home Antologia, LITERATURA A Guerra de Samuel – Paulo Varela Gomes (Tinta da China, 2017)

A Guerra de Samuel – Paulo Varela Gomes (Tinta da China, 2017)

Tanto a novela epónima, quanto os sete contos que completam A Guerra de Samuel, desenvolvem uma premissa essencial: a espiritualidade num tempo irremediavelmente (?) laico. Estas ficções de Paulo Varela Gomes põem em confronto a tradição espiritual, de matriz judaico-cristã, e diversas manifestações do materialismo. Teorético, político, ou adstrito às práticas quotidianas, esse materialismo é sempre o suporte sobre o qual se podem equacionar os valores, as adesões e os sistemas emanados da esfera do espírito. Não se trata apenas de uma questão onomástica. O Samuel da novela que intitula o livro póstumo de Varela Gomes – e a mais ambiciosa das ficções nele reunidas – deriva em linha recta do homónimo bíblico. Isso mesmo é sugerido, e afirmado, mais de uma vez, ao longo de «A Guerra de Samuel». Isso mesmo é também constatável a cada passo de uma novela que questiona os fenómenos mais díspares e, por vezes, menos óbvios da religiosidade. De resto, os contos que sucedem a «A Guerra de Samuel» são, de um modo não muito diverso, uma declinação das mesmas relações entre o temporal e o espiritual. Relações que se crispam, também se reconciliam, mas que são, em toda a linha, marcadamente complexas na sua descontinuidade.

O narrador de «A Guerra de Samuel» age de modo análogoao antigo jornalista do primeiro conto, «A Ressurreição da Senhora Professora». Em ambos os casos se narra como faria um observador,tendencialmente imparcial, que recordasse e fizesse os seus registos. Na novela, um tenente que integra as fileiras de um exército revoltoso, «no final do primeiro quartel do século XXI» (p.31), narra acontecimentos que o rodearam e que sofrerama sua acção directa.No conto, o relato desvela factos investigados pelo narrador durante a prática do seu ofício – e que foram, em tempos, alvo de uma peça jornalística que a censura do Estado Novo encobriu. No primeiro caso,o relato, entre contido e empenhado, de um descalabro num futuro não muito distante; no outro, um caso de ressurreição engenhado e experimentado (?), mas logo oculto, num país submetidopela mordaça dos bons costumes, absorto naestupefacção da «religião de Estado», cativodeum atavismo estarrecido. Nas duas narrativas, a mesma distanciação imposta pelo tempo: no conto, décadas passadas; na novela, escassos anos que correm como velocistas e pesam como lençóis de chumbo. Em qualquer deles, o mesmo cuidado: uma narração que se equivale ao trabalho de historiar, questionando origor, a reconstrução permanente do possível verdadeiro. Um outro conto há-de explorar a ideia de um tempo futuro assolado pela guerra, a destruição, as mais severas provações, até ao apocalipse. Um cenário que cada vez menos se limita aos domínios da ficção é reelaborado nesse conto final do volume, «Até ao Fim». Numa nota repleta de irónica autocensura, Paulo Varela Gomes assevera não ter tido conhecimento deA Possibilidade de Uma Ilha no momento de escrita do conto.No seu sardónico resumo, podemos ler: «a existência do presente conto e o número de coincidências temáticas entre este romance de Houellebecq deve-se apenas à minha sistemática distracção» (p.221). Neste conto, um matriarcado unido em torno do símbolo de um favo comunitário, opõe as suas teorias e práticas a um mundo que se vai imolando no lume sôfrego da sua soberba, na voragem destrutiva de um poder falocêntrico e assassino. Essa mesma ideia de comunidade subsistirá, mutatismutandis, no conto «Apoptose». Aqui, os nexos são logo inicialmente esboçados. O fenómeno a que o título alude, foi o autor buscá-lo à biologia. Esta capacidade de a célula provocar a sua própria destruição, através da gestão da densidade populacional de células saudáveis, é uma antecipação dos acontecimentos descritos no conto. Uma comuna põe constantemente em causa o próprio sentido do comunitário, e as diversas associações, mais ou menos erráticas, com o comunismo. Congregado heterogéneo e mitigadamente conflitual, o núcleo, a célula comunitária é um viveiro de pertinazes individualismos, caricaturas de arquétipos – «um homem conhecido por Boris que deixara crescer uma barbicha de bode» (p.158) –, ou simples mandões. O arremedo de burocracia, o novelo da nomenclatura, a tentação do pequeno poder, parecem fazer da comuna um laboratório de experiências políticas, e de memórias históricas, onde se discutem, na prática colectiva, ideias distintas de progresso, liberdade, bem-estar. O paralelo biológico que desde o começo se insinuara, no entanto, confirma-se; e é o conflito, a oposição, a guerra fria que dominam, como uma redoma sobre uma comunidade, verdadeiramente, sempre por vir.

