home Didascálias, TEATRO A grande vaga de frio (com ORLANDO de Virginia Woolf) – TeCA, 19/11/2017

A grande vaga de frio (com ORLANDO de Virginia Woolf) – TeCA, 19/11/2017

Orlando – uma biografia (1928), texto-fetiche dos estudos de género, é o ponto de partida deste monólogo, que Emília Silvestre apresentou em palco, com dramaturgia de Luísa Costa Gomes e direção de Carlos Pimenta. Não é uma dramatização do romance de Virgina Woolf, assume-se antes como uma transfiguração do romance numa outra coisa, que coloque em evidência as questões que dele emanam, trabalhadas pela investigação literária exaustivamente, e que aqui adquirem novos sentidos, ou, para sermos mais exatos, apelam à possibilidade de reconstrução constante de novos sentidos. Como refere Carlos Pimenta no texto de apoio ao espetáculo, é a sua (nossa) maneira de ser Orlando, em que “durante o trabalho que fizemos até aqui chegar, fomos constatando que A Grande Vaga de Frio se autonomizava de Orlando. (…) A dramaturgia de Luísa Costa Gomes emancipava-se e acrescentava ao(s) tema(s) novas possibilidades.” Neste sentido, A Grande Vaga de Frio é uma visão individual de Orlando por Costa Gomes, aliada inevitavelmente à prestação de Emília Silvestre, que se funde com este novo texto de forma pungente. A solidão em palco é propositada. Por um lado, Orlando é-o desde o princípio do romance: “So, after a long silence, ‘I am alone’, he breathed at last (…)”, e aqui abre-se o espetáculo com um “estou sozinha”, abrindo, de imediato, a questão da transfiguração dos géneros, e evidenciando um início do monólogo que começa no fim do romance – já no século XX. Por outro lado, a solidão da atriz enquanto potencial para a sua pulverização, sendo Orlando homem e Orlando mulher, variando entre a primeira e a terceira pessoa, e alternando nos séculos ao longo da referência às personagens que pontuam o romance – os amores Sasha e o capitão Shelmerdine, ou o crítico literário Nick Greene que a ajuda a publicar o seu livro, O carvalho. Emília é uma e todos eles, a la Rimbaud: “Orlando? Orlando? Vem, vem, estou saturada deste meu eu. Quero outro”. E a la Orlando himself, nessa assimilação de todo um ideário histórico e sociológico que Woolf tão bem soube questionar, que é a vaga de frio que dá nome ao texto. Trata-se de um momento específico do romance original, o acontecimento climatérico de 1608, em que o Tamisa gelou, e várias lendas se formaram à volta de corpos petrificados como se estivessem vivos e pássaros enregelados que caíam do céu.

A estabilidade dos corpos, do texto, do processo de escrita, dos avanços e recuos que este implica, tal como os avanços e recuos numa identidade em construção constante – como homem, como mulher, como escritor, como escritora, como pajem rapaz na corte de Elisabete, como cigana rapariga em Constantinopla – são simbolizados pela ideia de um processo de congelamento e descongelamento comuns tanto ao indivíduo como à história política e geológica da Humanidade e da Terra, umas vezes alinhados, outras nem tanto.

O espaço cénico é subtil, dando primazia ao movimento de Silvestre em palco apenas ao redor de uma raiz de um carvalho, pendurada no centro desde o teto – o contrassenso perene à mutação de Silvestre, e o nome do livro que Orlando começa a escrever enquanto jovem, que publica enquanto mulher três séculos depois. É, então, do carvalho no centro do palco que nos parece brotar o sentido maior deste monólogo, no que a questões sobre o humano diz respeito: o que é que, ao longo da vida, nos prende a um chão, a uma raiz? Em que é que o ser humano é perene? A(s) escritora(s) sugerem um livro, um texto. Mas, como a própria visita de Costa Gomes a Woolf sugere, um texto nunca está fechado, e abre sempre possibilidades de reescrita. É neste círculo vicioso que nos encontramos desde sempre, e que reencontramos, em forma de lembrete, neste A Grande Vaga de Frio.

Foto © João Tuna

Por defeito profissional, Luis Pimenta Lopes escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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