home Didascálias, TEATRO Grief is the thing with feathers – Barbican Theatre, 29/5/2019

Grief is the thing with feathers – Barbican Theatre, 29/5/2019

“Hope” is the thing with feathers –
That perches in the soul –
And sings the tune without the words –
And never stops – at all –
Emily Dickinson

À luz. constatava a tua irrealidade. ela emitia monstros. e ausência.
Jacques Roubaud, alguma coisa negro

 

Quando Alix Cléo Roubaud faleceu aos 31 anos, vítima de uma embolia pulmonar, Jacques Roubaud não escreveu nem falou sobre a sua morte; o desbloqueamento da linguagem aconteceria muito depois, como o poeta escreve no belíssimo Afasia, abaixo transcrito. O paralelo entre a elegia de Roubaud e Grief is the Thing With Feathers (traduzido por cá por Daniel Jonas, com o título O Luto é a Coisa com Penas, edição da Elsinore a que recorreremos para trechos do texto – crítica disponível AQUI) é quase obrigatório: estamos perante dois homens, viúvos, cuja única reação face à morte das suas esposas é o silêncio, sendo a poesia, ou uma criatura imaginária projetada por quem sofre, no caso de Grief is the Thing With Feathers, os únicos instrumentos à disposição destes homens para expressar o que não pode ser dito, através de uma espécie de ventriloquismo:
“[D]iante da tua morte fiquei completamente silencioso.
Não consegui falar durante quase trinta meses.
Já não conseguia falar segundo a minha maneira de dizer que é poesia.
Comecei a falar, em poesia, vinte e dois anos antes.
Foi depois de outra morte.” (Roubaud: 219)
Encontramos esta incapacidade de articular verbalmente a morte em tantos outros textos, ficionais e autobiográficos, desde The Year of Magical Thinking (cuja tradução, publicada pela Cultura Editora, foi o nosso livro do ano de 2018), em que Joan Didion relata a morte do seu marido, H is for Hawk, de Helen Macdonald, uma elegia a um pai morto, Skeleton Tree, álbum de Nick Cave & The Bad Seeds, escrito pouco depois da trágica morte do filho do cantor australiano e cuja atmosfera sombria poderia servir facilmente para banda sonora da encenação de Grief is the Thing With Feathers, ou ainda, para evocar o mítico universo de Sylvia Plath e Ted Hughes que pauta o texto de Porter, poderíamos talvez referir The Birthday Letters como um exercício semelhante aos outros já referidos, e um olhar de Hughes sobre o suicídio de Plath.

Seria injusto para Enda Walsh (e para a excepcional equipa de cenografia e sonoplastia que o acompanhou nesta encenação) reduzir a peça Grief is the Thing With Feathers a uma performance soberba de Cillian Murphy, cara bem conhecida do público pelo seu desempenho como gangster em Peaky Blinders (e para um público mais indie, no belíssimo Breakfast on Pluto) e cujo talento para o palco tem sido verificado várias vezes, com Disco Pigs e Ballyturk, também de Enda Walsh e várias outras peças, como A Gaivota de Tchekhov. Seria igualmente injusto para o ator negar que é o seu compromisso total com a performance que eleva a peça a um outro patamar, proporcionando ao público uma experiência dramática que tanto é estranhamente terna, como incrivelmente desconcertante e surpreendentemente cómica. O brilhantismo da peça assenta ainda no texto original, escrito por Max Porter, e omnipresente, na forma dos longos e vários monólogos do Pai e dos Rapazes, através de narrações em voz off, ou quando excertos são rabiscados nas paredes, remetendo-nos para a materialidade do texto de origem. A natureza um tanto experimental da peça, com elementos de eficácia variável, espelha ainda o próprio cariz híbrido do texto de Porter: parte prosa, parte poema, parte monólogo para ser lido em voz alta e que se eleva em palco, destacando aspetos do texto que se perdem na página, como o humor inerente a determinados trechos ou a relação tensa entre Pai e Corvo, mais dramática e extremada em palco, realçando como são contrapartes um do outro.

