensual (poupando Vera Vera Cruz), apenas e só para boa saúde da performance, mostraram os seus rabos – para deleite do público – que filmou carinhosamente e com todo o respeito aquele momento. Se este assambado se iniciou como uma espécie diversão dócil de uma cópula de guitarra, a comunhão com a restante banda tornou-se, no momento derradeiro, de doce e divertida penetração, em versão dócil num plateau de naturalidade e dádiva. Dejà vu de um momento “à la Geração Rasca”, transmutado para o amor, a linguagem de Filipe Sambado e companhia. Em constante diálogo com o público, entre salpicos de whiskey, a sensação de estarem num ninho de criatividade foi permanente. Revelações caricatas, peripécias, o medo de não errar, acertos de som, pequenos detalhes que fizeram o espectáculo único, irreverente e familiar.
Se Sambado é statement, existe necessidade de ser establishment para o público se deixar corromper, em constante disrupção. “És lindo!” clamou um jovem da audiência entre o olhar surpreendido de rapaz inocente de Filipe. As questões entre o masculino e o feminino invariavelmente são transversais no trabalho de Sambado e na sonoridade, um trabalho que nos leva às raízes, ao ancestral, mas simultaneamente à modernidade. As influências serão inúmeras e para quem viveu no Alentejo como Filipe, basta ouvir alguns temas para se destacarem as referências óbvias. Se Revezo é um hino ao folclore, mesclado com pitadas de ternura e imaginação, entre sonho e a sorte, entre a infância, a tradição, é em paralelo uma recolocação e redimensionamento da música portuguesa de e para o século XXI.
Filipe Sambado é tudo menos convencional. No entanto, está para lá do reduto queer, toca as roldanas do universal, os sérios equilíbrios entre o feminino e masculino e todo o tipo de amor. De varinha de condão em riste e sonoridades com laivos de crítica social e paisagem onírica, o tom humorístico e a sua ideia de pertença são omnipresentes. Num equilíbrio difícil, é familiar e sofisticado a espaços, sempre sem perder o pé, aliás como é apanágio da sua jóia da coroa – “Jóia da Rotina”.
No espaço Maus Hábitos, em noite de aura romântica, definitivamente fomos brindados com as “piores” companhias: um ambiente tranquilo, muito pacífico e agradável recebeu Sambado e a banda. Se a Maternidade deste homem a sério já vai longa, que se prolongue por tempo indeterminado.

De assinalar que Filipe Sambado marcará presença na próxima edição do Festival da Canção com o tema “Gerbera Amarela do Sul”, retirado de Revezo.

Alinhamento

Tanga
Tusa Mole
Jóia da Rotina
Vida Salgada
Só Beijinhos
Gerbera Amarela do Sul
Mais Uma
Dono da Bola
Dá Jeitinho
No Leito
Deixem Lá
É tão bom
Tabaco
AssAmbado

Foto © Rui Palma

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