home Didascálias, TEATRO O Homem da Guitarra – Teatro Carlos Alberto, 14/07/2017

O Homem da Guitarra – Teatro Carlos Alberto, 14/07/2017

Sobre Jon Fosse, já muito foi dito, inclusive aqui na INTRO. Dono de um registo dramático e linguístico facilmente identificável, este O Homem da Guitarra, interpretado por um corajoso Manuel Wiborg no Teatro Carlos Alberto, apenas confirma a sua destreza na criação de personagens maltratadas pela vida, como se de um fado irremediável se tratasse, mantendo, no entanto, uma nesga de esperança (mesmo que fantasiosa) em melhores dias e o humor duro de quem nada mais tem a perder.

O homem que titula a peça declara-se vencido. Pelo passado, pelo presente, pela ausência de um futuro palpável. Assiste, plácido, à passagem dos dias a tocar guitarra, todos os dias do ano, na rua e “na passagem subterrânea”, para ganhar “umas coroas” que o sustentam.

“Sou a tentativa falhada/de viver uma vida melhor/Sou uma invenção falhada(…)Eu sou um homem e/daquilo que me resta/nem vale a pena falar”

A ironia de Fosse atinge aqui o zénite. Perto do final da peça, depois de mais uma cerveja barata no bucho, a embriaguez instalada, o nosso músico falhado insiste em cantar pessimamente mais uma letra improptu, que soa ainda pior do que a cerveja lhe deve ter sabido.

E fala, fala, fala… Repete-se, enreda-se em ladaínhas, mascarando com escárnio e auto-comiseração a dor profunda em que vive afogado há tempo demais. Faz planos para uma mudança. “Há-de haver uma saída/ Não preciso de ficar/ cá nesta cidade/ tão ao norte do Mundo”, mas sabe (e nós também) da dificuldade de mudar de pele, tantos anos volvidos. Evoca Eclasiastes: “Há um tempo para tudo/ Para cada pessoa/ E para cada música.”

Ele, o homem da guitarra, é uma vida que podia ser de qualquer outro. E podia ter corrido melhor. “Claro que podia ter sido diferente…” Há uma mulher que o abandona, um filho que o renega por vergonha. Um vislumbre de felicidade tornada dor e ressentimento.

O texto, monológico, curto e parco em didascálias, é duro e de uma aridez desconcertante. Falávamos na coragem do Manuel Wiborg ao agarrar nesta personagem, por se tratar da verdadeira antítese do clássico protagonista teatral. É o retrato do homem com que nos cruzamos na rua e nos pede dinheiro com o olhar, que nos revela e, por isso, assusta, por nele nos vermos reflectidos, na constatação de que basta um deslize (uma relação que corre mal, uma família destroçada, um coração destruído) para que chegue o frio da passagem subterrânea.

“Mas normalmente passam por mim de cabeça baixa/ Passam por mim e têm vergonha (…) Têm vergonha de mim/Ou têm vergonha de si próprias/Porque será que têm vergonha “

Wiborg não é aqui o actor de novela da noite nem das séries históricas. É um de nós no nosso pior momento. “Sou é um cansaço/Já não sou/muito mais do que aquilo que se vê (…) Sou só um desespero profundo”. Canta durante quase toda a peça, numa dissonância que roça o cómico, não fosse o texto tão lúgubre. Mas é através da sua voz e presença que as palavras de Fosse ganham densidade dramática e emoção, transfiguram-se em Vida. Um belo desempenho que vale mais uma ida ao Teatro.

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Foto © Susana Neves

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