O estatuto do narrador em «A Guerra de Samuel» e «A Ressurreição da Senhora Professora» vê-se, de certa forma, replicado no conto «A Baleia» – «Este vosso repórter, ao investigar os acontecimentos na semana passada na conhecida praia da região centro, encontrou o manuscrito com a autobiografia da mulher que neles desempenhou o papel principal.» (p.123) Decerto não terá sido por acaso que Paulo Varela Gomes reincidiu na escolha de um repórter/jornalista para acender o rastilho destas ficções. Parecia interessar ao autor a recriação de certas realidades determinadas por estruturas sociais e epocais, mesmo se distorcidas pelos instrumentos da fantasia e da efabulação – o trabalho jornalístico constitui um instrumento exacto para dar forma a esse desiderato. No caso de «A Baleia», o mecanismo antiquíssimo do documento achado dá o sinal de arranque para uma descida vertiginosa. A que escava por si adentro uma personagem condenada ao suplício concretíssimo de um físico disforme, que condiciona o cruel chamadouro do título. Refugiada na solidão de um corpo que se autodestrói em ritmo avassalador, a protagonista encontra sucedâneo atrás de sucedâneo para escamotear uma realidade iniludível e terrífica: a de si própria. Erguendo barricadas entre si e o mundo, deixa de frequentar a escola, entrincheira-se na casa de família, refugiada num monturo de livros que não lê, ou devora pelos piores motivos, por razão nenhuma, ou como prelúdio do ressentimento mais carnívoro – «Pensam que por ter lido muito, gostava de livros, do que eles são, do que neles se lê? Odiava-os. Pensava que eram o ópio dos gordos, dos inúteis, dos impotentes, dos incapazes, dos fracos, dos paralíticos, dos cobardes. Abria cada livro como quem prepara uma injecção de droga, fechava-o, ao acabar de o ler, com o alívio da dona de casa perante o caixote de lixo finalmente despejado e limpo.» (p.128) As enumerações, a confissão desgastada de quem, na matéria impressa, escruta desesperadamente o refrigério para a sua angústia devorante, a analogia reveladora, terão um paralelo terrível na hermenêutica bíblica em que a personagem se lançará. A leitura de MobyDick – cujo texto, «em inglês» (p.129), é descarregado de um computador – desperta uma curiosidade voraz mas fruste. Toda a pesquisa e toda a sede de saber se revelam instrumentos especulares, artefactos rudemente manejados para apaziguar a ansiedade, aplacar o medo, o transe de quem sofre as piores agruras diante da sua própria imagem – repetida, distorcida, imaterializada. É esse sofrimento que, obliquamente, o conto revela. Não de modo afirmativo, declamatório, mas sempre em resultado de outras operações da narrativa, em vagas enoveladas, em diferido.

O que em «A Baleia» é bulimia do texto bíblico com fins de autobiografia distorcida – a baleia de Jonas que a protagonista quer (e não quer) espelho de si – é, no conto «Gnose», matéria ainda mais subtil. Sofia tem por pais adoptivos um casal de católicos coptas chamados Joaquim e Ana. O nome dos avós de Cristo, pais da Virgem Maria, é apenas um dos sinais sobremaneira discretos da presença crística no conto. Outra é ainda mais sub-reptícia. Com o decorrer do conto, Sofia terá por colega de trabalho um jovem chamado Jess – o nome familiar por que é conhecido, perceberemos, deriva do seu nome de baptismo, Jesus. Nenhum dos «sinais» é, no entanto, um indício forçoso, antes uma hipótese de trabalho. Possibilidade de inquietação num conto que deixa, habilmente, mais por esclarecer do que por afirmar. O «angelismo» de Sofia, a invulgaridade da sua brandura, os estranhos modos do seu trato, um nascimento não testemunhado pelos pais (adoptivos), são signos de uma inquietação no tecido da narrativa; mas não chegam a ser garantes de uma identificação cabal.

A Guerra de Samuelexplora com inusual minúcia a relação do humano com o divino, sempre sujeita aos mais díspares revisionismos. Por exemplo, «O Jardim do Éden» constitui um relato na primeira pessoa de uma mulher que Deus conduz ao Éden do título. Espécie de novo Adão no feminino – como, em «Até ao Fim», a falange feminina reza a um Deus matriarcal –, a narradora protagonista refaz o percurso adâmico em sentido inverso. Partindo de fora do Paraíso, a ele chega e é nele que se despe, aí assumindo a sua verdadeira natureza (?). Também a esta pioneira interdimensionalcabe nomear os animais que lhe são desconhecidos. O seu trânsito no jardim das delícias, porém, é convulso, crivado de dúvidas, receoso e questionador – como se fosse uma emanação de quem escreve impulsionado pelo espírito da pesquisa e da reflexão. Regressada do Paraíso, a protagonista descreverá «o caminho da beatitude» (p.155) como «uma ténue e frágil pista marcada na areia do deserto» (id.). Um símile que recupera um elemento matricial – as areias do deserto –, que se alia a uma notação temporal, física, desse modo desfazendo a unidade da crença, ou dotando-a de mais amplas cambiantes?

Possivelmente, foi na novela que fornece o título a este livro que Paulo Varela Gomes mais consumadamente desenvolveu o seu ponto de partida. Situado num ponto não especificado, mas relativamente próximo, do futuro, a narrativa estabelece um cenário de guerra. Um corpo armado organiza, a partir de Coimbra, a resistência contra o poder tirânico de uma «Aliança Europeia» (p.84) marcada pela «cleptocracia» (p.48) – na sequência do «desabamento da velha União Europeia» (p.50). O ideário de Samuel é a peça central deste mosaico; e é pela sua acção, ou em deriva mais ou menos indirecta dela, que deslizam os segmentos desse painel complexo: Deus, uma teoria da decadência civilizacional, a tomada de poder pela força dos militares, o mapa geoestratégico da Europa e do Norte de África. Peças desirmanadas que não entram, propriamente, em súbita harmonia, mas que procuram possibilidades de desenho mais ou menos fixo. Samuel tem um passado que passa por Angola, pertence à fé luterana, é um pregador – sobretudo, «um tipo de chefe político e orador como não havia em Portugal há mais de um século (…) um tribuno, a sua voz, aquilo que dizia e o modo como o dizia, a autoridade que emanava do seu rosto, não tinham nada que ver com a triste e cobarde mediocridade dos chamados políticos» (p.47). Um conservadorismo revolucionário, que encontra em Michelet, Gibbon e Spengler modelos que permitem a Samuel erigir as suas teses, que teorizam a decadência civilizacional e preconizam o caminho da revolução. Um caminho que Samuel percorre, com as fileiras que consegue cativar com o seu discurso exaltado, não isento de demagogia, e a retórica incendiária que o sustenta. Tal como acontece com os contos que se centram exclusivamente (?) na temática religiosa, não há aqui nada de inequívoco e decisivo. As vitórias do exército de Samuel são maculadas pela morte trágica da sua irmã, por dissensões – desde logo, com o narrador – e alcançam uma conclusão que não o é, verdadeiramente. A última frase da novela fala, precisamente, de uma «encruzilhada» (p.98).

Paulo Varela Gomes não era um estilista. Talvez não fosse justo atribuir-lhe o duro juízo que George Orwell reservou para si próprio, comparando o seu estilo a uma vidraça; mas na velha querela forma versus fundo, se é que ela ainda faria sentido, a prosa de PVG pende para o fundo mais do que para a forma. O que não implica que se pretenda ver na escrita de Varela Gomes qualquer ausência de fulgor estilístico, ou arrojo na construção discursiva. Simplesmente que essas questões – mesmo consideradas como instrumentos, e não como fins em si mesmas – não dominam na pesagem global do seu trabalho. Esta escrita não hesita perante a aparente banalidade de «uma omoplata tão lisa como um gelado» (p.163). Mas o autor põe a maior das suas dedicações no traçar dos espaços, na apresentação de dinâmicas arquitectónicas e históricas, ou no desvendamento das variações de que a luz é capaz. Decorrência, como é natural, da formação académica e percurso profissional do autor, o seu desvelo na atenção à espacialidade destaca, nos textos, momentos especialmente inspirados de rigor e conseguimento verbal – «entrou na Merchants Street, uma das principais ruas que traçam a malha rectilínea e regular da cidade. Varrida pelo sol, a rua estava demasiado quente e as pessoas subiam encostadas às paredes» (p.202). A coligação entre informação histórica e realização arquitectónica adquire um corpo especialmente tonificado nestes contos – «Tinham herdado a casa depois da morte da mãe de Alejandra, que a herdara por sua vez do avô. Fora este quem mandara construir a casa sobre as ruínas de um solar quinhentista, de que aproveitara os fundamentos e algumas molduras de portas e janelas. Era uma moradia em estilo renascentista espanhol. O pequeno jardim onde crescia um pinheiro-manso grande e antigo estava parcialmente escondido por detrás de um muro alto de tijolo.» (p.206). Paulo Varela Gomes descrevia com mestria invulgar aspectos de não fácil captação, como os fenómenos ópticos – «Quando o sol tocou no mar e este, tinto de cor de laranja e vermelhão, se pôs repentinamente liso e silencioso, calámo-nos todas e todos e, iluminados de ouro, imóveis como estátuas de adoradores, estivemos ali, sobre as rochas, as árvores, o prado, até a noite nos acariciar com um brisa cálida vinda do oceano e nos envolver numa escuridão como que translúcida, como que alumiada de dentro, através da qual víamos tudo a preto e branco, sem que qualquer lua perturbasse a negridão estrelada do firmamento.» (p.145). Por vezes,fazia-o num quase expressionismo que carregava os tons e levantava os sentidos, tocando a reunir memórias de arquétipos culturais e literários, em regimes não propriamente paródicos, mas de uma revisitação hiperconsciente – «Cá fora, no cemitério, ouvia-se o baloiçar suave dos ciprestes e o miar de um gato à lua. Dentro do caixão, uma luminosidade branca ocupou suavemente todos os recantos. Era verdadeira luz, intensa e amorosa, não a luzinha vermelha e mesquinha que entretanto desaparecera.» (p.120) Como sucedia com o cuidado que dedicava a lugares e construções, a probidade com que traçava estes quadros não respondia a um apelo decorativista, mas representava um investimento no conhecimento do humano. A aventura humana, mesmo quando confrontada com o divino, como nestes contos, era o que mais interessava ao autor. A arquitectura e a gestão dos espaços seria uma manifestação dessa acção humana especialmente apetecida pela escrita.

Texto de Hugo Pinto Santos

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