Neste apartamento de Londres, encontramos o viúvo Pai, um académico de Ted Hughes, e os seus dois filhos, para além da presença assombrosa da Mãe, que é evocada nas memórias do Pai e dos Rapazes, em forma de imagem em movimento nos filmes caseiros da família anteriores à tragédia e em voz off, na narração do encontro fugaz entre Ted Hughes e o Pai numa conferência em Oxford. Se no livro este momento era narrado pelos Rapazes, na peça é a Mãe quem o faz, enquanto o Pai ouve em silêncio a voz da sua mulher morta, um detalhe que torna o fantasma da Mãe numa sombra ainda mais negra sobre o que resta desta família.
Cillian Murphy apresenta-se como um protótipo de pai engolido pela dor, incapaz de tomar conta dos seus filhos e da casa, de calças dentro das meias, cabelo desalinhado e roupa de cores gastas, mestre de “uma nova e dramática linguagem de crise”. Porém, é o Corvo, materialização da dor trazida pela perda, para além de “amigo, desculpa, deus ex machina, piada, sintoma,/ ficção, espectro, muleta, brinquedo, fantasma, mordaça, analista/ e ama-seca”, que exige ao ator a sua maior transformação em palco. Para lhe dar corpo e voz, Murphy altera a sua pronúncia, do irlandês do Pai para o inglês do Corvo, usa uma série de microfones que lhe alteram e ampliam a voz e coloca o capuz do robe que usa apertado à cintura sobre a cabeça, deixando que se veja apenas a sua boca e bigode (de pai), numa imitação visual do bico de um corvo. Depois, dobra os braços para trás como asas e saltita de pernas dobradas pelo palco, trepando para o beliche dos Rapazes, a escadaria sobre a cozinha e a secretária onde o Pai escreve o seu livro sobre Ted Hughes, de forma ágil e veloz, movendo-se de forma perfeita entre homem e pássaro, e vice-versa. O medo de parecer ridículo ou de se magoar com tantas acrobacias desaparece e a entrega ao papel duplo é total, resultando numa performance sólida e hipnotizante em que a maior parte do texto assenta.
A música instrumental e negra de Theo Teardo alia-se a sons mais pop que, com o potencial de se revelarem um tiro ao lado, se adequam perfeitamente ao cenário sonoro da peça. Após mais um longo e violento monólogo do Corvo, ouve-se “Joe Le Taxi” de Vanessa Paradis, através de um rádio que toca na cozinha, lembrando-nos do mundo exterior para além das paredes deste apartamento coberto pela asa do luto, de onde nos chegam canções alegres, notícias tristes e sons de ambulâncias, prenúncio de outras tragédias pessoais e perdas. Há momentos de uma tristeza imensa, como quando os Rapazes saltam e trepam parede acima, para tocar em imagens projetadas de mães imaginadas, assim como momentos evocativos de reparo e superação, quando se projetam os futuros Rapazes, já adultos, com os seus próprios filhos, que recordam os seus próprios pais, mas o texto nunca resvala para o sentimentalismo fácil ou o melodrama que poderia ser esperado. Quando o Pai descreve a forma como a ausência esmagadora da sua esposa se traduz em tudo, até na dimensão da cidade, o Corvo troça dele, avisando-o do perigo de soar como um íman de frigorífico. Se por vezes os monólogos do Pai parecem menos convincentes ou marcados por hesitações, os do Corvo, acompanhados por música e um jogo de luzes mais negro, proporcionam grande inquietação, clímaxes que antecipam o momento catártico em que o Corvo se prepara para deixar a família, agora pronta para “avançar” e espalhar as cinzas da mãe, fim simbólico para o luto da família:
“Seguir em frente, como conceito, é para pessoas estúpidas, porque qualquer pessoa razoável sabe que o luto é um projecto a longo prazo. Recuso-me a ser precipitado. Que nenhum homem atrase ou acelere ou componha a dor que nos caiba em sorte.”

Os noventa minutos da peça voam. Passamos da tristeza à redenção (com muitos momentos devastadores pelo meio) à medida que o apartamento se torna também mais arrumado e luminoso, e a comida surge magicamente nos armários e no frigorífico, e o Pai despe a sua roupa de luto e os Rapazes os seus pijamas, preparando-se para voltar ao mundo exterior. Pequenas vitórias domésticas que assinalam a possibilidade de avançar. Sem a presença esmagadora (mas paradoxalmente libertadora) do Corvo, é a voz dos Rapazes que se faz ouvir, “e a voz deles era a vida e a canção da sua mãe. Inacabada. Bela. Tudo.”
Grief is the Thing With Feathers é um poderoso e inovador exercício sobre a perda humana, a mágoa do luto de alguém amado e a necessidade de nos deixarmos debicar pela dor constante trazida pelas memórias dos que nos deixaram, para que seja possível superar a perda. É a universalidade da morte, e o inevitável desaparecimento de quem se senta ao nosso lado no teatro e de nós mesmos, que faz com que o efeito de Grief is the Thing With Feathers seja prolongado bem para além do seu final.
“A tua morte foi-me mostrada. Eis: nada e o seu reverso: nada” (109), escreve Roubaud em alguma coisa negro. Não há razão ou lógica na perda ou na morte, nem as canções piegas irão parar de tocar sobre os choros e lamentos de maridos ou filhos. O luto é uma criatura que se domestica, alimenta e nutre durante o longo processo de cicatrização; e, quando finalmente é possível, se liberta.

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