home Didascálias, TEATRO Fuck Me Gently – Rua das Gaivotas 6, 15/10/2019

Fuck Me Gently – Rua das Gaivotas 6, 15/10/2019

Entramos, sentamo-nos e uma ampla projeção em vídeo abre o ritual. Dezenas de imagens de teatros em ruínas sucedem-se, figurando uma decadência estranhamente combinada com um hino de alegria, que preenche toda a sala. Estamos na Rua das Gaivotas 6, na mais recente criação de Mário Coelho: Fuck Me Gently!. O contraste entre a grandiosidade daqueles teatros e a decadência do seu estado atual começa a ganhar sentido quando, no mesmo ecrã, se faz um anúncio derradeiro: estamos em 2030 e o teatro acabou.
Mas como nunca nada acaba para toda a gente ao mesmo tempo, dois jovens irmãos anunciam no ecrã que irão realizar um casting para uma nova peça. Os seus pais morreram recentemente e com o dinheiro que lhes deixaram, decidiram avançar para uma criação em torno dessa experiência biográfica.
O casting avança: dezenas de pessoas aparecem num vídeo, alternadamente respondendo às perguntas mais estranhas. Desses castings é escolhido o elenco, com exceção de duas convidadas especiais. Tudo se ri da hilariante bizarria que é prólogo deste espetáculo. As atrizes e o ator são escolhidos e encontram os criadores, que numa primeira reunião lhes explicam que querem trabalhar a experiência da morte dos seus pais, mas sem regras à partida. Tudo está em aberto: o plano de ensaios, os horários de trabalho, se vai ou não ser apresentado em público. As únicas regras são as que constam do contrato: disponibilidade total e direitos absolutos de exclusividade. Este é o ponto de partida e a partir daí tudo pode acontecer.
Mário Coelho não abdicou de nenhum trunfo na sua nova criação. Neste Fuck Me Gently! o encenador arriscou, pôs tudo em cima da mesa e deu mais uma prova da sua maturidade subversiva. Isso não se deve apenas ao facto de ser uma criação original, intrigante e imprevisível, ainda que isso seja, em si mesmo, uma coisa valiosa e rara, num momento em que parecemos todos mais empenhados na confirmação daquilo que já sabemos, já esperamos ou conseguimos antecipar. A obra de Mário Coelho é imprevisível e desconcertante e é isso que a torna única.
Para além disso, este espetáculo é um trabalho riquíssimo em pormenores. Não por acaso, e se calhar talvez por isso, entre a interpretação teatral e os materiais audiovisuais, contam-se mais de 30 participantes… Mário Coelho sempre gostou de trabalhar com muita gente – exceção, talvez, para o seu visceral I’m so excited! (2018) com Rita Rocha Silva – só que neste espetáculo conseguiu o feito de reunir quase todo o batalhão de gente que também tem estado implicada no seu trabalho de criador. Ele conhece muito bem cada uma daquelas pessoas e por isso sabe como cruzar a sua individualidade com a obra coletiva em causa. Também por esse motivo, o trabalho de som e luz segue na perfeição a dramaturgia.
Finalmente, last but not the least, quem conhece o trabalho de Mário Coelho sabe que ele está lá sempre: na infância que continua como imaginário, na família como uma presença constante, nos corpos em esforço, e até uma corrida lá conseguiu encaixar, com os atores desalmados, entre o palco e os bastidores de uma peça que afinal irá mesmo acontecer.
Fuck Me Gently! vive num aparente paradoxo entre o fim e o princípio. O teatro terá acabado, mas ainda há quem queira começar um espetáculo. Os pais dos criadores morreram, mas um espetáculo ainda pode ser o meio para o seu reencontro. O que é que acaba e o que é que começa? O que é que começa no que acaba e o que acaba no que começa? É um jogo que se joga nos limites, nas fronteiras e nas hesitações. Não admira, por isso, que uma das figuras do espetáculo diga à colega que tem um certo horror a um teatro que fale do nada (como parece ser o caso da peça), mas algo estranho a compele a ficar. Não podia ser mais certeira.

Mas o fim do teatro, neste tão próximo 2030, serve também para tratar de um outro assunto, que vai aparecendo em vários momentos do espetáculo: uma sátira ácida e cheia de piada sobre quem trata o teatro (e arte) como uma selva ou um deserto sem humanidade dentro. Nas conversas de janela lembra-se as cunhas que fazem dos castings um cerimonial para fingir que há alguma transparência nos critérios de seleção. À mesa, os criadores lembram que um compromisso contratual não é só uma relação de trabalho – com direitos e deveres entre as partes – mas sobretudo um constrangimento imposto aos corpos e às vidas dos próprios atores, como se eles fossem uma mercadoria exclusiva e pronta a usar em qualquer momento. Por isso a exigência é clara: 100% de disponibilidade, a qualquer hora, a qualquer momento, em qualquer circunstância. Nem com um avô doente, nem quando se visita a família: a dedicação tem de ser absoluta. Afinal de contas, com tanta gente e tão poucas oportunidades, como se pode recusar as regras? Os contratos, claro, não saem da sala de ensaios e todos os atores acabam por aceitar as condições de trabalho – mesmo a atriz punk, com a t-shirt dos Ramones, que nos dá uma certa esperança inglória que haja quem resista.
Todos partem, portanto, para a construção da peça, ou melhor, para uma das peças, porque esta Fuck Me Gently tem várias camadas. É uma peça que o público vai ver, mas consiste na construção de uma outra peça, em torno das memórias dos criadores e que, improvavelmente, vai mesmo a cena. Diga-se, aliás, que não há como não achar extraordinário que dela apenas vejamos os bastidores, deixando o resto à imaginação. Mas essa segunda peça é, na verdade, apenas parte de uma terceira, escondida, que se pode ir antecipando aqui e ali, mas que só no fim se resolve, num derradeiro vídeo que acompanha os corpos que se vão encontrar noutro lugar.
Camada sobre camada sobre camada, estamos lá sempre, até ao destino final. E quando lá chegamos, constatamos o óbvio do mais óbvio: Mário Coelho e quem com ele trabalha são do melhor que está a acontecer na cidade de Lisboa. Muito obrigado.

Fuck Me Gently é um projeto de Mário Coelho, com Ana Valente, Ana Valentim, Anabelo Ribeira, Bárbara Bruno, Carolina Dominguez, Cleo Tavares, Filipe Baptista, Margarida Correia, Mariana Medeiros, Pedro Baptista, Rita Rocha Silva. Uma co-produção YEP [YoungEmerging Performers] entre Rua das Gaivotas 6 e O Espaço Do Tempo.

Foto © Emma Saints

Por defeito profissional, o João Mineiro escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Mais Teatro AQUI

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *